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ALMS realiza audiência pública para Prestação de Contas dos Três Poderes — transparência em debate

Assembleia Legislativa abre sessão para fiscalização popular das contas do Executivo, Legislativo e Judiciário de MS. Evento expõe fragilidades na participação cidadã.

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Por Redação Bastidor Público
Publicado em 31 de março de 2026 às 00:00
Campo Grande8 min de leitura
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Audiência pública na ALMS para Prestação de Contas dos Poderes — Foto: Wagner Guimarães/ALMS
Audiência pública na ALMS para Prestação de Contas dos Poderes — Foto: Wagner Guimarães/ALMS

ALMS abre audiência pública para Prestação de Contas

A Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul realizou audiência pública para a Prestação de Contas dos Poderes — momento em que o Executivo, Legislativo e Judiciário apresentam à população como utilizaram os recursos públicos no período de referência. O evento, previsto na Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), é uma das raras oportunidades em que o cidadão pode questionar diretamente os gestores sobre a aplicação do dinheiro público.

A audiência é obrigatória: o artigo 9º, § 4º da LRF determina que o Poder Executivo demonstre e avalie o cumprimento das metas fiscais de cada quadrimestre em audiência pública na Assembleia Legislativa. O descumprimento pode gerar responsabilização do gestor junto ao Tribunal de Contas.

O Que Foi Apresentado

A Prestação de Contas abrange os dados do exercício fiscal, incluindo receitas, despesas, investimentos e limites da LRF. Os principais indicadores apresentados revelam o estado financeiro de MS:

Indicador Valor Limite LRF Situação
Receita Corrente Líquida (RCL) R$ 15,2 bilhões — Base de cálculo
Despesas com pessoal (total) R$ 8,8 bilhões 60% da RCL 57,9% — atenção
Despesas pessoal Executivo R$ 7,4 bilhões 49% da RCL 48,7% — próximo do límite
Dívida consolidada R$ 4,1 bilhões 200% da RCL 27% — folga
Investimentos R$ 1,8 bilhão — 11,8% da RCL

Os números mostram um estado que opera no limite quando se trata de despesas com pessoal, mas com situação confortável em endividamento. O indicador mais preocupante é o de despesas com pessoal do Executivo: 48,7% da RCL, a apenas 0,3 ponto percentual do limite prudencial de 49%.

Participação Cidadã: O Elefante na Sala

A audiência pública é, em tese, o momento mais importante de controle social sobre o orçamento. Na prática, a participação popular é ínfima. As audiências de prestação de contas na ALMS historicamente atraem menos de 30 pessoas — em um estado com 2,8 milhões de habitantes.

As razões para a baixa participação são múltiplas: horário incompatível com a jornada de trabalho (sessões em horário comercial), linguagem técnica inacessível ao cidadão comum, distância da capital para moradores do interior e, sobretudo, a percepção de que a audiência é um ritual burocrático sem poder efetivo de alterar as contas apresentadas.

O Bastidor Público defende que a participação popular em audiências de prestação de contas deveria ser incentivada — não apenas permitida. Propostas como audiências descentralizadas nas principais cidades do interior, transmissão ao vivo com chat para perguntas e publicação prévia de resumo executivo em linguagem acessível poderiam multiplicar o engajamento.

O Papel do TCE-MS

O Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul (TCE-MS) é o órgão responsável por analisar tecnicamente as contas apresentadas e emitir parecer prévio — que serve de base para a decisão final da Assembleia Legislativa sobre aprovar ou rejeitar as contas.

O parecer do TCE não é vinculante: a ALMS pode aprová-lo ou rejeitá-lo por maioria qualificada. Na prática, porém, o parecer tem peso decisivo: contas reprovadas pelo tribunal raramente são revertidas pela Assembleia, dado o custo político de aprovar contas com irregularidades apontadas por órgão técnico.

Em 2025, o TCE-MS julgou irregulares as contas de 12 municípios sul-mato-grossenses — número que representa aumento em relação aos 8 municípios de 2024. Os principais motivos de reprovação foram: despesas com pessoal acima do limite (5 municípios), ausência de aplicação mínima em saúde (4 municípios) e insuficiência de aplicação em educação (3 municípios).

Impacto no Bolso do Cidadão

A Prestação de Contas não é formalidade burocrática — é o momento em que se confirma se o dinheiro do contribuinte foi bem aplicado:

  • Despesas com pessoal a 48,7%: o estado gasta quase metade de tudo que arrecada com salários. Cada 1% acima do prudencial de 49% aciona restrições automáticas: proibição de reajustes, contratações e horas extras. O reajuste de 3,81% recém-aprovado pode empurrar o indicador para além do limite
  • Investimentos de 11,8%: MS investe R$ 1,8 bilhão — R$ 642 per capita. Para comparação, Goiás investe R$ 780 per capita e Paraná R$ 920. A diferença se traduz em menos escolas, menos postos de saúde e menos quilômetros de estrada pavimentada
  • Dívida controlada: a folga na dívida (27% vs. limite de 200%) é ponto positivo — mas pode ser usada politicamente para justificar novos empréstimos em ano eleitoral, comprometendo gestões futuras
  • Transparência real: o cidadão que acompanha a prestação de contas pode identificar onde o dinheiro está sendo mal aplicado e cobrar de seus deputados ações corretivas

Análise do Bastidor Público

A Prestação de Contas dos Poderes é, paradoxalmente, o ato mais importante e mais ignorado da vida democrática. É nesse momento que o governo abre seus números — e é nesse momento que o cidadão tem o direito e o dever de questionar cada centavo gasto.

O indicador que merece atenção imediata é o de despesas com pessoal: 48,7% está a um fio do limite prudencial. Com o reajuste de 3,81% já aprovado e a pressão por progressões funcionais, é matematicamente provável que MS ultrapasse 49% no próximo relatório — o que acionaria restrições automáticas da LRF.

O Bastidor Público reportará em detalhe o parecer do TCE-MS quando for publicado, comparando os números apresentados na audiência com a análise técnica do tribunal. É na diferença entre o que o governo apresenta e o que o TCE encontra que se esconde a verdade sobre as finanças do estado.

Próximos Passos

  • Parecer prévio do TCE-MS sobre as contas: previsto para o 2º semestre de 2026
  • Próxima audiência de prestação de contas: agosto de 2026 (2º quadrimestre)
  • Votação das contas pela ALMS: sem data definida

Perguntas Frequentes

A audiência de prestação de contas é obrigatória?

Sim. O artigo 9º, § 4º da Lei de Responsabilidade Fiscal (LC 101/2000) determina a realização de audiência pública quadrimestral para demonstração das metas fiscais.

O cidadão pode participar?

Sim. As audiências são públicas e abertas. Qualquer cidadão pode comparecer, assistir e formular perguntas. As sessões são realizadas na sede da ALMS em Campo Grande e transmitidas pela TV Assembleia.

O que acontece se as contas forem reprovadas?

A rejeição das contas pode gerar inelegibilidade do gestor responsável por 8 anos (Lei da Ficha Limpa), além de abertura de processos por improbidade administrativa e possível devolução de recursos ao erário.

Quanto MS gasta com pessoal?

48,7% da Receita Corrente Líquida — próximo do limite prudencial de 49%. Se ultrapassar esse patamar, o estado fica automaticamente impedido de conceder reajustes, criar cargos e realizar contratações.


Fontes: Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (al.ms.gov.br), Lei Complementar 101/2000 (LRF), TCE-MS (tce.ms.gov.br), Tesouro Nacional

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Fonte: Assembleia Legislativa de MS (al.ms.gov.br)
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