O Que Aconteceu
O governador Eduardo Riedel arrancou mudas de murta durante a Expogrande em Campo Grande, na quarta-feira (16 de abril), em ato simbólico contra o greening — doença que ameaça a citricultura brasileira e já causa prejuízos bilionários em São Paulo. A murta é uma planta ornamental que hospeda o psilídeo, inseto transmissor da bactéria causadora da doença.
Na mesma agenda, Riedel assinou dois convênios com o setor agropecuário. O primeiro prevê a construção de uma escola no Pantanal, em parceria com a Famasul e o Senar, em terreno doado pela produtora rural Tânia de Barros. O segundo estabelece a digitalização de títulos de propriedades rurais na faixa de fronteira com uso de inteligência artificial, reduzindo o prazo de regularização fundiária de mais de dois anos para poucos meses.
O governador recebeu ainda o documento "Demandas para o Fortalecimento da Agropecuária de MS", entregue pela Famasul. O texto reúne reivindicações do setor produtivo para os próximos dois anos, incluindo infraestrutura logística, defesa sanitária e acesso a crédito.
Contexto e Histórico
O greening é considerado a pior doença da citricultura mundial. Causado pela bactéria Candidatus Liberibacter, o patógeno é transmitido pelo psilídeo (Diaphorina citri), que se reproduz preferencialmente na murta (Murraya paniculata). A planta, popular em cercas vivas e jardins residenciais, funciona como reservatório do inseto vetor. Enquanto houver murta nas proximidades de pomares, o risco de contaminação persiste.
São Paulo, maior produtor de laranja do mundo, já perdeu mais de 40 milhões de pés de citros por causa do greening nas últimas duas décadas. O Fundecitrus (Fundo de Defesa da Citricultura) estima que a doença reduz a produtividade dos pomares paulistas em até 40%. Mato Grosso do Sul, que expande sua citricultura no sul do estado, observa o avanço da praga com preocupação.
A Expogrande é a maior feira agropecuária de Mato Grosso do Sul. Realizada anualmente no Parque de Exposições Laucídio Coelho, em Campo Grande, reúne produtores rurais, agroindústrias, fornecedores de insumos e autoridades públicas. O evento funciona como vitrine do agronegócio estadual e palco para anúncios de políticas públicas voltadas ao setor.
Riedel, que construiu carreira no agronegócio antes de entrar na política, usa a Expogrande como plataforma de diálogo com sua base eleitoral mais fiel. O governador foi presidente da Acrissul (Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul) antes de assumir a Secretaria de Governo na gestão Azambuja e, depois, o Palácio do Guanandi.
A presença de Marcelo Bertoni (Famasul), Guilherme Bumlai (Acrissul), Artur Falcette (Semadesc), Rodrigo Perez (Segov) e do ex-secretário Jaime Verruck no evento reforça o peso político do agronegócio na gestão Riedel. Verruck, que deixou o governo no início de 2026, mantém trânsito nos bastidores e participou da cerimônia como convidado.
O setor sucroalcooleiro de MS vive momento de expansão. O estado responde por 13,5% da produção nacional de etanol, com projeção de 5 bilhões de litros na safra 2025/2026. No Cana Summit 2026, realizado em Ribeirão Preto, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, elogiou publicamente o desempenho de Riedel na atração de investimentos para o setor — um reconhecimento que tem peso político em ano pré-eleitoral.
Impacto Para a População
O arranque de murta é gesto simbólico, mas a mensagem é prática: a população precisa eliminar a planta de jardins e calçadas para proteger a citricultura. Em Campo Grande, a murta é comum em condomínios, praças e canteiros centrais. A Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal (Iagro) já recomenda a substituição por espécies alternativas, mas não há legislação estadual que proíba o plantio.
Para produtores rurais da faixa de fronteira, a digitalização de títulos com IA resolve um problema que trava investimentos há anos. Sem título definitivo de propriedade, o produtor não acessa crédito rural no Banco do Brasil, na Caixa ou no BNDES. Não consegue seguro agrícola. Não pode participar de programas de financiamento do Pronaf ou do Pronamp. A regularização fundiária, que hoje leva mais de dois anos entre Incra, Ministério da Defesa e cartórios, passaria a ser concluída em meses.
A escola no Pantanal atende uma demanda antiga das comunidades ribeirinhas. Famílias que vivem em fazendas e retiros pantaneiros precisam enviar filhos para sedes municipais distantes — às vezes a mais de 100 quilômetros — para que frequentem a escola. O custo de transporte e hospedagem inviabiliza a educação de muitas crianças, contribuindo para o êxodo rural na região.
| Ação | Beneficiários diretos | Impacto esperado |
|---|---|---|
| Arranque de murta / combate ao greening | Citricultores do sul de MS | Proteção de pomares contra a doença |
| Escola no Pantanal (Famasul/Senar) | Filhos de trabalhadores rurais e ribeirinhos | Acesso à educação sem deslocamento para sede municipal |
| Digitalização de títulos com IA | Produtores na faixa de fronteira | Regularização fundiária em meses, acesso a crédito |
| Documento de demandas da Famasul | Setor agropecuário de MS | Pauta de reivindicações para os próximos dois anos |
| Expansão do etanol | Trabalhadores de usinas e fornecedores de cana | Geração de emprego e renda no interior |
O documento entregue pela Famasul ao governador inclui demandas que afetam o bolso do produtor e, por extensão, o preço dos alimentos. Infraestrutura logística deficiente encarece o frete de grãos e carne. Defesa sanitária insuficiente expõe rebanhos a doenças que podem fechar mercados internacionais. Crédito rural escasso limita a capacidade de investimento em tecnologia e produtividade.
O Que Dizem os Envolvidos
Riedel discursou para uma plateia de produtores e dirigentes do agronegócio. O tom foi de parceria:
"O agro de MS não precisa de discurso. Precisa de estrada, de escola, de título de terra. É isso que estamos entregando."
Marcelo Bertoni, presidente da Famasul, entregou o documento de demandas e cobrou agilidade:
"Entregamos um diagnóstico completo. O governador sabe o que o setor precisa. Agora é executar. O produtor não pode esperar mais dois anos por regularização fundiária."
Guilherme Bumlai, presidente da Acrissul e anfitrião da Expogrande, destacou o papel da feira como espaço de articulação política:
"A Expogrande não é só vitrine de gado e máquina. É onde o setor produtivo senta com o governo e cobra resultado."
Artur Falcette, secretário da Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação), detalhou o convênio de digitalização de títulos:
"A inteligência artificial vai analisar documentos que hoje levam meses para serem processados manualmente. Estamos falando de reduzir de dois anos para 90 dias em muitos casos."
Jaime Verruck, ex-secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento do governo Riedel, circulou pelo evento sem cargo oficial, mas com trânsito livre entre autoridades e empresários. Sua presença reforça a leitura de que Verruck mantém influência nos bastidores da política agropecuária de MS, mesmo fora do governo.
O elogio de Tarcísio de Freitas a Riedel no Cana Summit 2026 não passou despercebido. Em ano pré-eleitoral, o reconhecimento do governador de São Paulo — cotado para a disputa presidencial de 2026 — agrega capital político a Riedel junto ao eleitorado do agronegócio e ao empresariado nacional.
Próximos Passos
A Iagro deve lançar campanha estadual de substituição da murta nas próximas semanas. O plano inclui distribuição de mudas de espécies alternativas em viveiros municipais e orientação técnica para condomínios e prefeituras. A eficácia da campanha depende de adesão voluntária — sem legislação que proíba a murta, o governo aposta na conscientização.
O convênio da escola no Pantanal prevê início das obras no segundo semestre de 2026. A Famasul e o Senar serão responsáveis pela execução, com supervisão do governo estadual. O terreno doado por Tânia de Barros já está regularizado, o que elimina uma das etapas burocráticas mais demoradas.
A digitalização de títulos na faixa de fronteira começa como projeto-piloto em três municípios: Ponta Porã, Coronel Sapucaia e Mundo Novo. Se os resultados confirmarem a redução de prazo prometida, o modelo será expandido para toda a faixa de fronteira de MS, que abrange 44 municípios.
O documento da Famasul será analisado pela Semadesc e pela Segov nas próximas semanas. O governo deve responder com um plano de ação até julho, indicando quais demandas serão atendidas no curto prazo e quais dependem de articulação com o governo federal ou de aprovação legislativa.
A safra 2025/2026 de cana-de-açúcar em MS está em fase de colheita. Os 5 bilhões de litros de etanol projetados serão confirmados ou revisados até o final do segundo semestre. Se a meta for atingida, MS consolida a posição de segundo maior produtor nacional e fortalece o argumento de Riedel de que o estado é referência em bioenergia.
Fechamento
A agenda de Riedel na Expogrande combinou gesto simbólico, assinatura de convênios e recepção de demandas do setor produtivo. O arranque de murta traduz uma preocupação real — o greening pode causar prejuízos bilionários se chegar aos pomares de MS com a mesma intensidade que atingiu São Paulo. Os convênios de escola e digitalização de títulos respondem a problemas concretos do campo: falta de educação no Pantanal e burocracia fundiária na fronteira.
O desafio é a execução. Convênios assinados em feiras agropecuárias nem sempre se transformam em obras concluídas e serviços entregues. O setor produtivo de MS conhece bem a distância entre o palanque da Expogrande e a realidade do campo. Riedel terá de mostrar resultados antes de outubro de 2026, quando o calendário eleitoral transforma cada promessa não cumprida em munição para adversários.
Fontes e Referências
- Campo Grande News (campograndenews.com.br)
- Famasul — Federação da Agricultura e Pecuária de MS (famasul.com.br)
- Fundecitrus — Fundo de Defesa da Citricultura (fundecitrus.com.br)
- Iagro — Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal (iagro.ms.gov.br)
