Uma pesquisa de doutorado pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) mapeou ao menos 24 redes familiares com presença recorrente na política de Mato Grosso do Sul entre 1982 e 2022. O estudo do cientista político Filipe Wisley Matos Rosa, formado pela UFMS, revela que a redemocratização não dissolveu as oligarquias — reorganizou-as pelo voto.
O capital político familiar — nome, reputação e redes de apoio — segue sendo transferido entre gerações, perpetuando dinastias como Trad, Pedrossian e Tebet no poder regional por quase meio século.
O Que Aconteceu
A pesquisa analisou a trajetória dos políticos eleitos em Mato Grosso do Sul entre 1982 e 2022, cruzando dados eleitorais, genealogias políticas e redes de parentesco. O resultado é um mapa do familismo político sul-mato-grossense que desafia a narrativa de renovação democrática.
Entre as redes identificadas, ao menos 13 já podem ser citadas publicamente enquanto o pesquisador consolida os dados:
| Rede familiar | Presença política |
|---|---|
| Pedrossian | Governadores, deputados, cargos no Executivo |
| Tebet | Senado, governo, Assembleia |
| Trad | Prefeitura de CG, Senado, Câmara Federal, Assembleia |
| Machado | Assembleia (Londres Machado: 13 mandatos) |
| Teixeira | Assembleia (Zé Teixeira: 8 mandatos consecutivos) |
| Barbosa Martins | Cargos no Executivo e Legislativo |
| Amorim | Presença recorrente em eleições |
| Picarelli | Cargos legislativos e executivos |
| Monteiro Serrano | Presença em múltiplas legislaturas |
| Orro | Assembleia e cargos municipais |
| Lopes | Prefeitura de CG, Assembleia |
| Câmara | Assembleia (Nelito → Renato Câmara) |
| Maksoud | Presença em cargos eletivos |
"O capital político familiar segue sendo relevante independentemente do processo de redemocratização", afirmou o pesquisador em entrevista ao Campo Grande News.
Contexto e Histórico
Mato Grosso do Sul foi criado em 1977, por desmembramento de Mato Grosso, e realizou sua primeira eleição para governador em 1982. Desde então, a Assembleia Legislativa acumulou quase cinco décadas de funcionamento — e, segundo a pesquisa, de reprodução de elites políticas.
O coronelismo clássico, baseado no controle da terra e no uso da violência para garantir votos, deu lugar a um modelo mais sofisticado. As famílias políticas de MS operam por meio de redes que conectam mandatos eletivos, cargos de confiança, acesso a recursos públicos e alianças partidárias. O sobrenome funciona como marca — reconhecível pelo eleitor e associada a uma tradição de serviço público (ou de poder, dependendo da perspectiva).
Casos emblemáticos ilustram a permanência:
- Londres Machado acumula 13 mandatos desde os anos 1970 e atravessa diferentes ciclos políticos mantendo influência central no Legislativo.
- Zé Teixeira soma oito mandatos consecutivos desde 1994, com base consolidada no interior.
- Renato Câmara é herdeiro político de Nelito Câmara, reproduzindo o padrão de transmissão familiar do mandato.
- Lídio Lopes, marido da prefeita Adriane Lopes, articula poder legislativo e executivo municipal em uma rede que conecta Assembleia e Prefeitura de Campo Grande.
Paulo Corrêa, embora não herdeiro direto de uma dinastia clássica, integra o grupo de maior longevidade da Casa e opera dentro da lógica de alianças que sustenta o sistema.
Impacto Para a População
O familismo político tem consequências diretas para o eleitor. Quando o poder se concentra em redes familiares, a renovação política é dificultada, a fiscalização do governo enfraquece e o acesso a cargos públicos tende a seguir critérios de lealdade pessoal em vez de mérito.
| Consequência | Detalhe |
|---|---|
| Baixa renovação | Mesmas famílias ocupam cargos por décadas |
| Governismo crônico | Deputados dependem do governo para atender bases |
| Fiscalização fraca | Oposição reduzida a minorias na Assembleia |
| Emendas como moeda | R$ 96 milhões anuais em emendas parlamentares reforçam o modelo |
| Acesso desigual | Candidatos sem rede familiar enfrentam barreiras estruturais |
As emendas parlamentares da Assembleia Legislativa, que somam R$ 96 milhões por ano, são o combustível do sistema. Deputados usam os recursos para atender demandas de prefeitos e comunidades locais, convertendo repasses em capital eleitoral. Quem tem rede familiar consolidada parte com vantagem nessa disputa.
Para o eleitor que deseja renovação, o cenário é desafiador. Candidatos sem sobrenome político precisam construir visibilidade do zero, sem acesso às redes de apoio e aos recursos que as dinastias acumularam ao longo de décadas.
O Que Dizem os Envolvidos
O pesquisador Filipe Wisley Matos Rosa é cauteloso ao interpretar os dados. Segundo ele, o familismo não é exclusividade de MS — é um padrão nacional. Mas a concentração de redes em um estado jovem, com apenas 79 municípios e uma elite política relativamente pequena, torna o fenômeno mais visível.
"Mais do que sobrenomes tradicionais, trata-se de estruturas que conectam eleições, partidos, cargos e acesso ao Estado, funcionando como eixo de continuidade do poder", explicou.
O cientista político Daniel Miranda, da UFMS, complementa a análise: "As Assembleias Legislativas no Brasil são muito mais fracas perante os governadores do que o Congresso em relação ao presidente." Em MS, esse padrão é amplificado pela dependência dos deputados em relação ao Executivo para atender demandas locais.
Próximos Passos
- 2026: Publicação completa da pesquisa de doutorado pela UFSCar.
- Outubro: Eleições gerais — oportunidade de testar se o padrão se mantém ou se há sinais de renovação.
- Monitoramento: Acompanhar a composição das chapas proporcionais e a presença de sobrenomes tradicionais.
Fechamento
A pesquisa da UFSCar coloca números e método científico em algo que o eleitor de MS percebe intuitivamente: os mesmos sobrenomes se repetem, mandato após mandato, em diferentes cargos e partidos. A democracia não eliminou as oligarquias — deu a elas um mecanismo legítimo de reprodução. Para quem acredita em renovação política, o dado é incômodo. Para quem estuda poder, é previsível. O familismo em MS não é um defeito do sistema. É o sistema.
Fontes e Referências
- Campo Grande News (campograndenews.com.br) — "Redes familiares reorganizam poder desde 1982 e moldam a Assembleia Legislativa", 10 de abril de 2026
- Pesquisa de doutorado de Filipe Wisley Matos Rosa, UFSCar
