Uma pesquisa de doutorado conduzida por Filipe Wisley Matos Rosa, vinculado à Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e formado pela UFMS, mapeou 24 redes familiares com presença recorrente na política de Mato Grosso do Sul entre 1982 e 2022. O levantamento, divulgado pelo Campo Grande News em 10 de abril de 2026, revela que o familismo político não é exceção no estado — é regra estruturante do sistema de poder local.
Pedrossian, Barbosa Martins, Tebet, Machado, Trad, Amorim, Picarelli, Monteiro Serrano, Orro, Teixeira, Lopes, Câmara e Maksoud são alguns dos sobrenomes que se repetem nas chapas eleitorais, nos gabinetes e nos bastidores da política sul-mato-grossense há quatro décadas. O capital político, nessas famílias, funciona como herança — transmitido de pais para filhos, de tios para sobrinhos, de cônjuges para cônjuges.
O Que Aconteceu
A pesquisa de Filipe Wisley Matos Rosa analisou quatro décadas de eleições em Mato Grosso do Sul, desde o primeiro pleito direto para governador, em 1982, até as eleições gerais de 2022. O trabalho acadêmico identificou padrões de reprodução familiar no poder que atravessam partidos, ideologias e ciclos eleitorais.
O pesquisador rastreou parentescos, casamentos, alianças e sucessões dentro de 24 redes familiares que ocuparam cargos eletivos — de vereador a governador — ao longo do período estudado. O resultado é um mapa detalhado de como o poder político em MS circula dentro de um grupo restrito de famílias, muitas delas presentes desde a criação do estado.
O Campo Grande News publicou a reportagem em 10 de abril de 2026, trazendo os dados da pesquisa e entrevistas que contextualizam o fenômeno. O material expõe que a renovação política no estado é, em grande medida, uma ilusão: novos nomes surgem, mas frequentemente carregam sobrenomes antigos.
Contexto e Histórico
Mato Grosso do Sul foi criado em 1977, desmembrado de Mato Grosso por decisão do governo militar. Os primeiros governadores foram nomeados, e quando as eleições diretas retornaram, em 1982, as famílias que já detinham poder econômico e social na região — fazendeiros, comerciantes, profissionais liberais — converteram esse capital em mandatos eletivos.
Pedro Pedrossian é o caso mais emblemático. Governou o estado em três mandatos, construindo uma rede de influência que se estende até hoje por meio de Pedrossian Neto, que mantém presença na política estadual. A longevidade do clã Pedrossian demonstra como o sobrenome funciona como atalho eleitoral: o eleitor reconhece a marca familiar e associa o candidato a uma tradição de poder.
A família Trad oferece outro exemplo de diversificação geracional. O patriarca, Nelson Trad, de origem urbana libanesa, foi vice-prefeito de Campo Grande em 1963 e teve seus direitos políticos cassados pela ditadura militar. A perseguição política não extinguiu o clã — ao contrário, fortaleceu a narrativa familiar de resistência. Nas décadas seguintes, os Trad se espalharam por diferentes cargos e partidos:
| Membro | Cargo | Partido |
|---|---|---|
| Nelson Trad | Vice-prefeito de CG (1963), cassado pela ditadura | — |
| Nelsinho Trad | Senador da República | PSD |
| Marquinhos Trad | Ex-prefeito de Campo Grande | PSD |
| Fábio Trad | Deputado federal | PT |
A presença simultânea de três membros da família em cargos de diferentes esferas — Senado, prefeitura e Câmara Federal — ilustra a capacidade dos Trad de ocupar múltiplos espaços de poder. O fato de Fábio Trad estar filiado ao PT, enquanto Nelsinho e Marquinhos atuam pelo PSD, mostra que a lealdade familiar transcende a filiação partidária.
Os Machado, com Londres Machado e seus 13 mandatos como deputado estadual, representam a vertente da longevidade parlamentar. Os Teixeira, com Zé Teixeira acumulando oito mandatos consecutivos, seguem padrão semelhante. Ambas as famílias construíram suas bases no interior do estado, vinculadas ao agronegócio.
Impacto Para a População
O familismo político produz efeitos concretos na qualidade da representação democrática. Quando o acesso ao poder depende mais do sobrenome do que da competência ou das propostas, o sistema político se fecha para candidatos sem conexões familiares.
| Efeito do familismo | Consequência para o cidadão |
|---|---|
| Barreiras de entrada na política | Candidatos sem sobrenome conhecido têm menos acesso a financiamento e estrutura partidária |
| Concentração de poder | Decisões sobre orçamento, obras e políticas públicas circulam entre as mesmas famílias |
| Reprodução de práticas | Vícios administrativos e alianças clientelistas se perpetuam entre gerações |
| Ilusão de renovação | Novos nomes com sobrenomes antigos simulam mudança sem alterar a estrutura de poder |
| Captura de cargos | Famílias ocupam simultaneamente Executivo, Legislativo e cargos comissionados |
O eleitor sul-mato-grossense enfrenta um paradoxo: vota em eleições competitivas, com múltiplos candidatos e partidos, mas o resultado frequentemente reproduz as mesmas redes de poder. A pesquisa de Filipe Wisley Matos Rosa quantifica esse fenômeno ao demonstrar que 24 famílias mantiveram presença contínua na política estadual por 40 anos.
A concentração familiar no poder também afeta a distribuição de recursos públicos. Famílias com membros em diferentes esferas — municipal, estadual e federal — conseguem articular emendas, convênios e investimentos de forma coordenada, beneficiando suas bases eleitorais em detrimento de regiões sem representação familiar no poder.
Para o cidadão comum que deseja ingressar na política, o familismo representa uma barreira estrutural. Sem o reconhecimento do sobrenome, sem a rede de contatos herdada e sem o acesso privilegiado a financiadores de campanha, o candidato independente parte em desvantagem significativa.
O Que Dizem os Envolvidos
A pesquisa de Filipe Wisley Matos Rosa adota uma abordagem acadêmica que evita julgamentos morais sobre as famílias mapeadas. O pesquisador trata o familismo como fenômeno sociológico, não como desvio ético. Sua análise demonstra que a transferência de capital político entre gerações é facilitada por fatores objetivos: reconhecimento do nome, acesso a redes de financiamento, domínio de técnicas eleitorais e inserção em estruturas partidárias.
O caso de Renato Câmara exemplifica a dinâmica de herança política. Herdeiro do capital político de Nelito Câmara, Renato construiu sua carreira legislativa sobre a base eleitoral consolidada pelo antecessor familiar. O sobrenome funcionou como credencial de entrada no sistema político.
Situação análoga ocorre com Lídio Lopes, casado com Adriane Lopes, prefeita de Campo Grande. O vínculo conjugal com a chefe do Executivo municipal posiciona Lídio em uma rede de poder que combina mandato legislativo e acesso direto à administração da capital.
O familismo político não é exclusividade de Mato Grosso do Sul. Pesquisas similares em outros estados brasileiros identificam padrões comparáveis. A diferença em MS é a concentração: em um estado com apenas 79 municípios e 24 cadeiras na Assembleia, o espaço político é menor, e as famílias que o ocupam se tornam mais visíveis.
As famílias mapeadas pela pesquisa não se limitam a um espectro ideológico. Há clãs identificados com a direita, com o centro e com a esquerda. O familismo atravessa partidos porque sua lógica é anterior à ideologia: trata-se de manutenção de poder, não de defesa de programa político.
Próximos Passos
As eleições de outubro de 2026 servirão como teste para verificar se o padrão identificado pela pesquisa se mantém. Vários membros das 24 famílias mapeadas já se posicionam como pré-candidatos a deputado estadual, deputado federal e senador.
A tese de doutorado de Filipe Wisley Matos Rosa deve ser defendida na UFSCar nos próximos meses, e sua publicação completa permitirá acesso aos dados detalhados de cada uma das 24 redes familiares. O trabalho pode servir como referência para políticas de transparência e para o debate sobre financiamento de campanhas.
Organizações da sociedade civil que monitoram a qualidade da democracia em MS podem utilizar os dados da pesquisa para produzir materiais de educação política, ajudando o eleitor a identificar conexões familiares entre candidatos que nem sempre são evidentes nas propagandas eleitorais.
O debate sobre limitação de mandatos consecutivos e sobre regras de parentesco para candidaturas simultâneas permanece estagnado no Congresso Nacional. Sem mudanças legislativas, o familismo continuará operando dentro das regras vigentes.
Fechamento
Quarenta anos de eleições em Mato Grosso do Sul produziram um sistema político no qual 24 famílias mantêm presença recorrente nos espaços de poder. A pesquisa de Filipe Wisley Matos Rosa transforma em dado acadêmico o que o eleitor sul-mato-grossense percebe intuitivamente: os sobrenomes mudam pouco, mesmo quando os rostos parecem novos.
O familismo não é ilegal. Não há impedimento jurídico para que membros de uma mesma família disputem eleições. Mas sua persistência ao longo de quatro décadas levanta uma pergunta que a democracia sul-mato-grossense ainda não respondeu: o poder político em MS pertence ao eleitor ou às famílias que aprenderam a administrá-lo como patrimônio privado?
Fontes e Referências
- Campo Grande News — Reportagem sobre familismo político em MS (campograndenews.com.br), 10 de abril de 2026
- Filipe Wisley Matos Rosa — Pesquisa de doutorado, UFSCar (Universidade Federal de São Carlos)
- UFMS — Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, formação do pesquisador
