O combate à corrupção em Mato Grosso do Sul ganhou um novo capítulo de grande repercussão com a deflagração da Operação Gutenberg pelo Ministério Público Estadual. A ação, conduzida de forma coordenada pelas equipes do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (GAECO), mirou uma estrutura criminosa especializada no desvio de recursos da educação pública. As investigações apontam para a manipulação sistemática de processos de compras governamentais, com foco na aquisição de livros paradidáticos, que gerou prejuízos milionários ao erário estadual e municipal.
No centro da investigação estão duas profissionais de destaque na sociedade de Campo Grande: a cirurgiã-dentista Rossana Paroschi Jafar e sua filha, a médica Olívia Paroschi Jafar. Apontadas como operadoras-chave do esquema financeiro e operacional que viabilizava a fraude em licitações, ambas foram alvo de mandados de prisão preventiva. A operação também revelou a capilaridade da organização criminosa, que se estendia para além das fronteiras de Mato Grosso do Sul, alcançando os estados de São Paulo e Goiás, e mobilizando dezenas de agentes públicos e empresários.
A complexidade e o volume financeiro do caso, estimado em mais de R$ 27 milhões em contratos fraudados, trazem de volta à tona as discussões sobre a fragilidade dos mecanismos de controle em compras de material didático e a reincidência de personagens conhecidos em escândalos de corrupção. A Gráfica Alvorada, ligada diretamente à família Jafar, ressurge no radar dos órgãos de controle como o epicentro de práticas ilícitas que drenam os recursos destinados à formação de crianças e jovens no estado.
O Que Aconteceu
Na manhã de terça-feira, 7 de julho de 2026, as equipes do GAECO saíram às ruas em Campo Grande e em outros municípios para cumprir uma série de ordens judiciais expedidas no âmbito da Operação Gutenberg. O saldo da ofensiva policial incluiu o cumprimento de 16 mandados de prisão preventiva e 43 mandados de busca e apreensão. A operação mobilizou dezenas de policiais e promotores de Justiça, com o objetivo de colher novas provas e paralisar as atividades da organização criminosa.
As prisões de Rossana Paroschi Jafar e de Olívia Paroschi Jafar ocorreram em endereços de alto padrão em Campo Grande, evidenciando o padrão de vida ostentado pelas investigadas. Rossana foi localizada e detida em seu apartamento no Edifício Porto Madero, situado no Bairro São Francisco, uma das regiões residenciais mais valorizadas da capital. Quase de forma simultânea, sua filha Olívia foi presa em sua residência no Edifício Olavo Bilac, localizado na Avenida Ricardo Brandão. Os locais foram alvo de buscas minuciosas, onde investigadores apreenderam documentos, computadores e dispositivos eletrônicos.
De acordo com as informações preliminares divulgadas pelas autoridades, Rossana e Olívia são acusadas de atuar de forma direta na operacionalização do esquema que fraudava certames licitatórios destinados à compra de livros paradidáticos. Os contratos sob investigação somam um montante superior a R$ 27 milhões. A atuação da dupla consistiria em coordenar a participação de empresas do grupo familiar em licitações direcionadas, simulando concorrência e superfaturando os valores cobrados dos cofres públicos para a entrega dos materiais educativos.
A Operação Gutenberg se estendeu para outras cidades de Mato Grosso do Sul, além de alcançar municípios nos estados de São Paulo e Goiás. A ampla distribuição geográfica dos mandados de busca e apreensão reflete o alcance da rede de influência montada pelos investigados, que utilizava empresas de fachada e laranjas para pulverizar os recursos desviados e dificultar o rastreamento por parte dos órgãos de fiscalização financeira.
Contexto e Histórico
A investigação que culminou na Operação Gutenberg não é um fato isolado na trajetória empresarial e jurídica das acusadas. Rossana Paroschi Jafar figura como sócia-administradora da Gráfica Alvorada, estabelecimento com longo histórico de prestação de serviços para o poder público e que já esteve na mira de outras investigações de grande porte. A atuação de Rossana e de sua empresa no direcionamento de licitações remete a esquemas passados que marcaram a história política de Mato Grosso do Sul.
Em 2017, Rossana Paroschi Jafar foi um dos alvos da Polícia Federal durante a deflagração da quarta fase da Operação Lama Asfáltica, batizada de "Máquinas de Lama". A Lama Asfáltica foi uma das maiores investigações contra a corrupção no estado, focada no desvio de recursos públicos federais e estaduais por meio de fraudes em obras de pavimentação, contratos de informática e aquisição de insumos pela administração pública. Na ocasião, a Gráfica Alvorada e seus administradores foram investigados por suspeita de lavagem de dinheiro, pagamento de propinas a agentes políticos e simulação de serviços gráficos para justificar o repasse de valores desviados.
O surgimento de novos empreendimentos também entrou no escopo dos investigadores do GAECO. Olívia Paroschi Jafar, filha de Rossana, é sócia-administradora da Clínica Ross, uma empresa do setor de saúde fundada recentemente, em maio de 2026. A criação da clínica e a movimentação financeira das sócias passaram a ser monitoradas sob a suspeita de que novos CNPJs estivessem sendo utilizados para ocultar ou integrar valores provenientes das fraudes nas licitações de livros. A polícia investiga se os lucros obtidos com os contratos superfaturados de livros didáticos serviram para capitalizar a Clínica Ross e outros negócios da família.
O modus operandi investigado na Operação Gutenberg assemelha-se a outros esquemas de fraude em licitações de material pedagógico registrados no país. Organizações criminosas aproveitam-se da descentralização das compras de livros paradidáticos pelas secretarias municipais de educação para aplicar golpes que envolvem desde o superfaturamento de preços até a entrega de volumes inferiores ao contratado ou, em casos extremados, a não entrega dos materiais didáticos. A exclusividade de direitos autorais de determinadas obras ou a exigência de especificações técnicas muito restritas são comumente utilizadas para direcionar as licitações em favor de empresas previamente escolhidas pelo esquema.
Impacto Para a População
O desvio de recursos públicos na área da educação traz consequências severas e imediatas para a qualidade do ensino oferecido à população. Os R$ 27 milhões sob suspeita de desvio no esquema operado por Rossana e Olívia Jafar representam uma perda irreparável de oportunidades de desenvolvimento para milhares de alunos de escolas públicas. A fraude na aquisição de livros paradidáticos compromete a implantação de projetos de incentivo à leitura e alfabetização, fundamentais nas etapas iniciais da formação escolar.
Quando processos licitatórios são fraudados, a administração pública perde a capacidade de contratar pelos melhores preços e condições de mercado. Isso resulta em materiais didáticos de qualidade inferior, atrasos nas entregas e falta de volumes para cobrir toda a rede de ensino. O superfaturamento dos contratos significa que o erário paga duas ou três vezes mais por um produto que poderia ser adquirido de forma muito mais econômica, retirando recursos que poderiam ser aplicados na reforma de escolas, na valorização dos profissionais da educação e na melhoria da merenda escolar.
A tabela abaixo detalha os dados principais da operação e as estimativas do impacto gerado pelo esquema nas contas públicas e no sistema educacional:
| Indicador da Operação | Dados Reais Registrados | Impacto Direto na Gestão Pública |
|---|---|---|
| Volume de Contratos sob Suspeita | Superior a R$ 27.000.000,00 | Perda de capacidade de investimento em infraestrutura escolar e programas pedagógicos |
| Mandados de Prisão Preventiva | 16 ordens judiciais | Desarticulação do núcleo decisório da organização criminosa |
| Mandados de Busca e Apreensão | 43 ordens judiciais | Apreensão de provas materiais, computadores e documentos de empresas de fachada |
| Unidades Federativas Atingidas | 3 estados (MS, SP e GO) | Necessidade de cooperação interestadual para bloquear bens e rastrear recursos |
| Principais Empresas Ligadas | Gráfica Alvorada e Clínica Ross | Bloqueio de contas jurídicas e suspensão de contratos ativos com o poder público |
| Perfil das Operadoras Presas | Profissionais liberais (médica e dentista) | Exposição de redes de lavagem de dinheiro envolvendo profissionais de prestígio social |
Além do impacto puramente financeiro, o envolvimento de profissionais de saúde e estética no esquema gera um forte desgaste na confiança da sociedade nas instituições e nas relações comerciais. O uso de clínicas e outras atividades privadas para a suposta lavagem de dinheiro de fraudes públicas distorce o mercado local, criando uma concorrência desleal com empresas que operam estritamente dentro da legalidade.
O Que Dizem os Envolvidos
Até o fechamento desta reportagem, as defesas técnicas de Rossana Paroschi Jafar e de Olívia Paroschi Jafar não haviam emitido posicionamentos oficiais detalhados sobre as acusações formuladas pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul. O espaço editorial permanece aberto para que os representantes legais das investigadas, assim como as administrações da Gráfica Alvorada e da Clínica Ross, apresentem suas manifestações e contrapontos às medidas cautelares adotadas pelo Poder Judiciário.
Historicamente, em casos relacionados à Operação Lama Asfáltica e desdobramentos correlatos, a defesa de Rossana Jafar buscou desvincular a empresária de atos deliberados de fraude, sustentando a regularidade das operações comerciais da Gráfica Alvorada e a efetiva prestação de serviços contratados. Espera-se que, no decorrer da instrução do processo da Operação Gutenberg, novos esclarecimentos sejam prestados pelas defesas para contrapor as alegações de direcionamento licitatório e superfaturamento apresentadas pelo GAECO.
Próximos Passos
Com a conclusão da fase ostensiva da Operação Gutenberg, o foco do GAECO e dos promotores de Justiça se volta para a análise minuciosa de todo o material apreendido durante o cumprimento dos 43 mandados de busca e apreensão. Os computadores, celulares e documentos recolhidos nos endereços das investigadas em Campo Grande e nos outros estados serão submetidos a perícias técnicas para rastrear a cadeia de comando da fraude e identificar o destino final dos R$ 27 milhões desviados.
O Ministério Público deverá, nos próximos dias, formalizar a denúncia criminal contra os 16 presos preventivos e demais investigados. Eles poderão responder por crimes como associação criminosa, fraude a licitações, corrupção ativa e passiva, além de lavagem de dinheiro. A Justiça também analisará a manutenção das prisões preventivas de Rossana e Olívia Jafar, avaliando se há riscos à ordem pública ou ao andamento das investigações caso elas respondam ao processo em liberdade.
Paralelamente, os órgãos de controle interno dos municípios afetados pelas fraudes contratuais deverão iniciar auditorias para apurar a responsabilidade de servidores públicos que facilitaram ou omitiram fiscalização nos processos de compra dos livros paradidáticos da Gráfica Alvorada. A suspensão cautelar de todos os contratos vigentes da gráfica com prefeituras e órgãos públicos de Mato Grosso do Sul também está no radar das autoridades judiciais como medida para evitar novos desvios.
Fechamento
A Operação Gutenberg demonstra que os esquemas de corrupção que assolam Mato Grosso do Sul continuam a se reinventar, buscando nichos específicos como a compra de livros paradidáticos para drenar os recursos que deveriam garantir o futuro das novas gerações. A prisão de figuras conhecidas como Rossana Paroschi Jafar e o envolvimento de sua filha, Olívia Paroschi Jafar, expõem a persistência de redes criminosas que desafiam as estruturas de fiscalização mesmo após passarem por grandes operações federais como a Lama Asfáltica.
A resposta enérgica do GAECO e do Poder Judiciário ao determinar as prisões preventivas sinaliza que a impunidade não será tolerada, independentemente do status social ou profissional dos envolvidos. O avanço das investigações e a eventual punição dos culpados são passos essenciais para restaurar a integridade nas contratações públicas e garantir que o dinheiro dos impostos pagos pelo cidadão seja integralmente revertido em educação de qualidade, livros reais nas mãos dos estudantes e transparência absoluta na gestão pública.
Fontes e Referências
- Ministério Público do Estado de Mato Grosso do Sul (MPMS) – Relatório de Atividades do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (GAECO) sobre a Operação Gutenberg, julho de 2026.
- Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) – Decisões e mandados expedidos pela Vara de Crimes Contra o Patrimônio e Organizações Criminosas de Campo Grande.
- Polícia Federal (PF) – Histórico de investigações da Operação Lama Asfáltica – 4ª Fase: Máquinas de Lama (2017).
- Diário Oficial do Estado de Mato Grosso do Sul (DOEMS) – Registros de contratos públicos e atas de registro de preços envolvendo a Gráfica Alvorada e municípios do interior do estado.
- Reportagens e Cobertura Jornalística – Matérias publicadas pelo portal Campo Grande News sobre as prisões de cirurgiã-dentista, médica e ex-prefeito no âmbito das ações de combate à corrupção no setor educacional.
