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Cabide de Leitos: Servidores Usavam Fila do SUS de MS para Coagir Prefeituras no Esquema de R$ 27 Milhões

GAECO prende coordenador do SUS em MS por utilizar a fila de leitos de UTI e exames como moeda de troca para forçar a compra de livros sem licitação.

RB
Redação Bastidor Público
8 de julho de 2026•8 min
Campo Grande1831 palavras
Cabide de Leitos: Servidores Usavam Fila do SUS de MS para Coagir Prefeituras no Esquema de R$ 27 Milhões

O Que Aconteceu

O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), por meio do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (GAECO), deflagrou na terça-feira, 7 de julho de 2026, a Operação Gutenberg. A investigação descortinou uma complexa organização criminosa que utilizava a fila de regulação de leitos do Sistema Único de Saúde (SUS) no estado como moeda de troca política e financeira. Sob a coordenação do GAECO, a ação resultou no cumprimento de 16 mandados de prisão preventiva e 43 mandados de busca e apreensão.

As ações integradas das forças de segurança estaduais concentraram-se em diferentes cidades de Mato Grosso do Sul, incluindo Campo Grande, Dourados, São Gabriel do Oeste, Caarapó, Corguinho, Porto Murtinho e Fátima do Sul. O alcance das investigações também cruzou as divisas estaduais, com mandados sendo executados no estado de São Paulo e no município de Abadiânia, em Goiás. A operação teve como alvo principal uma rede de corrupção, lavagem de capitais e fraude em licitações que movimentou o montante de mais de R$ 27.000.000,00.

O aspecto que causou maior indignação e alarme social foi o envolvimento direto de servidores de alto escalão do Complexo Regulador Estadual (Core), órgão da Secretaria de Estado de Saúde (SES) responsável por coordenar a distribuição de leitos hospitalares, cirurgias e exames especializados. De acordo com as investigações preliminares conduzidas pelos promotores de Justiça, a quadrilha utilizava o controle da fila do SUS para coagir prefeitos e prefeitas a fecharem contratos públicos milionários, sem licitação (por inexigibilidade), para a compra de livros paradidáticos fornecidos pelas empresas do esquema criminoso.

Se os prefeitos cooperassem assinando as dispensas licitatórias milionárias para a aquisição do material de leitura, os pacientes daquela respectiva cidade passavam a gozar de tratamento privilegiado, com regulação ágil e transferências imediatas. Caso houvesse recusa ou questionamento das condições contratuais, as prefeituras viam as solicitações de vagas para internações em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) e cirurgias de urgência para seus cidadãos serem retidas, adiadas ou simplesmente rejeitadas, funcionando como uma chantagem humanitária explícita e criminosa.

Contexto e Histórico

A investigação que culminou na Operação Gutenberg teve início a partir da identificação de padrões de contratação atípicos em diversas prefeituras de Mato Grosso do Sul. A venda de livros paradidáticos para secretarias de educação municipais por meio de inexigibilidade de licitação vinha apresentando volumes financeiros vultosos e sem justificativa técnica plausível. O nome escolhido para a ação policial, "Gutenberg", é uma referência ao inventor da prensa móvel, Johannes Gutenberg. A alusão carrega uma forte ironia, pois as publicações literárias serviram puramente de pretexto comercial para camuflar um esquema de corrupção sistêmica que se sustentava no sequestro da regulação de saúde de pessoas vulneráveis.

Entre os principais alvos de prisão preventiva está Ed Carlo Britto Burgatt, que ocupava a função de coordenador estadual de Regulação Assistencial da SES e também desempenhava as funções de auditor de serviços de saúde do Estado. Ed Carlo era considerado o cérebro e o operador operacional do esquema dentro da máquina governamental de saúde, sendo o responsável por monitorar as solicitações municipais de leitos e emitir as ordens de facilitação ou de retenção deliberada de pacientes. A filha dele, Jéssyca Burgatt, que atua como empresária e figura como sócia-proprietária da empresa Capital Saúde, também foi presa sob suspeita de integrar o esquema e intermediar as transações financeiras fraudulentas.

O núcleo empresarial da organização envolve nomes conhecidos das autoridades de fiscalização. Rossana Paroschi Jafar, cirurgiã-dentista e sócia-administradora da Gráfica Alvorada, foi presa na operação. Rossana possui antecedentes em investigações por crimes similares, tendo sido alvo da quarta fase da Operação Lama Asfáltica (conhecida como Máquinas de Lama), que apurou o desvio de recursos públicos através do fornecimento irregular de livros didáticos. A filha de Rossana, a médica e empresária Olívia Paroschi Jafar, que administra a Clínica Ross, também foi detida preventivamente. O consultório médico de Olívia foi alvo de busca e apreensão pelas equipes policiais, que recolheram mídias e computadores contendo registros de transferências suspeitas.

Outra figura de destaque presa pelo GAECO é Eronivaldo da Silva Vasconcelos Júnior, conhecido no cenário político estadual como Júnior Vasconcelos. Ele exerceu o cargo de prefeito municipal de Fátima do Sul no mandato de 2013 a 2016 e, atualmente, ocupava cargo de escrivão concursado da Polícia Civil do Estado, estando cedido para exercer funções administrativas no gabinete do deputado estadual Jamilson Name na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (ALEMS). O ex-prefeito é suspeito de atuar como facilitador do contato político com prefeituras do interior, vendendo facilidades e articulando a adesão ao esquema de compra dos livros paradidáticos em troca das vantagens do Core.

Impacto Para a População

O impacto do esquema investigado pela Operação Gutenberg ultrapassa a órbita do desvio financeiro e atinge diretamente a dignidade e a integridade física da população sul-mato-grossense. O uso de leitos de UTI do SUS e de cirurgias eletivas essenciais como instrumento de extorsão contra prefeituras criou um sistema paralelo de atendimento de saúde, onde o critério clínico do paciente foi secundarizado em prol do interesse financeiro do grupo criminoso. Pacientes graves de municípios que resistiam ao assédio da organização viam sua saúde definhar nas filas de espera, gerando sofrimento e até mesmo óbitos silenciosos que agora devem ser auditados detalhadamente.

Os municípios do interior do estado de Mato Grosso do Sul, onde a dependência de hospitais de referência localizados em grandes polos como Campo Grande e Dourados é quase total, sofreram as maiores consequências. Prefeitos pressionados por famílias desesperadas em busca de uma transferência de UTI viam-se diante de uma escolha imoral: ou comprometiam o orçamento da educação municipal comprando livros paradidáticos desnecessários ou assumiam o risco político e humano de ver seus cidadãos morrendo sem atendimento.

O desvio de recursos da educação por inexigibilidade também retirou verba essencial de escolas municipais que sofrem com infraestrutura precária e escassez de recursos didáticos básicos. A tabela abaixo detalha as diferentes frentes de impacto da fraude na vida do cidadão comum do estado:

Área Afetada Detalhes Técnicos e Clínicos do Impacto Consequências Diretas para o Cidadão
Atendimento de Urgência Condicionamento da fila do Complexo Regulador Estadual (Core) em troca de favores. Pacientes graves de UTI represados, gerando riscos reais de morte nas UPAs municipais.
Igualdade no SUS Quebra do princípio constitucional de igualdade e da ordem cronológica e clínica de gravidade. Fila do SUS burlada por critérios políticos e escusos em detrimento dos cidadãos comuns.
Finanças da Educação Recursos públicos de educação drenados para aquisição de livros por inexigibilidade. Falta de investimentos em merenda escolar, melhorias na infraestrutura e salários de professores.
Gestão do Poder Público Coação e fragilização de administrações municipais pequenas por agentes estaduais. Prefeitos pressionados a cometer crimes fiscais para garantir transferências médicas de seus cidadãos.

O Que Dizem os Envolvidos

O Governo do Estado de Mato Grosso do Sul manifestou posicionamento imediato de repúdio aos fatos revelados e declarou apoio integral à atuação do Ministério Público e do GAECO. A Secretaria de Estado de Saúde (SES) informou que determinou o imediato afastamento de todas as funções públicas e o início do processo de exoneração formal de Ed Carlo Britto Burgatt, bem como de qualquer outro servidor envolvido que possua cargo comissionado ou função de confiança na pasta.

O Executivo estadual comunicou também que determinou à Controladoria-Geral do Estado (CGE) a realização de uma auditoria extraordinária rigorosa nos processos de regulação de leitos hospitalares geridos pelo Core no período em que o servidor esteve no cargo. A intenção da auditoria é identificar possíveis inconsistências nos fluxos regulatórios que possam indicar favorecimentos indevidos ou represamentos injustificados de transferências de pacientes.

O deputado estadual Jamilson Name, a cujo gabinete o ex-prefeito e escrivão da Polícia Civil Júnior Vasconcelos estava cedido, divulgou uma nota pública na qual esclarece que não possui qualquer envolvimento ou conhecimento com relação aos atos sob investigação na Operação Gutenberg. O parlamentar enfatizou que o assessor exercia funções burocráticas e que as condutas investigadas correspondem à vida particular e a atividades estranhas à rotina de seu gabinete na ALEMS.

As defesas técnicas dos investigados Ed Carlo Britto Burgatt, Jéssyca Burgatt, Rossana Paroschi Jafar, Olívia Paroschi Jafar e Júnior Vasconcelos não emitiram pronunciamentos públicos conclusivos à imprensa até o fechamento desta reportagem. Os advogados que representam os alvos informaram, de maneira preliminar, que aguardam ter acesso integral aos autos do inquérito e às decisões de prisão preventiva proferidas pelo Poder Judiciário para manifestarem-se formalmente nos autos do processo criminal.

Próximos Passos

Com a deflagração da fase ostensiva da Operação Gutenberg, o GAECO e a Polícia Civil entram na etapa de análise técnica dos materiais apreendidos. Os computadores, celulares, relatórios fiscais e documentos coletados nos 43 endereços de busca e apreensão passarão por perícia no Instituto de Criminalística do MPMS. Os investigadores buscam consolidar a cadeia de custódia das provas físicas e digitais e rastrear o destino final dos R$ 27 milhões movimentados, a fim de identificar possíveis contas no exterior ou bens ocultados sob a titularidade de laranjas.

Os 16 investigados presos preventivamente serão interrogados formalmente pelos promotores de Justiça nas dependências do Ministério Público, em Campo Grande. Os depoimentos devem focar em esclarecer se há participação de outros funcionários de escalão superior da Secretaria de Estado de Saúde ou se prefeitos de outros municípios de Mato Grosso do Sul também atuavam como participantes ativos ou se foram meras vítimas da coação exercida pelo grupo do Core.

Paralelamente, a Controladoria-Geral do Estado e a SES planejam finalizar o relatório preliminar de auditoria interna em até trinta dias. Os resultados serão compartilhados com os promotores de Justiça para subsidiar a denúncia criminal que será oferecida ao Poder Judiciário. A expectativa é que o Ministério Público proponha, além de condenações criminais por associação criminosa, peculato e corrupção, ações de improbidade administrativa com pedidos de ressarcimento integral ao erário e bloqueio definitivo de bens dos envolvidos.

Fechamento

A revelação dos meandros da Operação Gutenberg expõe uma faceta desumana da corrupção, em que o direito à vida e à saúde é subordinado a transações comerciais ilícitas. A instrumentalização da fila do SUS por agentes públicos que deveriam prezar pela igualdade do sistema demonstra a urgência de reformas na transparência e no controle social dos sistemas públicos de regulação médica em Mato Grosso do Sul. A sociedade assiste, atônita, a vidas humanas sendo reduzidas a barganha por contratos de livros escolares.

À medida que o processo judicial avança, a expectativa da população sul-mato-grossense reside na punição exemplar dos envolvidos e no aprimoramento dos canais de auditoria do SUS. Somente a digitalização rastreável de todas as decisões do Complexo Regulador Estadual, com acesso público auditado e fiscalização em tempo real pelos órgãos de controle, poderá impedir que a dor de pacientes na fila de espera hospitalar volte a se transformar em fonte de enriquecimento ilícito de organizações criminosa.


Fontes e Referências

  • Reportagem do Campo Grande News: "Dentistas, médica e ex-prefeito são presos pelo GAECO" (https://www.campograndenews.com.br/cidades/capital/dentistas-medica-e-ex-prefeito-sao-presos-pelo-gaeco)
  • Comunicados oficiais e notas de imprensa do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) sobre a Operação Gutenberg (https://www.mpms.mp.br)
  • Notas administrativas da Secretaria de Estado de Saúde (SES) e da Controladoria-Geral do Estado de MS (CGE) (https://www.saude.ms.gov.br)
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Publicado em 8 de julho de 2026 às 00:00
Fonte: https://www.campograndenews.com.br/cidades/capital/dentistas-medica-e-ex-prefeito-sao-presos-pelo-gaeco
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Redação Bastidor Público

Equipe Editorial

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