O abastecimento de alimentos frescos na capital de Mato Grosso do Sul foi o tema central de um amplo fórum de debates reunindo técnicos agrícolas, prefeitura municipal de Campo Grande, lideranças de assentamentos e a Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc). A criação e a expansão de um polo estruturado de hortifrúti nas franjas urbanas da cidade, conhecido como o "Cinturão Verde", é vista como a alternativa mais viável para reduzir a dependência de Campo Grande da importação de legumes e verduras vindos de grandes centros produtores de São Paulo e do Paraná, que hoje encarecem a cesta básica devido ao custo logístico do frete.
A iniciativa visa estruturar cadeias produtivas de pequena escala nas chácaras e assentamentos que rodeiam o perímetro urbano da capital. Com o suporte técnico da Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural (Agraer), pequenos produtores familiares debateram a implementação de sistemas modernos de irrigação por gotejamento, acesso simplificado a microcrédito orientado para aquisição de estufas plásticas e a organização de cooperativas de comercialização direta para abastecer redes de sacolões e feiras livres de Campo Grande.
O Que Aconteceu
A reunião de trabalho, conduzida nas proximidades do Acampamento Zumbi dos Palmares e em plenárias técnicas na capital, formatou um plano de metas para os próximos doze meses. O governo estadual, por meio da Agraer, comprometeu-se a disponibilizar uma patrulha mecanizada permanente (tratores e implementos) para realizar a preparação gratuita de solo nas propriedades familiares cadastradas. O programa prevê também a distribuição de toneladas de calcário e adubo orgânico para a correção da acidez das terras da região, historicamente caracterizadas por solos de cerrado de baixa fertilidade natural.
Para os agricultores familiares, a maior dificuldade no modelo atual é garantir a logística de transporte diário da colheita até a Central de Abastecimento de MS (Ceasa-MS) ou diretamente aos supermercados parceiros. O debate avançou para a proposição de rotas de coleta integrada organizadas pela prefeitura municipal, utilizando caminhões refrigerados públicos para recolher as caixas de folhosas e legumes nas propriedades e entregá-las diretamente nos centros de distribuição urbana, minimizando as perdas pós-colheita que hoje chegam a 30% da produção.
Contexto e Histórico
Mato Grosso do Sul destaca-se nacionalmente pela imensidão de suas lavouras de commodities agrícolas, como soja e milho, e por rebanhos bovinos de alta performance voltados à exportação. Contudo, essa especialização em grãos e pecuária gerou um paradoxo local: o estado importa mais de 70% das frutas, legumes e verduras consumidos por sua população. A Ceasa de Campo Grande recebe diariamente dezenas de carretas carregadas de tomates, batatas e cebolas de estados vizinhos, expondo o mercado consumidor de MS a oscilações constantes nos preços dos alimentos provocadas por quebras de safra ou aumento no preço do óleo diesel.
As primeiras tentativas de consolidação de cinturões verdes no entorno de Campo Grande datam da década de 1990, mas esbarraram na falta de regularização fundiária das propriedades, na escassez de água para irrigação contínua durante o longo período de estiagem do inverno e no isolamento técnico dos assentados. A reestruturação proposta em 2026 busca corrigir esses erros do passado por meio da integração de tecnologia de microirrigação e garantia de canais de venda formalizados com a merenda escolar estadual e municipal (PNAE).
Detalhes da Assistência Agraer
O programa de apoio técnico foca na transição de pequenos agricultores para técnicas de cultivo protegido. O uso de estufas de plástico e sistemas de mulching (cobertura plástica de solo) protege as lavouras de alface, rúcula e tomate contra as temperaturas elevadas e chuvas torrenciais típicas do verão sul-mato-grossense, garantindo a regularidade da entrega para os supermercados durante todo o ano. Engenheiros agrônomos da Agraer realizarão plantões semanais nos assentamentos para orientar o controle biológico de pragas, minimizando o uso de defensivos químicos e incentivando a produção agroecológica na capital.
| Etapa do Projeto de Fomento | Ações Técnicas Agraer/Semadesc | Benefício Prático em Campo Grande |
|---|---|---|
| Correção de Solo | Distribuição de calcário e fósforo subsidiados | Aumento da produtividade por hectare cultivado |
| Tecnologia de Irrigação | Implantação de gotejamento solar de baixo custo | Cultivo garantido durante a seca de inverno |
| Logística Integrada | Rotas de coleta com caminhão público | Redução de 90% nas perdas de transporte de verduras |
| Comercialização Garantida | Venda prioritária para merenda escolar e feiras | Renda mensal regular para as famílias participantes |
O Que Dizem os Produtores
Representantes das associações de pequenos produtores de Campo Grande pontuam que o projeto tem potencial para transformar a realidade econômica das famílias rurais periféricas, mas cobram celeridade na liberação dos recursos de microcrédito. Eles apontam que o preparo do solo e a entrega de sementes são passos importantes, mas que a aquisição de mangueiras de irrigação, motobombas e telas de sombreamento exige recursos financeiros que as famílias não possuem em caixa. O acesso facilitado a fundos estaduais de fomento à agricultura familiar (como o FCO) é apontado como o elo que falta para viabilizar as metas do Cinturão Verde.
As autoridades estaduais responderam que estão desenhando uma linha de financiamento de aval avalizado para pequenos agricultores de MS, com juros subsidiados e carência estendida para o início do pagamento. O objetivo é que as primeiras parcelas sejam pagas apenas após a consolidação das primeiras colheitas comerciais do cinturão, garantindo a sustentabilidade financeira do empreendimento produtivo.
Próximos Passos
O comitê técnico da Semadesc e da Agraer realizará na próxima semana o mapeamento georreferenciado das propriedades habilitadas para a primeira fase do programa. O cadastro inicial selecionará 150 famílias que possuam fontes estáveis de água para o início do plantio irrigado de inverno, com previsão de entrega dos primeiros lotes de insumos agrícolas no início da segunda quinzena de julho, estruturando o abastecimento local de Campo Grande para o final da temporada.
Fontes e Referências
- Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural de MS (Agraer)
- Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc)
- Federação dos Trabalhadores na Agricultura de MS (Fetagri/MS)
