O Que Aconteceu
Mais de 150 mil famílias de Mato Grosso do Sul serão atendidas pelo programa Gás do Povo em abril de 2026, com investimento de R$ 15,2 milhões em recursos federais. O anúncio foi feito pelo Governo Federal na terça-feira (15 de abril) e confirmado pela delegacia regional do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social em Campo Grande.
O programa é voltado a famílias inscritas no Cadastro Único (CadÚnico) com renda per capita de até meio salário mínimo. Em Mato Grosso do Sul, centenas de milhares de famílias estão cadastradas no CadÚnico, e o Gás do Povo atende uma parcela significativa desse universo em abril.
O gás de cozinha é item de primeira necessidade. O preço do botijão de 13 quilos em MS ultrapassa R$ 100 em muitas cidades, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP). Para famílias com renda mensal de um a dois salários mínimos, o botijão representa parcela significativa do orçamento doméstico — percentual que sobe ainda mais em domicílios com renda inferior a um salário mínimo.
Contexto e Histórico
O Gás do Povo é programa do Governo Federal que complementa o vale-gás, instituído pela Lei 14.237 de 2021. Enquanto o vale-gás paga valor equivalente ao preço médio do botijão a cada dois meses, o Gás do Povo opera com distribuição direta ou subsídio mensal, ampliando a frequência do benefício para famílias em situação de maior vulnerabilidade.
A criação de programas de subsídio ao gás de cozinha responde a uma demanda antiga. Entre 2020 e 2023, o preço do botijão de 13 quilos subiu mais de 50% no Brasil, impulsionado pela alta do petróleo no mercado internacional e pela desvalorização do real. Em Mato Grosso do Sul, o impacto foi agravado pelo custo logístico: o estado não tem refinaria, e o gás consumido internamente vem de distribuidoras sediadas em São Paulo e no Paraná, com frete que encarece o produto.
A consequência social da alta do gás é documentada. Pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada em 2025, mostrou que 3,4 milhões de domicílios brasileiros usavam lenha ou carvão como combustível principal para cozinhar — retrocesso que expõe famílias a riscos de queimaduras, intoxicação por fumaça e desmatamento. Em Mato Grosso do Sul, o uso de lenha é mais comum em áreas rurais e em aldeias indígenas, onde o acesso ao gás encanado ou engarrafado é limitado.
O CadÚnico, base de dados que identifica as famílias beneficiárias, é gerido pelos municípios e atualizado nos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS). A qualidade do cadastro varia conforme a capacidade administrativa de cada prefeitura. Municípios com equipes de assistência social reduzidas tendem a ter cadastros desatualizados, o que pode excluir famílias elegíveis do programa.
Em Mato Grosso do Sul, os 79 municípios têm ao menos um CRAS em funcionamento, mas a cobertura é desigual. Campo Grande, com 900 mil habitantes, tem 18 unidades. Municípios de pequeno porte, com menos de 10 mil habitantes, operam com uma única unidade e equipe mínima — o que limita a capacidade de cadastramento e atualização.
O programa Gás do Povo foi ampliado em 2026 como parte do pacote de medidas sociais do Governo Federal para o ano eleitoral. A ampliação gerou críticas da oposição, que acusa o governo de usar programas assistenciais como instrumento de campanha. Defensores da medida argumentam que o benefício atende necessidade real e que a periodicidade mensal é mais eficaz do que o pagamento bimestral do vale-gás.
Impacto Para a População
Para as 150 mil famílias atendidas em abril, o Gás do Povo representa economia imediata no orçamento doméstico. Com o subsídio, o custo efetivo do gás de cozinha cai significativamente — patamar que torna o produto acessível mesmo para famílias com renda inferior a um salário mínimo.
A economia mensal pode parecer modesta em termos absolutos, mas seu efeito no orçamento de famílias de baixa renda é desproporcional. O valor economizado no gás pode ser redirecionado para alimentação, medicamentos ou material escolar. Em domicílios onde cada real é contado, a diferença entre ter ou não ter gás de cozinha determina a qualidade da alimentação.
| Indicador | Sem Gás do Povo | Com Gás do Povo |
|---|---|---|
| Custo do botijão 13kg | Acima de R$ 100 | Reduzido pelo subsídio |
| Peso no orçamento (1 SM) | Significativo | Reduzido |
| Frequência de compra | Espaçada (economia forçada) | Mensal (regular) |
| Risco de uso de lenha | Alto | Reduzido |
| Segurança alimentar | Comprometida | Preservada |
O impacto vai além do bolso. Famílias que deixam de comprar gás por falta de dinheiro recorrem a alternativas perigosas: lenha coletada em áreas urbanas, carvão vegetal de procedência duvidosa, fogareiros improvisados. Queimaduras domésticas e intoxicação por monóxido de carbono são riscos reais, especialmente para crianças.
No interior de MS, onde o preço do botijão tende a ser mais alto por conta do frete, o benefício tem impacto ainda maior. Em municípios mais distantes dos centros de distribuição, como Corumbá, no Pantanal, o preço do botijão pode ser consideravelmente superior à média estadual. Nesses casos, o subsídio do Gás do Povo cobre parcela menor do custo total, mas ainda assim representa alívio concreto para o orçamento familiar.
A cobertura de 150 mil famílias em um universo de centenas de milhares cadastradas no CadÚnico deixa parcela significativa de fora. A seleção dos beneficiários segue critérios de renda e composição familiar definidos pelo Governo Federal, priorizando domicílios com crianças, idosos e pessoas com deficiência. Famílias que não foram contempladas em abril podem ser incluídas em meses subsequentes, conforme a disponibilidade orçamentária.
O Que Dizem os Envolvidos
Segundo o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, o Gás do Povo em abril de 2026 atende o maior número de famílias desde o início do programa em Mato Grosso do Sul. A pasta atribuiu a ampliação ao aumento do orçamento federal para programas de transferência de renda e reforçou que o programa visa garantir o acesso ao gás de cozinha como item essencial para a segurança alimentar.
Secretários municipais de assistência social de cidades do interior de MS relataram dificuldades operacionais na distribuição. Em municípios com logística precária, a entrega de botijões depende de parcerias com distribuidoras locais, que nem sempre têm estoque suficiente para atender a demanda gerada pelo programa.
A Associação dos Revendedores de Gás de Mato Grosso do Sul informou que o aumento da demanda em meses de distribuição do Gás do Povo pressiona o estoque das revendas, especialmente em cidades menores. A entidade pediu ao governo federal planejamento antecipado e comunicação prévia para que as distribuidoras possam se preparar.
Beneficiárias ouvidas pela reportagem em Campo Grande relataram que o programa faz diferença concreta no dia a dia. Em bairros periféricos da capital, onde a renda familiar é mais baixa, o subsídio ao gás de cozinha é apontado como um dos benefícios que mais impactam o orçamento doméstico, ao lado do Bolsa Família.
Próximos Passos
O Governo Federal prevê manter o Gás do Povo com distribuição mensal ao longo de 2026, com possibilidade de ampliação do número de beneficiários no segundo semestre. A decisão depende da aprovação de créditos suplementares no Congresso Nacional.
Em Mato Grosso do Sul, a Secretaria Estadual de Assistência Social anunciou campanha de atualização cadastral no CadÚnico, com mutirões nos CRAS de todos os 79 municípios entre maio e julho de 2026. O objetivo é incluir famílias que ainda não estão cadastradas e atualizar os dados de quem já está, garantindo que os critérios de elegibilidade reflitam a situação atual dos domicílios.
A ANP deve divulgar em maio o levantamento atualizado de preços do gás de cozinha por município, o que permitirá calibrar o valor do subsídio conforme a realidade local. Municípios com preços acima da média estadual podem receber complemento adicional.
O Congresso Nacional tem em tramitação projeto de lei que propõe a unificação do vale-gás e do Gás do Povo em um único programa, com pagamento mensal e valor fixo equivalente a 50% do preço médio do botijão. A proposta simplificaria a gestão e reduziria a sobreposição de benefícios, mas enfrenta resistência de parlamentares que temem a redução do valor total recebido pelas famílias que hoje acumulam os dois programas.
Para as famílias de MS que não foram contempladas em abril, a orientação é procurar o CRAS do município para verificar a situação cadastral e, se necessário, atualizar os dados. A inclusão no CadÚnico é pré-requisito para todos os programas sociais do Governo Federal.
Fechamento
O Gás do Povo em abril de 2026 injeta R$ 15,2 milhões na economia doméstica de 150 mil famílias sul-mato-grossenses. O número é expressivo, mas não cobre a totalidade das famílias em situação de vulnerabilidade no estado. Com centenas de milhares de famílias no CadÚnico e um botijão que ultrapassa R$ 100, a demanda por subsídio ao gás de cozinha em MS supera a oferta do programa.
O benefício cumpre função imediata: garante que famílias de baixa renda cozinhem com gás, não com lenha. A questão de fundo — o preço do gás de cozinha no Brasil, inflado por política de preços atrelada ao mercado internacional — permanece sem solução estrutural. Enquanto o botijão custar o equivalente a 8% do salário mínimo, programas como o Gás do Povo serão necessários. A discussão sobre se são política social ou política eleitoral é legítima, mas não muda o fato de que 150 mil famílias em MS precisam do benefício para colocar comida na mesa.
Fontes e Referências
- Campo Grande News (campograndenews.com.br)
