O Que Aconteceu
A Polícia Federal (PF) deflagrou na manhã desta quinta-feira (9) a segunda fase da Operação Vem Diesel. A ação, coordenada com a Senacon (Secretaria Nacional do Consumidor) e a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), mirou distribuidores e revendedores de GLP — o gás de botijão — em 24 cidades de 15 estados e no Distrito Federal.
Mato Grosso do Sul entrou na lista. Equipes da PF e do Procon-MS (Superintendência para Orientação e Defesa do Consumidor) estiveram em uma distribuidora no bairro Carandá Bosque, área nobre de Campo Grande. Ao todo, 55 estabelecimentos foram fiscalizados simultaneamente no país.
O superintendente do Procon-MS, Angelo Motti, confirmou a participação do órgão estadual. "Recebemos a ligação solicitando apoio e confirmamos o envio de uma equipe para acompanhar a Polícia Federal", afirmou Motti ao Bastidor Público.
A operação investiga aumentos abusivos de preço, formação de cartel, fraude no peso dos botijões e sonegação fiscal na cadeia de distribuição. A primeira fase, deflagrada em 27 de março, havia focado nos combustíveis líquidos — gasolina e diesel — em 11 estados. MS não estava na lista naquela etapa.
Contexto e Histórico
O preço do gás de cozinha virou problema de segurança alimentar no Brasil. O botijão de 13 kg, que custava em média R$ 70 em 2019, ultrapassou R$ 110 em diversas capitais no início de 2026. Em Campo Grande, levantamentos do Procon-MS apontam variação de R$ 95 a R$ 130 entre revendedores — uma diferença de 37% que, por si só, levanta suspeita de prática abusiva.
A escalada de preços tem raízes na crise geopolítica. O conflito entre Estados Unidos e Irã pressionou o preço do petróleo e seus derivados nos últimos meses. O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 30% do petróleo comercializado no mundo, teve o fluxo afetado por ataques e restrições de navegação. O barril de Brent chegou a US$ 92 em março — patamar que não se via desde 2023.
Na terça-feira (8), o governo federal publicou a Medida Provisória 1.349, que institui o Regime Emergencial de Abastecimento Interno de Combustíveis. A MP prevê desconto de R$ 1,20 por litro no diesel, dividido entre União e estados. Mato Grosso do Sul aderiu à medida, com impacto estimado de R$ 60 milhões nas contas estaduais.
O GLP, porém, ficou de fora do regime emergencial. A Operação Vem Diesel 2 tenta suprir essa lacuna pela via da fiscalização: se o governo não consegue subsidiar o botijão, ao menos pode coibir quem lucra acima do razoável com a crise.
A ANP monitora os preços de revenda de GLP desde 2001. Os dados mostram que a margem dos revendedores — a diferença entre o preço de compra na distribuidora e o preço cobrado do consumidor — cresceu 22% nos últimos 12 meses, acima da inflação acumulada no período. Esse descolamento é um dos gatilhos da operação.
Impacto Para a População
O gás de cozinha pesa no orçamento das famílias de baixa renda de forma desproporcional. Dados do IBGE indicam que famílias com renda de até dois salários mínimos comprometem cerca de 4% do orçamento mensal com GLP — percentual que sobe para 6% em domicílios que usam o botijão como única fonte de energia para cozinhar.
Em Mato Grosso do Sul, o programa Auxílio Gás do governo federal atende aproximadamente 180 mil famílias inscritas no CadÚnico. O benefício cobre metade do valor médio do botijão a cada dois meses. Quando o preço sobe sem controle, o auxílio perde efetividade e a família precisa complementar com renda própria — ou reduzir o consumo.
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Preço médio do botijão 13 kg em CG (abril/2026) | R$ 95 a R$ 130 |
| Variação entre revendedores | Até 37% |
| Famílias atendidas pelo Auxílio Gás em MS | ~180 mil |
| Comprometimento da renda (até 2 SM) | 4% a 6% |
| Estabelecimentos fiscalizados (nacional) | 55 |
| Estados na operação | 15 + DF |
A fiscalização simultânea em 15 estados tem efeito dissuasório. Distribuidores e revendedores que praticam preços abusivos sabem que a PF pode bater à porta sem aviso prévio. O recado é claro: a cadeia do GLP está sendo monitorada.
Para o consumidor de Campo Grande e do interior de MS, o resultado prático depende do desdobramento da operação. Se forem confirmadas irregularidades, os responsáveis podem responder por crimes contra a ordem econômica (Lei 8.137/1990), com penas de dois a cinco anos de reclusão. Multas administrativas do Procon e da ANP também estão no radar.
O Que Dizem os Envolvidos
Angelo Motti, superintendente do Procon-MS, explicou a dinâmica da operação:
"A coordenação é da Polícia Federal, que escolheu os estabelecimentos fiscalizados. O Procon atua dentro das prerrogativas do Código de Defesa do Consumidor, verificando práticas abusivas."
Motti acrescentou que o Procon-MS já vinha monitorando os preços de combustíveis e gás de cozinha no estado desde o início da crise no Oriente Médio. A participação na Operação Vem Diesel 2 amplia o alcance da fiscalização, que até então se concentrava em postos de combustíveis.
A PF não divulgou nomes dos estabelecimentos fiscalizados nem resultados preliminares. Em nota, a corporação informou que "os dados coletados serão analisados em conjunto com a ANP e a Senacon para identificar eventuais práticas ilícitas".
A ANP, por sua vez, reforçou que mantém sistema de monitoramento semanal dos preços de revenda de GLP em todo o país. "A agência atua de forma permanente na fiscalização do mercado de combustíveis e GLP, e a operação conjunta com a PF e a Senacon potencializa essa atuação", informou o órgão.
Representantes do setor de distribuição de GLP não se manifestaram até o fechamento desta reportagem. A Sindigás (Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Gás Liquefeito de Petróleo) foi procurada, mas não respondeu.
Próximos Passos
Os dados coletados na fiscalização desta quinta-feira serão cruzados com informações da ANP sobre preços praticados, volumes comercializados e margens de lucro dos estabelecimentos visitados. A análise pode levar semanas.
Casos que configurem crime contra a ordem econômica — como formação de cartel ou aumento abusivo coordenado — serão encaminhados ao Ministério Público Federal para abertura de inquérito. Infrações administrativas ficam a cargo do Procon e da ANP, que podem aplicar multas e determinar adequação de preços.
O Procon-MS mantém canal de denúncia pelo telefone 151 e pelo site do órgão. A ANP disponibiliza o aplicativo "Preço da Hora" para que consumidores comparem preços de GLP e combustíveis em tempo real.
Uma terceira fase da Operação Vem Diesel não está descartada. Interlocutores ouvidos pela reportagem indicam que a PF avalia ampliar a fiscalização para o mercado de etanol — combustível que também registrou alta acima da inflação nos últimos meses, especialmente em estados produtores como MS.
Fechamento
A Operação Vem Diesel 2 coloca o mercado de gás de cozinha sob lupa federal num momento em que o preço do botijão corrói o orçamento das famílias mais vulneráveis. Em MS, onde quase 200 mil domicílios dependem do Auxílio Gás, a fiscalização chega com atraso — mas chega. O desdobramento vai depender do que as equipes encontraram nos 55 estabelecimentos visitados e da disposição do Ministério Público em transformar dados em processos.
Fontes e Referências
- Campo Grande News (campograndenews.com.br)
- Polícia Federal (gov.br/pf)
- Procon-MS — Superintendência para Orientação e Defesa do Consumidor
- ANP — Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (gov.br/anp)
