O Que Aconteceu
A prefeita Adriane Lopes apresentou na quinta-feira (16 de abril) a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2027 aos vereadores da Câmara Municipal de Campo Grande. O documento projeta um orçamento de R$ 7.054.621.000,00 para o município — reajuste de 4,12% sobre o valor aprovado para 2026.
Do total, R$ 500 milhões estão previstos para obras. As despesas com pessoal consomem R$ 3,5 bilhões, quase metade do orçamento. A receita própria, gerada por tributos municipais como IPTU, ISS e ITBI, responde por R$ 2,5 bilhões. Os outros R$ 3,7 bilhões dependem de transferências dos governos estadual e federal.
A apresentação ocorreu em sessão especial na Câmara, com a presença dos secretários Ulisses Rocha (Governo) e Isaac Araújo (Fazenda). O presidente da Comissão de Finanças, vereador Otávio Trad (PSD), e o presidente da Casa, Epaminondas Netto, o Papy (PSDB), conduziram a recepção do projeto.
Contexto e Histórico
A LDO é a peça orçamentária que define as prioridades do governo municipal para o ano seguinte. Funciona como um roteiro: estabelece metas fiscais, limites de endividamento e diretrizes para a elaboração da Lei Orçamentária Anual (LOA), que detalha receitas e despesas item por item. Sem a LDO aprovada, a prefeitura não pode enviar a LOA à Câmara.
Campo Grande atravessa um período de reorganização fiscal. O secretário Isaac Araújo informou que a gestão Adriane Lopes já pagou R$ 700 milhões em dívidas herdadas de administrações anteriores. O passivo incluía precatórios, restos a pagar de obras inacabadas e compromissos com fornecedores que se acumularam ao longo de pelo menos duas gestões.
A adesão ao Plano de Promoção do Equilíbrio Fiscal (PEF) do Ministério da Fazenda impõe disciplina adicional. O programa exige que o município cumpra metas de controle de gastos correntes e ampliação de receita própria. Em contrapartida, a prefeitura obtém condições mais favoráveis para contratar crédito junto a instituições federais. A Caixa Econômica Federal, por exemplo, já liberou mais de meio bilhão de reais para pavimentação de vias urbanas — recurso que só foi possível porque Campo Grande atendeu aos critérios do PEF.
O orçamento de R$ 7 bilhões coloca Campo Grande entre as capitais de médio porte com maior volume orçamentário proporcional à população. A cidade tem cerca de 920 mil habitantes, segundo estimativa do IBGE para 2026. O valor per capita do orçamento municipal gira em torno de R$ 7.600 — acima da média das capitais do Centro-Oeste.
As projeções para os anos seguintes indicam crescimento: R$ 7,5 bilhões em 2028 e R$ 8,1 bilhões em 2029. A curva ascendente reflete a expectativa de aumento da arrecadação própria, impulsionada pela expansão imobiliária e pelo crescimento do setor de serviços na capital.
Impacto Para a População
O orçamento municipal determina quanto dinheiro público será aplicado em saúde, educação, transporte, pavimentação e segurança. Para o morador de Campo Grande, a LDO 2027 traduz em números as prioridades da gestão Adriane Lopes para o próximo ano.
A destinação de R$ 500 milhões para obras é o dado que mais interessa aos bairros periféricos, onde a pavimentação é demanda antiga. O recurso da Caixa Econômica para asfalto já está contratado, mas a execução depende de licitações, projetos e fiscalização — etapas que costumam atrasar.
A folha de pessoal de R$ 3,5 bilhões representa 49,6% do orçamento total. O limite prudencial da Lei de Responsabilidade Fiscal para despesas com pessoal em municípios é de 54% da receita corrente líquida. Campo Grande opera próximo desse teto, o que restringe a margem para novos concursos ou reajustes salariais.
| Item orçamentário | Valor previsto (2027) | Percentual do total |
|---|---|---|
| Despesas com pessoal | R$ 3,5 bilhões | 49,6% |
| Obras e investimentos | R$ 500 milhões | 7,1% |
| Receita própria (tributos) | R$ 2,5 bilhões | 35,4% da receita |
| Transferências estaduais/federais | R$ 3,7 bilhões | 52,4% da receita |
| Orçamento total | R$ 7,05 bilhões | 100% |
| Projeção 2028 | R$ 7,5 bilhões | +6,3% sobre 2027 |
| Projeção 2029 | R$ 8,1 bilhões | +8% sobre 2028 |
A dependência de transferências externas — R$ 3,7 bilhões, ou 52,4% da receita — expõe uma fragilidade estrutural. Se o governo federal ou estadual reduzir repasses, a prefeitura terá de cortar investimentos ou aumentar tributos locais. O IPTU, principal imposto municipal, já sofreu reajustes acima da inflação nos últimos três anos, gerando insatisfação entre contribuintes.
Para servidores públicos municipais, a LDO sinaliza que não haverá espaço para reajustes expressivos em 2027. A folha já consome quase metade do orçamento, e qualquer aumento percentual representa centenas de milhões a mais em despesas fixas. A pressão por recomposição salarial, porém, existe — sindicatos de professores e profissionais de saúde já anunciaram que cobrarão a prefeitura durante a tramitação da LOA.
O Que Dizem os Envolvidos
O secretário de Fazenda, Isaac Araújo, apresentou os números aos vereadores e fez questão de destacar o esforço de saneamento fiscal:
"Pagamos R$ 700 milhões de herança de gestões anteriores. Isso nos deu credibilidade junto à Caixa, ao BNDES e ao Ministério da Fazenda. Hoje Campo Grande tem nota A em capacidade de pagamento."
O vereador Otávio Trad (PSD), presidente da Comissão de Finanças, sinalizou que a Câmara não será apenas carimbadora do projeto:
"Vamos analisar linha por linha. Os vereadores querem participar da definição de prioridades. Emendas parlamentares ao orçamento são um direito da Casa e vamos exercê-lo."
Papy, presidente da Câmara, adotou tom institucional e afirmou que a tramitação seguirá o rito completo, com audiências públicas e debates em comissões. O vereador evitou antecipar posição sobre o mérito da proposta.
O secretário de Governo, Ulisses Rocha, acompanhou a apresentação e reforçou que a prefeitura está aberta ao diálogo com os parlamentares. A estratégia da gestão Adriane Lopes é evitar confronto com a Câmara em ano pré-eleitoral — 2027 antecede as eleições municipais de 2028, e a relação entre Executivo e Legislativo tende a se tornar mais sensível à medida que o calendário eleitoral se aproxima.
Vereadores da oposição questionaram a proporção entre despesas com pessoal e investimentos. A crítica é recorrente: quase metade do orçamento vai para folha, enquanto obras recebem apenas 7,1%. A resposta da Fazenda é que a folha inclui profissionais de saúde, educação e segurança — áreas onde o corte de pessoal teria impacto direto na prestação de serviços à população.
Próximos Passos
A LDO 2027 será encaminhada formalmente à Comissão de Finanças da Câmara, que tem prazo regimental para emitir parecer. A expectativa é de que a tramitação dure entre 30 e 60 dias, com votação em plenário prevista para junho de 2026.
Durante esse período, a Câmara deve realizar ao menos duas audiências públicas para ouvir a população e entidades representativas. Sindicatos de servidores, associações de bairro e o setor empresarial costumam participar dessas sessões para pressionar por inclusão de demandas específicas no orçamento.
Os vereadores podem apresentar emendas à LDO, desde que não alterem as metas fiscais estabelecidas pela prefeitura. Na prática, as emendas costumam direcionar recursos para obras em bairros específicos — pavimentação, iluminação, reforma de unidades de saúde. O volume de emendas e a capacidade de negociação de cada vereador com o Executivo determinam quais bairros serão priorizados.
Após a aprovação da LDO, a prefeitura terá até 30 de setembro para enviar a LOA 2027 à Câmara. A LOA detalha cada centavo do orçamento e é o documento que efetivamente autoriza os gastos. A LDO é o mapa; a LOA é o território.
O cumprimento das metas do PEF será monitorado pelo Tesouro Nacional ao longo de 2027. Se Campo Grande descumprir os compromissos assumidos, perde acesso a linhas de crédito federais — o que comprometeria a continuidade das obras de pavimentação financiadas pela Caixa.
Fechamento
O orçamento de R$ 7 bilhões para 2027 reflete uma Campo Grande que cresce, mas que ainda depende fortemente de transferências externas para fechar as contas. A gestão Adriane Lopes aposta no saneamento fiscal como credencial para atrair recursos federais e manter o ritmo de obras. Os vereadores, por sua vez, querem participação ativa na definição de prioridades — e o ano pré-eleitoral de 2027 garante que essa pressão será intensa.
O teste real virá na execução. Aprovar orçamento é exercício de projeção; gastar bem é exercício de gestão. Campo Grande tem histórico de subestimar despesas obrigatórias e superestimar receitas de transferências, o que resulta em contingenciamento de obras no segundo semestre. Se a LDO 2027 repetir esse padrão, os R$ 500 milhões para obras podem encolher antes de chegar ao canteiro.
Fontes e Referências
- Campo Grande News (campograndenews.com.br)
- Câmara Municipal de Campo Grande (camara.ms.gov.br)
- Ministério da Fazenda — Plano de Promoção do Equilíbrio Fiscal (fazenda.gov.br)
