O Que Aconteceu
O conflito entre Estados Unidos e Irã no Estreito de Ormuz — rota de escoamento de cerca de 30% do petróleo mundial — já impacta custos de fertilizantes e combustíveis no Brasil. Para Mato Grosso do Sul, o cenário é de dupla face: pressão nos custos de produção agrícola e, ao mesmo tempo, oportunidade para consolidar o estado como polo de bioenergia.
Durante o seminário LIDE Agronegócio, realizado nesta quarta-feira (8) em São Paulo, lideranças do setor discutiram os efeitos da crise e as saídas possíveis. O etanol apareceu como protagonista nas falas de produtores, parlamentares e pesquisadores. A senadora Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra da Agricultura, participou do evento e defendeu o agronegócio brasileiro como resposta à instabilidade energética global.
Mato Grosso do Sul projeta produção de quase 5 bilhões de litros de etanol na safra 2025/26, impulsionada pelo etanol de milho — segmento em que o estado é líder nacional — e pelos incentivos do programa RenovaBio. O governo federal pretende elevar a mistura de etanol na gasolina de 30% para 32% ainda no primeiro semestre de 2026, medida que ampliaria a demanda interna e beneficiaria diretamente os produtores sul-mato-grossenses.
Na outra ponta, o governo publicou a Medida Provisória 1.349, que institui desconto de R$ 1,20 por litro no diesel, dividido entre União e estados. Mato Grosso do Sul aderiu à medida, com perda estimada de R$ 60 milhões nas contas estaduais até maio.
Contexto e Histórico
O Estreito de Ormuz, localizado entre Irã e Omã, é o gargalo logístico mais sensível do mercado global de petróleo. Por ali passam diariamente cerca de 21 milhões de barris — volume que abastece refinarias na Ásia, Europa e Américas. Qualquer ameaça de bloqueio ou restrição ao tráfego de petroleiros provoca reação imediata nos mercados de commodities.
A tensão entre EUA e Irã escalou nas últimas semanas após sanções americanas ao programa nuclear iraniano e retaliações de Teerã com exercícios militares na região. O preço do barril de petróleo Brent saltou de US$ 72 para US$ 89 em menos de 30 dias, puxando derivados como diesel e gasolina. Para o Brasil, que importa cerca de 25% do diesel consumido internamente, o impacto é direto.
Mato Grosso do Sul sente a pressão em duas frentes. A primeira é o custo do diesel, combustível que move a frota de caminhões responsável pelo escoamento de soja, milho, celulose e carne — os quatro pilares da economia estadual. O frete rodoviário responde por mais de 60% do transporte de safra em MS, e cada centavo a mais no litro de diesel se traduz em milhões de reais adicionais no custo logístico.
A segunda frente é o preço dos fertilizantes. O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome, e boa parte vem de rotas marítimas que passam pelo Oriente Médio ou são afetadas pela instabilidade na região. O encarecimento do frete marítimo — que subiu 18% desde o início da crise, segundo dados da Drewry Shipping — pressiona o custo de insumos para a safra 2026/27, cujo planejamento já começou.
Mas a mesma crise que encarece o petróleo torna o etanol mais competitivo. Com a gasolina mais cara, o biocombustível ganha vantagem na bomba — especialmente em estados produtores, onde o preço do etanol costuma ficar abaixo de 70% do preço da gasolina, limiar a partir do qual o abastecimento com etanol se torna economicamente vantajoso para veículos flex.
A trajetória de MS como polo de etanol começou na década de 2000, com a expansão da cana-de-açúcar no sul do estado. A partir de 2015, o etanol de milho entrou em cena e transformou a matriz energética estadual. Hoje, MS tem mais de 20 usinas em operação, sendo pelo menos oito dedicadas exclusivamente ao etanol de milho. A produção saltou de 2,1 bilhões de litros na safra 2018/19 para os quase 5 bilhões projetados para 2025/26 — crescimento de 138% em sete safras.
O programa RenovaBio, instituído pela Lei 13.576/2017, acelerou esse crescimento ao criar os CBIOs (Créditos de Descarbonização). Cada litro de etanol produzido gera créditos proporcionais à eficiência energética da usina, que são vendidos a distribuidoras de combustíveis obrigadas a cumprir metas de descarbonização. Para as usinas de MS, os CBIOs representam receita adicional que pode chegar a R$ 0,10 por litro — margem que viabiliza investimentos em ampliação de capacidade.
O seminário LIDE Agronegócio, realizado no Hotel Grand Hyatt em São Paulo, reuniu cerca de 300 lideranças do setor. O evento acontece anualmente e funciona como termômetro das preocupações e oportunidades do agronegócio brasileiro. Em 2026, a crise no Ormuz dominou os painéis, com debates sobre segurança energética, diversificação de fornecedores de fertilizantes e o papel dos biocombustíveis na transição energética.
Impacto Para a População
Para o consumidor sul-mato-grossense, a crise no Ormuz se traduz em preços mais altos na bomba e no supermercado. O diesel mais caro encarece o frete, que encarece alimentos, materiais de construção e produtos industrializados. O efeito cascata atinge especialmente famílias de baixa renda, que comprometem parcela maior do orçamento com alimentação e transporte.
| Indicador | Antes da crise | Durante a crise | Variação |
|---|---|---|---|
| Barril de petróleo Brent | US$ 72 | US$ 89 | +23,6% |
| Diesel na bomba (média MS) | R$ 6,15/litro | R$ 6,78/litro (estimativa) | +10,2% |
| Frete rodoviário (soja CG→Santos) | R$ 280/tonelada | R$ 310/tonelada (estimativa) | +10,7% |
| Etanol hidratado (média MS) | R$ 3,89/litro | R$ 3,95/litro | +1,5% |
| Fertilizante MAP (tonelada) | R$ 3.200 | R$ 3.680 (estimativa) | +15% |
A Medida Provisória 1.349 tenta conter o impacto no diesel com desconto de R$ 1,20 por litro. Para o caminhoneiro que roda 15 mil quilômetros por mês e consome cerca de 4.500 litros de diesel, o desconto representa economia de R$ 5.400 mensais — valor que pode ser a diferença entre operar no lucro ou no prejuízo.
Para o produtor rural de MS, o cenário é ambíguo. O custo de produção sobe com diesel e fertilizantes mais caros, mas a receita com etanol pode compensar parcialmente. Usinas que produzem etanol de milho operam com margem de lucro que varia entre R$ 0,15 e R$ 0,30 por litro, dependendo do preço do milho e do etanol na bomba. Com a gasolina mais cara, a demanda por etanol tende a crescer, sustentando preços e margens.
O aumento da mistura de etanol na gasolina de 30% para 32%, se confirmado, representaria demanda adicional de centenas de milhões de litros por ano no mercado interno. Para MS, que já opera próximo da capacidade instalada, isso pode acelerar investimentos em novas usinas e ampliação das existentes — gerando empregos e renda no interior do estado.
O lado vulnerável é a dependência de fertilizantes importados. Produtores de soja e milho de MS — culturas que consomem grandes volumes de nitrogênio, fósforo e potássio — enfrentam a perspectiva de custos mais altos na safra 2026/27. O calendário agrícola brasileiro dá uma janela de amortecimento: a maior demanda por fertilizantes no Hemisfério Norte, que planta entre março e maio, absorve parte da pressão de preços antes que o Brasil entre na fase de compra intensiva, entre julho e setembro.
O Que Dizem os Envolvidos
A senadora Tereza Cristina (PP-MS) foi enfática ao defender o agronegócio como resposta à crise energética.
"A guerra afeta toda a cadeia, do produtor ao consumidor. Às vezes, estamos minimizando o impacto de um conflito que ocorre a milhares de quilômetros, mas que já chegou ao Brasil e influencia diretamente o nosso mercado", afirmou a senadora durante o seminário LIDE Agronegócio.
Tereza Cristina defendeu a ampliação da mistura de etanol na gasolina e a aceleração do programa RenovaBio como medidas estruturais para reduzir a dependência brasileira do petróleo importado.
Heitor Cantarella, diretor do Centro de Solos e Recursos Ambientais do IAC (Instituto Agronômico de Campinas), alertou que estados produtores de grãos serão os mais afetados pela alta dos fertilizantes.
"Os estados produtores de grãos vão ter o impacto do fornecimento de fertilizantes. Felizmente, o impacto agora vai ser amortecido porque a maior demanda está sendo pelos países do Hemisfério Norte, que estão plantando agora", explicou o pesquisador.
Cantarella recomendou que produtores brasileiros antecipem compras de fertilizantes e diversifiquem fornecedores, reduzindo a exposição a rotas marítimas vulneráveis. O IAC desenvolve pesquisas sobre eficiência no uso de fertilizantes que podem reduzir a dependência de importações em até 20%, segundo estimativas do instituto.
O secretário de Fazenda de MS, Flávio César, confirmou a adesão do estado à desoneração do diesel e reconheceu o impacto nas contas públicas.
"Haverá impacto, sem dúvidas, mas é uma situação excepcional. A União está fazendo seu esforço, e os estados também. O governador entendeu a importância de participar desse esforço conjunto", afirmou o secretário.
Representantes do setor sucroenergético de MS, ouvidos pela reportagem sob condição de anonimato, afirmaram que a crise no Ormuz pode acelerar em dois a três anos os planos de expansão de capacidade produtiva no estado. Pelo menos três projetos de novas usinas de etanol de milho estão em fase de estudo de viabilidade, com investimento estimado em R$ 1,2 bilhão.
Próximos Passos
O governo federal deve anunciar até o fim de abril a decisão sobre o aumento da mistura de etanol na gasolina de 30% para 32%. A medida depende de parecer técnico da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) e de consulta ao CIMA (Conselho Interministerial do Açúcar e do Álcool). Se aprovada, entra em vigor 90 dias após a publicação.
A Medida Provisória 1.349, que institui o desconto no diesel, tem validade de 120 dias e precisa ser convertida em lei pelo Congresso Nacional. A bancada ruralista — que inclui deputados e senadores de MS — já sinalizou apoio à conversão, mas negocia a inclusão de dispositivos que estendam o benefício para o gás de cozinha.
No plano estadual, o governo Riedel monitora os desdobramentos da crise e avalia medidas complementares. A Semagro (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação) estuda linha de crédito emergencial para produtores rurais afetados pela alta dos fertilizantes, em parceria com o Banco do Brasil e o BNDES.
O setor sucroenergético de MS planeja ampliar a capacidade instalada em pelo menos 15% até a safra 2027/28, segundo projeções da Biosul (Associação de Bioenergia de Mato Grosso do Sul). Os investimentos dependem da manutenção do RenovaBio e da confirmação do aumento da mistura de etanol na gasolina.
A próxima edição do seminário LIDE Agronegócio está prevista para outubro de 2026, quando o cenário geopolítico e os preços de commodities terão evoluído. Até lá, produtores e governos estaduais terão que navegar a incerteza com as ferramentas disponíveis — e MS, com quase 5 bilhões de litros de etanol na safra, tem mais ferramentas do que a maioria.
Fechamento
A crise no Estreito de Ormuz expõe a fragilidade da dependência brasileira de petróleo e fertilizantes importados. Para Mato Grosso do Sul, o momento é de risco e oportunidade em proporções semelhantes. O risco está nos custos — diesel, frete, insumos — que corroem margens de produtores e encarecem a vida do consumidor. A oportunidade está no etanol, que ganha competitividade toda vez que o barril de petróleo sobe.
A combinação de crise energética global e resposta doméstica via biocombustíveis coloca MS em posição estratégica. O desafio é transformar a oportunidade conjuntural em vantagem estrutural — e isso depende de investimentos em logística, armazenamento e capacidade industrial que vão além do ciclo de uma safra ou de um mandato. O estado tem a matéria-prima, a tecnologia e a escala. Falta garantir que a política pública acompanhe o ritmo do mercado.
Fontes e Referências
- Campo Grande News (campograndenews.com.br)
- LIDE Agronegócio — Seminário realizado em 8 de abril de 2026, São Paulo
- IAC — Instituto Agronômico de Campinas (iac.sp.gov.br)
- Biosul — Associação de Bioenergia de Mato Grosso do Sul
- ANP — Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis
- Drewry Shipping — Índice de frete marítimo
