O avanço das forças de segurança sobre as rodovias federais e estaduais pavimentadas de Mato Grosso do Sul empurrou as organizações criminosas para o interior das estradas de terra, travessias de fazendas e corredores vicinais — mas a resposta operacional do policiamento especializado no campo atingiu marcas históricas neste mês de outubro. O balanço oficial divulgado pelo Batalhão de Polícia Militar Rural (BPMRu) da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul (PMMS) referente às edições da Operação Falcão confirma a interceptação de mais de 5,7 toneladas de drogas, a apreensão de 48 armas de fogo e a captura de 37 foragidos da Justiça em áreas rurais do estado.
Mais do que um esforço pontual de repressão ao narcotráfico que tenta cruzar as propriedades produtivas rumo ao Sudeste, os números demonstram a consolidação de uma rede permanente de vigilância comunitária no agronegócio sul-mato-grossense: ao longo das operações, as equipes do BPMRu executaram 12.538 rondas preventivas em estradas vicinais e realizaram 13.152 visitas técnicas e comunitárias diretamente nas sedes de fazendas, assentamentos, agroindústrias e retiros pecuários.
A rota invisível das estradas vicinais: de Paranhos e Bonito até a divisa em Bataguassu
Durante décadas, a vastidão territorial de Mato Grosso do Sul — com mais de 357 mil quilômetros quadrados e dezenas de milhares de quilômetros de estradas não pavimentadas — foi explorada por quadrilhas de traficantes e contrabandistas como rota de fuga ("desvio cabriteiro") para contornar os postos da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e do Batalhão de Polícia Militar Rodoviária (BPMRv).
Com o mapeamento georreferenciado das propriedades rurais e o emprego de caminhonetes traçadas (4x4) preparadas para terrenos alagadiços e arenosos, o Batalhão de Polícia Militar Rural fechou o cerco justamente nos pontos de estrangulamento dessas rotas secundárias. De acordo com o levantamento operacional da corporação, as 5,7 toneladas de entorpecentes (majoritariamente maconha, skunk e cargas fracionadas de cocaína) foram interceptadas em cinco eixos estratégicos:
- Corredor da Fronteira Sul (Paranhos e Região): Ponto crítico de ingresso de cargas ilícitas vindas do território paraguaio através de trilhas abertas no meio de pastagens e matas ciliares;
- Eixo da Serra da Bodoquena e Sudoeste (Bonito e Jardim): Estradas vicinais de cascalho utilizadas por "batedores" e caminhonetes abarrotadas de fardos de droga que tentam evitar o eixo principal da BR-060 e da MS-164;
- Anel Rural da Região Central (Terenos): Vicinais que conectam o Pantanal à região metropolitana de Campo Grande, onde chácaras e pequenos sítios chegavam a ser alugados por facções como entrepostos ("cofres") para troca de veículos;
- Polo Florestal do Bolsão (Ribas do Rio Pardo): Extensas rotas de terra em meio a maciços de eucalipto, onde o intenso fluxo de caminhões florestais era usado por criminosos para tentar camuflar o deslocamento de veículos roubados e cargas de entorpecentes;
- Funil da Divisa Leste (Bataguassu): Porta de saída para o estado de São Paulo através do Rio Paraná, onde o patrulhamento rural bloqueia o acesso às margens do reservatório e às estradas secundárias próximas à BR-267.
| Indicador Operacional (Balanço Operação Falcão — BPMRu/PMMS) | Resultado Consolidado no Campo em MS |
|---|---|
| Volume Total de Drogas Apreendidas | Mais de 5,7 toneladas de entorpecentes interceptados |
| Municípios com Maiores Apreensões | Bataguassu, Bonito, Paranhos, Ribas do Rio Pardo e Terenos |
| Patrulhamento Ostensivo Rural | 12.538 rondas preventivas em estradas vicinais e corredores |
| Policiamento de Proximidade | 13.152 visitas comunitárias a fazendas, sítios e assentamentos |
| Desarmamento no Campo | 48 armas de fogo ilegais e 427 munições de diversos calibres |
| Cumprimento de Ordens Judiciais | 37 mandados de prisão cumpridos contra foragidos na zona rural |
| Foco Sanitário e Patrimonial (Falcão IV) | Combate ao abigeato, recuperação de gado/insumos e apoio à Iagro |
Operação Falcão IV e o combate ao abigeato, furto de defensivos e maquinário
Para o produtor rural sul-mato-grossense, a presença ostensiva das viaturas do BPMRu representa uma barreira direta contra três crimes patrimoniais que historicamente causam prejuízos milionários ao setor agropecuário: o abigeato (furto e abate clandestino de gado), o roubo de defensivos agrícolas de alto valor comercial e o furto de tratores, implementos, selas, motores e transformadores de energia.
Nos desdobramentos mais recentes da Operação Falcão IV, concentrada com força nas regiões Oeste e Sudoeste do estado, os policiais militares rurais atuaram em estreita cooperação com fiscais da Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal (Iagro). Nas barreiras volantes montadas em encruzilhadas de estradas boiadeiras e acessos a frigoríficos e leilões, as equipes realizaram a conferência rigorosa de:
- Guias de Trânsito Animal (GTA) e Notas Fiscais de Produtor: Verificação em tempo real da origem e do destino dos lotes bovinos e equinos transportados em caminhões gaiola, impedindo o escoamento de animais furtados durante a madrugada;
- Conferência de Marcas a Fogo e Brincos de Rastreabilidade: Inspeção física dos animais retidos por divergências documentais, resultando na recuperação de dezenas de cabeças de gado e na autuação administrativa e criminal dos responsáveis pelo transporte irregular;
- Proteção Sanitária do Rebanho Estadual: Como Mato Grosso do Sul detém o status internacional de área livre de febre aftosa sem vacinação reconhecido pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA), o bloqueio ao trânsito clandestino de gado na faixa de fronteira é vital para evitar a introdução de patógenos que poderiam embargar as exportações de carne bovina do estado.
Essa ofensiva no campo soma-se a outras grandes ações de segurança pública deflagradas nos últimos dias no interior sul-mato-grossense, como a Operação Remédio Proscrito, que uniu PF, PRF e PMMS para fechar um laboratório clandestino de anfetaminas em Dourados, e as operações do Batalhão de Polícia Militar Rodoviária (BPMRv) que interceptaram contrabando de medicamentos injetáveis e haxixe na rodovia MS-164.
Placas georreferenciadas e rede de alerta rápido: como as 13 mil visitas mudaram a segurança nas fazendas
Um dos pilares que explicam a eficácia da Operação Falcão na captura de 37 criminosos foragidos e na apreensão de 48 armas de fogo ilegais no interior das propriedades é o programa de Policiamento Comunitário Rural e o cadastramento georreferenciado das fazendas.
No passado, quando uma propriedade rural sofria uma invasão, furto de gado ou tomada de reféns a 60 ou 80 quilômetros da área urbana, a principal dificuldade das guarnições policiais era localizar a entrada exata da fazenda em meio a dezenas de porteiras, pontes de madeira e bifurcações sem sinalização. Com o programa conduzido pelo BPMRu — que já ultrapassou a marca de 13.152 visitas comunitárias —, cada propriedade cadastrada recebe um código alfanumérico único e tem as coordenadas exatas de satélite (GPS) de sua sede, de seus retiros e de suas vias de acesso integradas ao sistema de despacho da Polícia Militar.
Além disso, o contato direto dos policiais com patrões, gerentes, capatazes e peões criou uma rede de inteligência preventiva:
- Monitoramento de Movimentações Suspeitas: Veículos desconhecidos circulando em baixa velocidade por estradas vicinais, caminhões boiadeiros carregando gado fora do horário habitual ou aeronaves fazendo pousos clandestinos em pistas rurais passam a ser comunicados instantaneamente às guarnições do BPMRu via grupos operacionais monitorados;
- Verificação de Antecedentes no Campo: Muitas das 37 prisões por mandado judicial efetuadas durante a Operação Falcão ocorreram após abordagens técnicas em estradas vicinais e frentes de trabalho temporário, onde indivíduos condenados ou procurados por homicídio, tráfico de drogas, roubo e violência doméstica em outros estados tentavam esconder-se trabalhando sem registro formal em fazendas isoladas;
- Retirada de Armas Ilegais de Circulação: As 48 armas de fogo e 427 munições apreendidas pelas equipes rurais incluíam revólveres, pistolas e espingardas sem registro no Sinarm/Sigma portadas ilegalmente em veículos nas estradas de terra ou utilizadas por quadrilhas de caça predatória e abigeato.
Integração com condições climáticas e apoio ao homem do campo
A presença diária das viaturas do Batalhão Rural nos rincões mais distantes de Mato Grosso do Sul também cumpre um papel humanitário e de defesa civil em momentos de crise climática. Com o estado enfrentando oscilações severas de tempo neste mês de outubro — incluindo o alerta de tempestades e vendavais de até 70 km/h emitido pelo Inmet para todos os 79 municípios após a onda de calor de 43°C e os recentes episódios de cheia atípica no Rio Miranda —, as patrulhas rurais frequentemente são as primeiras a avaliar as condições de trafegabilidade de pontes de madeira, aterros rompidos e estradas vicinais ilhadas pelas chuvas.
Segundo o comando do Batalhão de Polícia Militar Rural, o cronograma da Operação Falcão seguirá em ritmo intensificado durante a transição para o mês de novembro, quando o início do plantio da safra de verão e a movimentação de maquinário pesado e insumos químicos pelas estradas do interior exigem vigilância redobrada nos polos agrícolas da Grande Dourados, Região Norte, Bolsão e Sudoeste sul-mato-grossense.




