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Operação Remédio Proscrito: PF, PRF e PMMS fecham laboratório clandestino de emagrecedor proibido coordenado por sargento em Dourados

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Por Redação Bastidor Público
Publicado em 23 de outubro de 2026 às 00:00
9 min de leitura
WFXT
Agentes da Polícia Federal (PF), Polícia Rodoviária Federal (PRF) e Polícia Militar de Mato Grosso do Sul (PMMS) inspecionam maquinário, insumos químicos e milhares de cápsulas de clobenzorex apreendidos durante a Operação Remédio Proscrito no bairro Jardim Hilda, em Dourados — Imagem criada por inteligência artificial.
Agentes da Polícia Federal (PF), Polícia Rodoviária Federal (PRF) e Polícia Militar de Mato Grosso do Sul (PMMS) inspecionam maquinário, insumos químicos e milhares de cápsulas de clobenzorex apreendidos durante a Operação Remédio Proscrito no bairro Jardim Hilda, em Dourados — Imagem criada por inteligência artificial.

O cerco das forças de segurança contra o mercado clandestino de substâncias emagrecedoras em Mato Grosso do Sul avançou da interceptação nas rodovias para o desmantelamento direto de uma linha de produção industrial oculta dentro de uma área residencial. Em uma ação conjunta de inteligência batizada de Operação Remédio Proscrito, equipes da Polícia Federal (PF), da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul (PMMS) fecharam um laboratório clandestino instalado no bairro Jardim Hilda, na região sul de Dourados, a 225 quilômetros de Campo Grande.

A operação resultou na prisão em flagrante de duas pessoas apontadas como responsáveis pela manufatura e distribuição em larga escala dos comprimidos: o sargento da reserva da Polícia Militar Marcos Roberto da Silva, de 54 anos, e sua esposa, Valdenice Silveira Goes, de 48 anos. Dentro do imóvel, situado na Rua José Stroppa, nas imediações do Parque Ambiental Rego D'Água (região do Grande Água Boa), os agentes encontraram um cômodo inteiramente adaptado para a manipulação química e encapsulamento de clobenzorex, um potente estimulante anfetamínico de uso estritamente proibido (proscrito) em todo o território nacional pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).


Da abordagem na Rua Cuiabá à descoberta da fábrica no Jardim Hilda

O desmantelamento do laboratório clandestino é resultado de duas semanas de trabalho investigativo coordenado entre os núcleos de inteligência da PRF, da PF e da PMMS em Dourados. O fio condutor do esquema veio à tona durante uma fiscalização de rotina realizada por policiais rodoviários federais na Rua Cuiabá, na área central do município.

Na ocasião, os agentes abordaram uma técnica de enfermagem que transportava diversos frascos plásticos brancos, totalmente desprovidos de rótulos, bulas, lote de fabricação ou selo de rastreabilidade sanitária. No interior dos potes, havia dezenas de cápsulas gelatinosas contendo pó químico de ação anorexígena.

A partir da apreensão inicial e do aprofundamento das diligências pela Polícia Federal, os investigadores descobriram que a profissional de saúde atuava como intermediária logística no escoamento varejista da substância. O público-alvo prioritário da rede clandestina era composto por estudantes universitários e frequentadores de academias de Dourados e municípios vizinhos, atraídos pela promessa de perda rápida de peso e aumento artificial de estado de alerta para maratonas de estudo.

Cada frasco contendo 15 cápsulas era comercializado no mercado paralelo pelo valor médio de R$ 100, gerando alta margem de lucro para os operadores do esquema sem qualquer recolhimento tributário ou controle médico. O monitoramento das entregas e do fluxo de insumos levou as equipes policiais diretamente ao endereço da Rua José Stroppa, no Jardim Hilda, onde o mandado judicial foi cumprido.

Elemento da Investigação (Operação Remédio Proscrito) Detalhamento Oficial Apurado em Dourados (MS)
Forças Policiais Integradas Polícia Federal (PF), Polícia Rodoviária Federal (PRF) e Polícia Militar (PMMS)
Local do Laboratório Clandestino Residência na Rua José Stroppa, bairro Jardim Hilda (região do Grande Água Boa), Dourados
Autuados em Flagrante Marcos Roberto da Silva (54 anos, sargento da reserva da PM) e Valdenice Silveira Goes (48 anos)
Princípio Ativo Identificado Clobenzorex (anorexígeno derivado de anfetamina de uso proscrito pela Anvisa)
Capacidade Produtiva Estimada Aproximadamente 15 mil cápsulas (entre comprimidos prontos e insumos químicos apreendidos)
Origem da Descoberta Abordagem da PRF a uma técnica de enfermagem na Rua Cuiabá com frascos sem rótulo
Valor Comercial no Varejo Ilegal Cerca de R$ 100 por frasco com 15 cápsulas (foco no público universitário)

Produção em escala: 15 mil cápsulas e maquinário de precisão dentro de casa

Ao ingressarem na residência do sargento da reserva e de sua esposa no Jardim Hilda, os policiais federais, rodoviários federais e militares depararam-se com uma estrutura que ia muito além do simples fracionamento artesanal. Um dos quartos da casa havia sido convertido em uma linha de montagem farmacêutica clandestina.

Sobre bancadas improvisadas, foram apreendidos:

  1. Milhares de cápsulas já preenchidas e lacradas, prontas para o envase nos potes plásticos brancos;
  2. Quilos de insumos químicos em pó (princípio ativo clobenzorex misturado a excipientes sem grau farmacêutico certificado), cujo volume total apreendido possuía potencial imediato para a confecção de aproximadamente 15 mil comprimidos;
  3. Encapsuladeiras, balanças digitais de precisão miligramática e seladoras térmicas, utilizadas para padronizar o enchimento das cápsulas em escala semiautomática;
  4. Centenas de frascos vazios, tampas lacre e embalagens plásticas destinadas à distribuição direta aos revendedores.

Em valores de mercado paralelo — considerando a comercialização de frascos de 15 unidades a R$ 100 —, um único lote de 15 mil cápsulas representava um faturamento bruto estimado em R$ 100 mil para o núcleo familiar que operava o laboratório. Todo o material químico e o maquinário foram lacrados e encaminhados para perícia criminal química na Delegacia da Polícia Federal em Dourados, onde o casal foi formalmente autuado em flagrante.

A descoberta de mais um polo de distribuição ilegal de emagrecedores na segunda maior cidade do estado ocorre menos de 24 horas após o Batalhão de Polícia Militar Rodoviária (BPMRv) divulgar a apreensão de remessas contrabandeadas de tirzepatida (Mounjaro) e haxixe na rodovia MS-164, confirmando que o comércio ilegal de produtos para emagrecimento tornou-se uma das vertentes mais lucrativas e perigosas do crime organizado na faixa de fronteira.


O perigo oculto no frasco sem rótulo: o que é o clobenzorex e por que é banido

Diferentemente das canetas injetáveis modernas voltadas ao controle metabólico da glicose e da insulina, o clobenzorex apreendido pela Operação Remédio Proscrito pertence à geração das anfetaminas anorexígenas clássicas (popularmente conhecidas nas estradas e no comércio clandestino sob nomes comerciais estrangeiros como Asenlix ou como "rebites" de alta potência).

Do ponto de vista farmacológico e toxicológico, o clobenzorex atua diretamente no sistema nervoso central forçando a liberação maciça de noradrenalina e dopamina nas fendas sinápticas. Uma vez ingerida, a substância é biotransformada pelo fígado humano em dextroanfetamina — exatamente a mesma molécula ativa de anfetaminas de alto potencial de abuso.

Os riscos clínicos para quem consome cápsulas manipuladas em fundo de quintal, sem controle de pureza nem homogeneidade de dose, são gravíssimos:

  • Sobrecarga Cardiovascular Aguda: Aumento abrupto da pressão arterial e da frequência cardíaca (taquicardia), podendo desencadear infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral (AVC) hemorrágico mesmo em adultos jovens e universitários sem histórico cardíaco prévio;
  • Desequilíbrio de Dosagem Letal: Em laboratórios farmacêuticos regulares, misturadores industriais em "V" garantem que cada cápsula contenha exatamente a mesma miligramagem de princípio ativo. Na manipulação doméstica feita em cômodos residenciais, a mistura desigual do pó faz com que uma cápsula contenha dose sub-terapêutica e outra cápsula do mesmo frasco concentre uma superdosagem tóxica capaz de provocar parada cardiorrespiratória;
  • Transtornos Psiquiátricos e Dependência Química: O uso contínuo induz insônia severa, crises de pânico, agressividade, paranoia, alucinações visuais/auditivas (psicose anfetamínica) e forte síndrome de abstinência depressiva quando o uso é interrompido;
  • Contaminação Microbiológica e Química: A ausência de filtros de ar estéreis, controle de umidade e certificação dos excipientes expõe o consumidor à ingestão de metais pesados, fungos e solventes industriais.

Por essas razões, a Anvisa mantém o clobenzorex na Lista F2 (Substâncias Psicotrópicas de Uso Proscrito no Brasil) da Portaria SVS/MS nº 344/1998, atualizada pelas resoluções colegiadas da agência em 2021 e 2026. Na prática jurídica, nenhuma farmácia, hospital ou indústria brasileira tem autorização para produzir, importar ou dispensar a substância.


Enquadramento jurídico severo e controle disciplinar nas forças de segurança

A presença de um sargento da reserva da Polícia Militar no comando da fabricação clandestina exigiu o acompanhamento direto da PMMS durante o cumprimento das ordens judiciais e na lavratura do auto de prisão na sede da Polícia Federal em Dourados.

A atuação rigorosa das instituições sul-mato-grossenses contra desvios de conduta de agentes ou ex-agentes públicos reflete a diretriz de tolerância zero que marcou outras operações recentes no estado, como a Operação Colete de Troia, deflagrada pelo Gaeco/MPMS e pela Polícia Penal contra o ingresso ilícito de materiais na Penitenciária Estadual de Dourados (PED), e a condenação histórica obtida pelo Ministério Público na Operação Infiltrados em Campo Grande.

No âmbito criminal federal, os investigados presos na Operação Remédio Proscrito respondem por uma combinação de delitos de altíssimo potencial ofensivo:

  1. Tráfico de Drogas (Art. 33 da Lei nº 11.343/2006): Como o clobenzorex integra a lista oficial de substâncias psicotrópicas proscritas da Portaria nº 344/1998 da Anvisa, a jurisprudência consolidada do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Supremo Tribunal Federal (STF) equipara a fabricação, o depósito e a venda dessa substância ao crime de tráfico de entorpecentes, com pena prevista de 5 a 15 anos de reclusão, além de multa;
  2. Falsificação, Corrupção ou Alteração de Produto Destinado a Fins Terapêuticos ou Medicinais (Art. 273 do Código Penal): A manufatura e distribuição de cápsulas medicinais sem registro no órgão de vigilância sanitária, sem identificação de procedência e em estabelecimento sem licença configura crime hediondo contra a saúde pública, cuja pena varia de 10 a 15 anos de reclusão;
  3. Associação para o Tráfico / Associação Criminosa: A divisão estruturada de tarefas entre o núcleo produtor (o casal responsável pelo maquinário e encapsulamento no Jardim Hilda) e a rede de distribuição externa (como a técnica de enfermagem interceptada na Rua Cuiabá) agrava a responsabilização penal dos envolvidos.

Os celulares, cadernos de anotações financeiras e comprovantes de transferências via PIX apreendidos na residência passarão por extração pericial da Polícia Federal em Dourados. O objetivo dos investigadores agora é identificar os fornecedores internacionais que abasteciam o casal com a matéria-prima química do clobenzorex — frequentemente introduzida no estado através da fronteira seca entre Pedro Juan Caballero e Ponta Porã —, bem como mapear outros intermediários que revendiam os frascos sem rótulo nos campi universitários e academias da região da Grande Dourados.

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