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Salto de 35% em defensivos ilegais faz Iagro, PRF e DOF apertarem cerco na fronteira de MS

Com depósitos policiais superlotados por toneladas de químicos contrabandeados, governo de MS institui força-tarefa de descarte e fecha rotas da BR-163 e MS-164.

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Por Redação Bastidor Público
Publicado em 25 de outubro de 2026 às 00:00
6 min de leitura
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Inspetores da Iagro e policiais da PRF realizam vistoria em defensivos agrícolas contrabandeados retidos em posto fiscal na BR-163 — Imagem criada por inteligência artificial.
Inspetores da Iagro e policiais da PRF realizam vistoria em defensivos agrícolas contrabandeados retidos em posto fiscal na BR-163 — Imagem criada por inteligência artificial.

O avanço desenfreado do contrabando de defensivos agrícolas de procedência estrangeira acendeu o sinal de alerta máximo nas autoridades sanitárias e nas forças de segurança de Mato Grosso do Sul. Relatórios consolidados da Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal (Iagro) apontam que as apreensões e autos de infração ligados a produtos agroquímicos sem registro federal, proibidos ou vencidos saltaram 35,5% em 2026, acumulando mais de seis dezenas de ocorrências de grande escala contra 45 registros no mesmo período do ano anterior.

O volume expressivo de venenos retidos gerou um impasse logístico crítico: os depósitos da Polícia Rodoviária Federal (PRF), do Departamento de Operações de Fronteira (DOF) e da própria Iagro em municípios como Ponta Porã, Naviraí, Dourados e Campo Grande atingiram o limite de armazenamento seguro. Para resolver o gargalo e eliminar o risco de contaminação ambiental, o governo de Mato Grosso do Sul formalizou nesta reta final de outubro a criação de um grupo de trabalho emergencial destinado a inventariar, transportar e destinar à incineração controlada centenas de toneladas de produtos químicos perigosos acumulados.


O mapa das rotas clandestinas: da fronteira paraguaia às lavouras do Centro-Oeste

A geografia do contrabando de químicos agrícolas obedece à mesma malha logística explorada pelo narcotráfico na faixa limítrofe entre Mato Grosso do Sul e o Paraguai. Os compostos — em sua maioria fabricados na Ásia e internalizados ilegalmente por portos clandestinos do Rio Paraná e estradas vicinais do Departamento de Amambay — entram em território sul-mato-grossense por rotas secas nos arredores de Sete Quedas, Paranhos, Coronel Sapucaia e Ponta Porã.

Uma vez dentro do estado, as cargas são transferidas de veículos menores (como picapes e utilitários preparados) para caminhões de grãos e furgões baú. Os principais eixos de escoamento monitorados pelas forças policiais incluem:

  1. A Rodovia BR-163: Eixo troncal que interliga o cone sul de MS à capital Campo Grande e aos estados de Mato Grosso e Goiás, onde a demanda por insumos de combate a pragas em lavouras de soja e milho atinge picos sazonais;
  2. A Rodovia MS-164: Corredor que corta Ponta Porã, Antônio João e Maracaju, frequentemente utilizado para desviar dos postos fixos de fiscalização fazendária e sanitária;
  3. A Rodovia BR-262: Ligação transversal rumo a Três Lagoas e ao estado de São Paulo, onde intermediários operam a redistribuição para pequenos produtores do interior paulista e mineiro.

A atuação integrada das forças policiais e sanitárias resultou em apreensões sucessivas de cargas milionárias, como documentado nas ações do Batalhão de Polícia Rodoviária na MS-164 e nas ofensivas rurais contra o crime organizado conduzidas pela Operação Falcão do Batalhão Rural da PMMS.


Panorama pericial: as principais substâncias proibidas interceptadas em MS

Os laudos químicos elaborados pela perícia técnica da Polícia Federal e do Instituto de Criminalística de MS revelam que os contrabandistas concentram o comércio ilegal em produtos que tiveram o registro cancelado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ou que possuem entrada estritamente controlada devido à alta toxidade humana e ambiental:

Princípio Ativo Apreendido Concentração Encontrada Origem Declarada / Rótulo Status Regulatório no Brasil Risco Identificado pelos Inspetores
Benzoato de Emamectina 30% a 50% (Pó solúvel) China / Índia (via Paraguai) RESTRITO / CONCENTRADO ILEGAL Danos severos ao sistema nervoso central de aplicadores; contaminação de lençol freático.
Paraquat 200 g/L (Líquido) Paraguai PROIBIDO DEFINITIVAMENTE (2020) Fibrose pulmonar irreversível e alta letalidade por inalação ou contato cutâneo.
Fipronil Ilegal 800 g/kg (Granulado) China / Paraguai PROIBIÇÃO DE PULVERIZAÇÃO FOLIAR Causa mortandade massiva de abelhas e polinizadores em áreas de cultivo adjacentes.
Tiametoxam Contrabandeado 250 g/kg (Grânulos dispersíveis) Paraguai IRREGULAR / SEM RECEITUÁRIO Falsificação grosseira contendo impurezas pesadas e solventes inflamáveis proibidos.
Glifosato Concentrado s/ Registro 792 g/kg Embalagens sem lote APREENSÃO SANITÁRIA Presença de metais pesados tóxicos fora dos parâmetros de segurança do Ministério da Agricultura.

Conforme explica a coordenação da divisão de Defesa Vegetal da Iagro, a atratividade desses produtos reside exclusivamente no diferencial tributário e de custos: um galão de defensivo contrabandeado chega a custar até 65% menos do que o produto equivalente devidamente homologado pelas autoridades brasileiras. No entanto, o custo para o produtor que adquire o material falsificado é desastroso: além das penalidades criminais, a aplicação de substâncias adulteradas queima as lavouras, inviabiliza certificações internacionais de exportação da soja de MS e destrói microrganismos benéficos do solo.


O plano de descarte: fornos de alta temperatura e conta cobrada dos infratores

A superlotação dos depósitos de custódia forçou o Executivo estadual a acelerar o modelo de destinação final. Agrotóxicos vencidos ou adulterados não podem ser descartados em aterros sanitários nem estocados indefinidamente, sob pena de vazamentos de gases e lixiviação de substâncias cancerígenas.

O plano delineado pela força-tarefa estabelece três etapas rigorosas:

  1. Triagem Toxicológica e Pesagem Cadastral: Cada lote retido passa por coleta de amostras e laudo fotográfico para instrução das ações penais na Justiça Federal e na Justiça Estadual;
  2. Logística Reversa em Contêineres Selados: Veículos equipados para o transporte de cargas perigosas (Classe 9) realizam a remoção dos galpões fronteiriços sob escolta policial;
  3. Copiroprocessamento e Incineração em Fornos de Cimento: Os químicos são encaminhados a unidades industriais autorizadas que operam fornos a temperaturas superiores a 1.200 °C, garantindo a degradação molecular completa dos compostos tóxicos sem emissão de dioxinas na atmosfera.

Em consonância com a legislação ambiental e as normas do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), todo o custo do frete especializado e da incineração — estimado em cerca de R$ 14,00 a R$ 22,00 por quilo destruído — é lançado como dívida ativa tributária contra as empresas transportadoras e os indivíduos flagrados em posse dos defensivos.


Capacitação integrada e cerco com tecnologia de rastreio

Para fechar o cerco às organizações criminosas que financiam a distribuição clandestina de insumos, as corporações de segurança concluíram uma rodada intensiva de treinamento conjunto no Seminário de Fiscalização Integrada de Insumos Agropecuários, reunindo agentes da PRF, fiscais federais do MAPA, auditores da Receita Federal e equipes táticas do DOF.

A estratégia operacional incorpora o cruzamento em tempo real de notas fiscais eletrônicas de trânsito agropecuário (Guia de Trânsito Vegetal - GTV) com leitores ópticos de placas (OCR) instalados em pontos estratégicos das rodovias de MS (a exemplo do monitoramento tecnológico já aplicado na repressão a quadrilhas de veículos na fronteira). Cargas de grãos a granel e caminhões frigoríficos agora passam por scanners móveis de alta penetração para impedir que tonéis de agrotóxicos sejam escondidos sob cargas lícitas.

Com a colheita de inverno encerrada e o plantio da safra de verão em ritmo acelerado em todo o Mato Grosso do Sul, a ordem expedida pelo comando de policiamento e pela diretoria da Iagro é de tolerância zero: qualquer veículo flagrado com substâncias químicas sem nota fiscal e sem receituário agronômico oficial será imediatamente retido e seus condutores encaminhados às delegacias por contrabando e crime contra a saúde pública.

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Equipe de jornalistas do Bastidor Público MS dedicada à cobertura política e institucional de Mato Grosso do Sul.