⚖️ Poder PúblicoFato Verificado

Desdobramentos da Operação Colete de Troia: MPMS formaliza denúncia por rota de drones e propinas na PED, e Sejusp ativa muralha antidrone em Dourados

Ministério Público Estadual detalha esquema de voos clandestinos, repasses financeiros a agentes e acerto com facções na Penitenciária Estadual de Dourados; Governo de MS inicia montagem de escudo eletrônico contra aeronaves não tripuladas.

RB
Por Redação Bastidor Público
Publicado em 27 de outubro de 2026 às 00:00
7 min de leitura
WFXT
Agentes do GAECO e da Polícia Penal de MS durante perícia e apreensão de drones de carga, cocaína e celulares interceptados na Penitenciária Estadual de Dourados (PED) — Imagem criada por inteligência artificial.
Agentes do GAECO e da Polícia Penal de MS durante perícia e apreensão de drones de carga, cocaína e celulares interceptados na Penitenciária Estadual de Dourados (PED) — Imagem criada por inteligência artificial.

Os desdobramentos da Operação Colete de Troia atingiram nesta terça-feira, 27 de outubro de 2026, o ponto nevrálgico do enfrentamento ao crime organizado no sistema carcerário de Mato Grosso do Sul. O Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (GAECO), vinculado ao Ministério Público do Estado (MPMS), finalizou e encaminhou à 1ª Vara Criminal da Comarca de Dourados a denúncia formal contra o núcleo financeiro, operacional e logístico acusado de transformar a Penitenciária Estadual de Dourados (PED) em um entreposto abastecido por uma verdadeira "ponte aérea" de aeronaves não tripuladas.

A ofensiva investigativa, que teve sua fase ostensiva deflagrada nos últimos dias com mandados cumpridos em Dourados, Ivinhema, Rio Brilhante e Paranavaí (PR), conforme detalhado na cobertura inicial da Operação Colete de Troia com foco na infiltração de servidores, agora expõe a engrenagem documental dos pagamentos de propina, a identificação dos pilotos clandestinos e os valores cobrados pelo transporte aéreo de materiais ilícitos para dentro das celas.

Paralelamente à denúncia do Ministério Público, a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp-MS) e a Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário (Agepen-MS) deflagraram nesta manhã uma varredura tática perimetral e ativaram os primeiros módulos operacionais de um escudo eletrônico antidrone orçado em R$ 4,2 milhões, visando neutralizar em definitivo as incursões aéreas sobre o maior complexo prisional de segurança máxima do estado.


O valor da rota aérea: até R$ 25 mil por cada lançamento sobre os pavilhões

O relatório do GAECO desvenda a economia paralela que financiava os sobrevoos na PED. Com a intensificação do controle eletrônico de visitantes, escâneres corporais e revistas minuciosas nas portarias, as facções criminosas migraram a prioridade logística para drones comerciais de alta capacidade de carga (modelos industriais adaptados para içar entre 3 kg e 8 kg de peso líquido).

Os dados colhidos em quebras de sigilo bancário e telemático revelam que cada voo bem-sucedido chegava a custar entre R$ 15 mil e R$ 25 mil aos presos receptores, a depender do volume e da natureza do carregamento:

  1. Pacote de Comunicação: Entre quatro e seis smartphones de última geração, baterias portáteis, chips pré-pagos cadastrados em nomes de laranjas e cabos de carregamento rápido. O valor de revenda de um smartphone dentro das galerias da PED chega a ultrapassar R$ 10 mil;
  2. Pacote de Entorpecentes: Pasta base de cocaína prensada em tiras finas, fardos de maconha tipo dry ou skunk e porções de haxixe fracionadas para comércio interno rápido;
  3. Pacote Tático: Em situações excepcionais de fuga ou rebelião monitorada, armas curtas de fogo (pistolas 9mm desmontadas) e lâminas cortantes, cujo valor de frete alcançava picos de até R$ 40 mil por operação de alto risco.

As investigações comprovaram que servidores públicos da área de vigilância penitenciária recebiam pagamentos via transferências fracionadas e depósitos em contas de terceiros para desviar o foco de câmeras de monitoramento, desligar refletores em setores específicos da muralha ou retardar a comunicação de avistamento às guaritas da Polícia Militar durante as janelas de arremesso, geralmente compreendidas entre as 02h30 e as 04h30 da madrugada.


A mecânica dos voos clandestinos e a captura das aeronaves na BR-163

O levantamento de campo realizado em conjunto com o Batalhão de Choque da Polícia Militar (BPMChoque) e o Comando de Operações Penitenciárias (COPE) mapeou os pontos de decolagem utilizados pelas quadrilhas. Os operadores dos drones posicionavam-se em áreas de mata fechada, plantações de milho e estradas vicinais rurais situadas a um raio de 1,5 km a 3 km da muralha da PED, nas imediações do anel rodoviário da BR-163.

As aeronaves eram operadas com iluminação externa desativada (fita isolante nos LEDs de sinalização) e equipadas com sistemas mecânicos ou servomotores acionados remotamente para a soltura dos fardos. Ao sobrevoar as telas de proteção instaladas sobre os pátios solares dos Pavilhões A e B, o piloto liberava a trava. A carga caía de modo calculado sobre as telas ou nos vãos das galerias, onde detentos de confiança da liderança já aguardavam para recolher os fardos com cabos improvisados.

Nas últimas semanas de monitoramento contínuo, a força-tarefa logrou apreender seis drones de porte pesado, dezenas de controles remotos com amplificadores de sinal de longo alcance, mais de 120 aparelhos celulares lacrados e aproximadamente 58 quilos de entorpecentes que caíram nas faixas de isolamento antes de serem alcançados pelos internos.

Essa rota subterrânea e aérea se conectava diretamente aos galpões de distribuição e entrepostos de grãos recentemente identificados pelas forças policiais na região de Dourados, como visto na operação em que DOF e Defron desmantelaram entreposto de drogas e armas em galpão de fronteira, demonstrando a capilaridade da logística do tráfico no cone sul de MS.


O escudo antidrone da Sejusp: tecnologia de interferência eletromagnética

Diante da constatação de que a vigilância humana tradicional tornou-se insuficiente para conter incursões aéreas velozes de três minutos, o Governo do Estado de Mato Grosso do Sul iniciou a implantação de uma muralha tecnológica de contramedidas antidrone na Penitenciária Estadual de Dourados.

O sistema contratado pela Sejusp-MS opera em três camadas coordenadas:

  • Detecção Passiva de Radiofrequência (RF): Sensores perimetrais captam em milissegundos os sinais de comando e telemetria trocados entre o drone e o controle remoto do operador, mesmo que a aeronave esteja a vários quilômetros de distância, identificando inclusive o modelo do aparelho e as coordenadas aproximadas do piloto no solo;
  • Monitoramento Óptico e Térmico: Câmeras com rotação contínua de 360 graus e visão térmica localizam a assinatura de calor dos motores elétricos na escuridão, apontando o vetor exato de aproximação sobre a muralha;
  • Bloqueio Eletromagnético Direcional (Jammer): Dispositivos emissores de micro-ondas de alta densidade saturam as frequências de controle (2.4 GHz, 5.8 GHz) e os canais de navegação por satélite (GPS, GLONASS e Galileo). Sem sinal de orientação, o drone entra em modo de falha de segurança obrigatória, caindo suavemente no local de interferência ou ativando o retorno automático ao ponto de decolagem, permitindo às viaturas da PM e da Agepen localizar o piloto na estrada vicinal.

Equipes operacionais do COPE e da Polícia Penal participaram nesta manhã de treinamentos práticos de operação com as armas portáteis de bloqueio direcional (jammer guns), integradas ao plano de segurança externa do perímetro.


Articulação com repressão a crimes patrimoniais e veículos de apoio

A investigação do GAECO também descortinou a ligação direta entre os financiadores dos voos de drones e quadrilhas especializadas no furto e receptação de caminhonetes de luxo na região de Dourados. Muitas das caminhonetes e utilitários utilizados para transportar os equipamentos pesados de drone, geradores portáteis e baterias industriais até as lavouras eram veículos adulterados com placas clonadas.

Esse elo operacional reforça os resultados recentes obtidos em ações integradas na mesma região, como quando a Polícia Civil e a PRF desmantelaram quadrilha de furto de Hilux em Dourados voltada à troca por drogas e armamento no Paraguai, fechando o cerco tanto sobre o tráfego rodoviário quanto sobre as tentativas de reabastecimento do crime organizado intramuros.

Segundo o comando da Sejusp-MS, a fiscalização também conta com o suporte das barreiras móveis e do monitoramento das rodovias estaduais e federais de escoamento, que recentemente passaram por saturação com bafômetros e radares para coibir o deslocamento de olheiros e batedores do crime, conforme executado no cerco preventivo da PRF e PMRv na BR-262 e BR-163.


O que muda no regime disciplinar e na Corregedoria da Agepen

Com a entrega da denúncia do MPMS, a Corregedoria-Geral da Agepen instaurou Procedimentos Administrativos Disciplinares (PADs) com afastamento cautelar imediato da função pública e suspensão de porte de arma de todos os servidores citados no inquérito. A depender da conclusão processual, as sanções preveem a demissão a bem do serviço público e a responsabilização civil por improbidade administrativa.

No âmbito penitenciário, os presos identificados como mandantes dos voos e receptadores das encomendas foram transferidos para celas disciplinares de isolamento preventivo e responderão a sanções que implicam perda de dias remidos de pena, isolamento temporário e inclusão no cadastro de lideranças com restrição de banho de sol e visitas presenciais.

A Sejusp informou que o modelo de proteção eletrônica implementado na PED servirá de projeto-piloto para as demais unidades prisionais de regime fechado em Campo Grande (Penitenciária Jair Ferreira de Carvalho - Segurança Máxima), Três Lagoas e Ponta Porã, consolidando a modernização do sistema de contenção e blindando as muralhas estaduais contra a sofisticação tecnológica das facções de fronteira.

💬 Fale com os jornalistas do Bastidor Público

Tem alguma denúncia, flagrante, reclamação ou sugestão de pauta para o Bastidor Público? O sigilo de sua identidade é garantido constitucionalmente.

🗣️ Envie no WhatsApp (67) 99301-2686
Operação Colete de TroiaGAECO MSMPMSPenitenciária Estadual de DouradosPED DouradosAgepen MSPolícia Penal MSDrones PresídioApreensão Drogas MSSegurança Pública MS
Compartilhar:WFXT
RB
Redação Bastidor Público

Equipe Editorial

Equipe de jornalistas do Bastidor Público MS dedicada à cobertura política e institucional de Mato Grosso do Sul.