O Que Aconteceu
Os governadores Eduardo Riedel (PP), de Mato Grosso do Sul, e Tarcísio de Freitas (Republicanos), de São Paulo, dividiram o palco principal do Cana Summit 2026 na terça-feira (15 de abril), em Ribeirão Preto (SP). O evento celebrou os 50 anos da Orplana (Organização das Associações de Produtores de Cana) e reuniu 1.200 produtores, especialistas e lideranças do setor sucroenergético.
Ambos os governadores foram homenageados pela entidade. Tarcísio aproveitou o microfone para fazer um elogio público a Riedel que ultrapassou a cortesia protocolar.
"Riedel se tornou para mim uma referência de gestor. Sou seu fã."
A declaração, feita diante de mais de mil representantes do agronegócio, tem leitura que vai além do setor sucroenergético. Tarcísio é pré-candidato à Presidência da República. Riedel busca a reeleição em MS. A aproximação entre os dois em um evento do agronegócio — base eleitoral de ambos — sinaliza uma aliança que pode se materializar nas urnas em outubro de 2026.
Riedel usou o palco para posicionar Mato Grosso do Sul como protagonista do setor.
"Aqui é o berço de todo o projeto de açúcar, etanol de segunda geração e biometano."
A frase, dirigida à plateia paulista, carrega uma reivindicação: MS não é coadjuvante na cadeia sucroenergética. É o quarto maior produtor de cana-de-açúcar e etanol do país, o segundo maior de etanol de milho, e projeta 5 bilhões de litros de etanol na safra 2025/2026.
Contexto e Histórico
O setor sucroenergético de Mato Grosso do Sul passou por transformação acelerada na última década. O estado, que nos anos 2000 era um produtor modesto de cana-de-açúcar, saltou para a quarta posição nacional graças à expansão de usinas no sul e no centro-sul do território. Municípios como Nova Alvorada do Sul, Maracaju, Rio Brilhante e Angélica se tornaram polos sucroenergéticos com dezenas de milhares de hectares plantados.
A diversificação para o etanol de milho acrescentou uma segunda frente de produção. Usinas flex — capazes de processar tanto cana quanto milho — foram instaladas em regiões onde a entressafra da cana coincidia com a colheita do milho safrinha, permitindo operação durante o ano inteiro. O resultado colocou MS na posição de segundo maior produtor de etanol de milho do Brasil, atrás apenas de Mato Grosso.
Os números da safra 2025/2026 confirmam a escala: 52 milhões de toneladas de cana moída, 5 bilhões de litros de etanol e 2,1 milhões de toneladas de açúcar. Os dados foram apresentados na 4ª Expocanas, realizada em Nova Alvorada do Sul, e refletem investimentos acumulados ao longo de mais de uma década em infraestrutura industrial, logística e pesquisa agronômica.
A participação de 13,5% na produção brasileira de etanol de cana posiciona MS como fornecedor estratégico em um momento de transição energética global. O etanol brasileiro — tanto de cana quanto de milho — é reconhecido internacionalmente como biocombustível de baixa emissão de carbono, e a demanda tende a crescer com as metas climáticas assumidas por países importadores.
A Orplana, que completou 50 anos no Cana Summit, representa produtores de cana de todo o Brasil. A entidade tem peso político no agronegócio e funciona como interlocutora entre o setor produtivo e os governos estaduais e federal. A homenagem a Riedel e Tarcísio não é casual: os dois governadores administram os estados que, somados, respondem por mais da metade da produção nacional de cana-de-açúcar.
Impacto Para a População
O setor sucroenergético é o segundo maior empregador do agronegócio em Mato Grosso do Sul, atrás apenas da pecuária. As usinas de cana e etanol geram empregos diretos e indiretos em municípios do interior que dependem da atividade como principal motor econômico. A safra 2025/2026, com 52 milhões de toneladas de cana moída, mobiliza milhares de trabalhadores em plantio, colheita, transporte e processamento industrial.
Para o consumidor sul-mato-grossense, a produção local de etanol tem efeito direto no preço do combustível. MS é um dos estados com menor diferença de preço entre etanol e gasolina, o que torna o biocombustível competitivo na bomba. A proximidade entre usinas e postos de abastecimento reduz o custo logístico e mantém o etanol como opção economicamente viável para o motorista.
| Indicador | Valor | Posição nacional |
|---|---|---|
| Produção de etanol de cana | 13,5% do total brasileiro | 4º maior produtor |
| Etanol de milho | Em expansão acelerada | 2º maior produtor |
| Projeção etanol safra 2025/2026 | 5 bilhões de litros | — |
| Projeção açúcar safra 2025/2026 | 2,1 milhões de toneladas | — |
| Cana moída na safra | 52 milhões de toneladas | — |
| Empregos diretos no setor | Milhares em dezenas de municípios | — |
A dimensão política da presença de Riedel no Cana Summit também afeta o cidadão de MS, ainda que de forma indireta. A aliança com Tarcísio de Freitas — governador do estado mais rico do país e pré-candidato à Presidência — pode se traduzir em acesso a investimentos federais, parcerias em infraestrutura logística e prioridade em programas de incentivo ao biocombustível. Se Tarcísio vencer a eleição presidencial, Riedel terá um aliado no Planalto. Se perder, a aproximação terá sido, no mínimo, uma demonstração de articulação política que fortalece a imagem do governador de MS junto ao agronegócio.
O etanol de segunda geração e o biometano, mencionados por Riedel no discurso, representam a próxima fronteira do setor. Usinas de MS já investem em tecnologias de aproveitamento do bagaço da cana para produção de etanol celulósico e de biogás a partir de resíduos agroindustriais. Se esses projetos avançarem, o estado pode se tornar referência em bioenergia avançada — com impacto em geração de empregos qualificados, atração de investimentos e diversificação da matriz energética.
O Que Dizem os Envolvidos
Tarcísio de Freitas foi direto ao elogiar o colega de palanque.
"Riedel se tornou para mim uma referência de gestor. Sou seu fã."
A frase, pronunciada diante de 1.200 representantes do agronegócio, não é protocolar. Tarcísio escolheu palavras que posicionam Riedel como par — não como subordinado ou aliado menor. O elogio tem destinatário duplo: a plateia do Cana Summit, que vê nos dois governadores defensores do setor produtivo, e o eleitorado nacional, que acompanha a movimentação pré-eleitoral de 2026.
Eduardo Riedel respondeu posicionando Mato Grosso do Sul como protagonista.
"Aqui é o berço de todo o projeto de açúcar, etanol de segunda geração e biometano."
A referência a Ribeirão Preto como "berço" do setor sucroenergético é um aceno à história da região, que concentra as maiores usinas do país. Ao mesmo tempo, Riedel reivindicou para MS o papel de fronteira tecnológica — etanol de segunda geração e biometano são produtos de maior valor agregado que o etanol convencional.
A Orplana, anfitriã do evento, homenageou ambos os governadores em cerimônia que marcou os 50 anos da entidade. A escolha dos homenageados reflete o peso político e econômico de São Paulo e Mato Grosso do Sul no setor: juntos, os dois estados respondem por parcela majoritária da produção nacional de cana, etanol e açúcar.
Nenhum dos dois governadores fez declarações explícitas sobre a corrida eleitoral de 2026 durante o evento. A leitura política, porém, é inevitável. Tarcísio e Riedel compartilham base eleitoral no agronegócio, posicionamento de centro-direita e discurso de gestão técnica. A aliança entre os dois, se formalizada, pode redesenhar o mapa de apoios nas eleições presidenciais e estaduais.
Próximos Passos
O Cana Summit 2026 encerra a temporada de eventos do setor sucroenergético no primeiro semestre. Os próximos meses serão de definição política: Tarcísio deve oficializar a pré-candidatura à Presidência até julho, e Riedel formalizará a candidatura à reeleição na convenção do PP, prevista para o mesmo período.
A aproximação entre os dois governadores tende a se intensificar em eventos do agronegócio ao longo do segundo semestre. Feiras como a Showtec (Maracaju), a Expocanas (Nova Alvorada do Sul) e a Expoagro (Dourados) são palcos naturais para a demonstração pública da aliança.
No setor sucroenergético, a safra 2025/2026 entra na fase de moagem intensiva entre maio e novembro. Os números finais de produção — etanol, açúcar e cana moída — serão consolidados no início de 2027 e servirão como termômetro da saúde econômica do setor em MS.
Para Riedel, o desafio é converter a projeção de 5 bilhões de litros de etanol em argumento de campanha. O governador precisa demonstrar que o crescimento do setor sucroenergético se traduz em empregos, renda e desenvolvimento para os municípios do interior — não apenas em lucro para usineiros. A narrativa de "gestor que entrega resultados", reforçada pelo elogio de Tarcísio, será testada nas pesquisas eleitorais dos próximos meses.
A aliança com Tarcísio tem um componente de risco. Se o governador de São Paulo enfrentar desgaste na corrida presidencial — por escândalos, erros de campanha ou rejeição do eleitorado —, a associação pode se tornar um passivo para Riedel em MS. Por ora, a aposta é de que a parceria soma mais do que subtrai.
Fechamento
O palco do Cana Summit em Ribeirão Preto serviu a dois propósitos simultâneos. Para o setor sucroenergético, foi a celebração de 50 anos da Orplana e a demonstração de força de uma cadeia produtiva que movimenta bilhões de reais. Para a política, foi a vitrine de uma aliança entre dois governadores que miram 2026 com ambições complementares: Tarcísio quer o Planalto, Riedel quer a reeleição.
Mato Grosso do Sul sai do evento com números robustos — 5 bilhões de litros de etanol, 52 milhões de toneladas de cana, segundo lugar no etanol de milho — e com uma aliança política que pode render dividendos eleitorais. O que falta saber é se a parceria Riedel-Tarcísio sobreviverá às turbulências da campanha e se o crescimento do setor sucroenergético chegará, de fato, ao bolso do trabalhador que corta cana no interior do estado.
Fontes e Referências
- Campo Grande News (campograndenews.com.br)
