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Funai conclui georreferenciamento para demarcação de terra indígena Ofaié em Brasilândia

Etapa técnica antecede demarcação formal de área do povo Ofaié, uma das menores etnias do Brasil. Processo reacende debate entre demarcação de terras indígenas e agronegócio em MS.

Redação Bastidor Público13 de abril de 202610 min de leituraBrasilândia1664 palavras
Funai conclui georreferenciamento para demarcação de terra indígena Ofaié em Brasilândia

A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) concluiu o georreferenciamento da área reivindicada pelo povo Ofaié no município de Brasilândia, no leste de Mato Grosso do Sul. A etapa técnica, que consiste no levantamento topográfico e cartográfico dos limites da terra indígena, antecede a demarcação formal e reacende um dos debates mais sensíveis do estado: o conflito entre a demarcação de terras indígenas e os interesses do agronegócio.

O Que Aconteceu

A Funai informou que equipes técnicas concluíram o trabalho de georreferenciamento da área indígena Ofaié em Brasilândia. O levantamento utilizou equipamentos de GPS de alta precisão e imagens de satélite para definir as coordenadas geográficas exatas do perímetro da terra reivindicada pelo povo Ofaié.

O georreferenciamento é uma das etapas do processo administrativo de demarcação de terras indígenas previsto no Decreto nº 1.775/1996. A conclusão dessa fase significa que os limites físicos da área foram mapeados e registrados tecnicamente, permitindo que o grupo de trabalho da Funai avance para a elaboração do relatório circunstanciado de identificação e delimitação.

Os Ofaié são uma das menores etnias do Brasil em termos populacionais. Estimativas recentes indicam que a comunidade conta com menos de 100 indivíduos, o que coloca o povo em situação de vulnerabilidade demográfica e cultural. A língua Ofaié, pertencente ao tronco linguístico Macro-Jê, é classificada pela UNESCO como criticamente ameaçada de extinção.

Brasilândia, município onde se localiza a área georreferenciada, fica na região leste de MS e tem economia baseada na pecuária e na silvicultura de eucalipto para a indústria de celulose. A cidade está na área de influência do polo industrial de Três Lagoas, que abriga as maiores fábricas de celulose do país.

Contexto e Histórico

A história dos Ofaié é marcada por sucessivas perdas territoriais ao longo do século XX. O povo, que originalmente ocupava uma vasta área nas margens dos rios Paraná e Verde, foi progressivamente expulso de suas terras tradicionais pela expansão da fronteira agropecuária e pela construção de grandes obras de infraestrutura.

Na década de 1960, a formação do reservatório da Usina Hidrelétrica de Jupiá inundou parte do território tradicional Ofaié. Nas décadas seguintes, a expansão da pecuária e, mais recentemente, da silvicultura de eucalipto reduziu ainda mais o espaço disponível para a comunidade. Os Ofaié foram deslocados múltiplas vezes, vivendo em condições precárias em áreas cedidas temporariamente ou em assentamentos improvisados.

A reivindicação territorial dos Ofaié ganhou visibilidade nos anos 2000, quando antropólogos e organizações indigenistas documentaram a situação do povo e pressionaram a Funai a iniciar o processo de identificação e delimitação da terra indígena. O processo, no entanto, avançou lentamente, enfrentando resistência política e jurídica em um estado onde o agronegócio é a principal atividade econômica.

Mato Grosso do Sul é o segundo estado brasileiro com maior população indígena, atrás apenas do Amazonas. O estado abriga povos como os Guarani-Kaiowá, Terena, Kadiwéu, Guató e Ofaié, distribuídos em dezenas de terras indígenas em diferentes estágios de demarcação. A relação entre comunidades indígenas e produtores rurais é historicamente conflituosa, com episódios de violência, disputas judiciais e tensões políticas que se intensificam a cada avanço nos processos de demarcação.

A bancada ruralista no Congresso Nacional — que conta com representantes expressivos de MS, incluindo a senadora Tereza Cristina (PP) — historicamente se opõe a novas demarcações, argumentando que elas reduzem a área produtiva e geram insegurança jurídica para proprietários rurais. O governo do estado, sob a gestão de Eduardo Riedel (PP), tem adotado posição cautelosa sobre o tema, buscando equilibrar o diálogo com comunidades indígenas e a defesa dos interesses do setor produtivo.

O marco temporal — tese jurídica segundo a qual os indígenas só teriam direito a terras que ocupavam na data da promulgação da Constituição de 1988 (5 de outubro de 1988) — foi rejeitado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em setembro de 2023. A decisão do STF fortaleceu juridicamente os processos de demarcação de terras cujos povos foram expulsos antes de 1988, como é o caso dos Ofaié.

Impacto Para a População

A demarcação de terras indígenas gera efeitos que se estendem para além das comunidades diretamente envolvidas. Em Brasilândia e na região leste de MS, o processo Ofaié mobiliza diferentes setores da sociedade.

Grupo Efeito potencial Perspectiva
Povo Ofaié Garantia de território para sobrevivência física e cultural Direito constitucional à terra tradicional
Produtores rurais Possível perda de áreas produtivas na região demarcada Preocupação com segurança jurídica e indenização
Município de Brasilândia Redução da base tributária (terras indígenas não pagam ITR) Impacto na arrecadação e na economia local
Indústria de celulose Possível restrição a áreas de plantio de eucalipto Avaliação de impacto nas operações regionais
Trabalhadores rurais Incerteza sobre empregos em propriedades afetadas Dependência da definição dos limites da área
Sociedade civil Debate sobre direitos indígenas e modelo de desenvolvimento Polarização entre preservação e produção

Para o povo Ofaié, a demarcação representa a possibilidade de garantir um território onde a comunidade possa viver de acordo com seus costumes, praticar sua agricultura tradicional, preservar sua língua e transmitir sua cultura às novas gerações. Com menos de 100 indivíduos, os Ofaié enfrentam o risco real de extinção cultural — a perda da língua e dos conhecimentos tradicionais é um processo que se acelera quando a comunidade não dispõe de um território próprio.

Para os produtores rurais da região de Brasilândia, o avanço do processo de demarcação gera apreensão. Propriedades que eventualmente estejam dentro dos limites da área georreferenciada podem ser objeto de desapropriação, com direito a indenização pelas benfeitorias realizadas. A Constituição Federal prevê que a União indenize as benfeitorias de boa-fé em terras demarcadas, mas o processo de pagamento é frequentemente demorado e contestado judicialmente.

O município de Brasilândia também sente os efeitos. Terras indígenas demarcadas são patrimônio da União e não estão sujeitas à cobrança de Imposto Territorial Rural (ITR), o que pode reduzir a arrecadação municipal. Em um município cuja economia depende da agropecuária e da silvicultura, a redução da área produtiva tributável tem impacto direto no orçamento público.

O Que Dizem os Envolvidos

A Funai, em comunicado sobre a conclusão do georreferenciamento, reafirmou que o processo de demarcação segue o rito administrativo previsto em lei e que todas as etapas são conduzidas com rigor técnico e respeito aos direitos de todas as partes envolvidas.

"O georreferenciamento é uma etapa técnica que permite a definição precisa dos limites da terra indígena. O processo segue o Decreto nº 1.775/1996 e garante o direito de contestação a estados, municípios e terceiros interessados", informou a Funai.

Lideranças do povo Ofaié manifestaram expectativa com o avanço do processo. Para a comunidade, a demarcação é uma reivindicação que se arrasta há décadas e que representa a última chance de garantir a sobrevivência do povo como grupo étnico distinto.

Representantes do setor agropecuário de Brasilândia e da região expressaram preocupação com os desdobramentos do processo. A Federação da Agricultura e Pecuária de MS (Famasul) tem acompanhado os processos de demarcação no estado e defende que os direitos dos produtores rurais sejam respeitados, incluindo a indenização justa e prévia por eventuais desapropriações.

O governo de Mato Grosso do Sul, por meio da Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), informou que acompanha o processo e que buscará o diálogo entre as partes para minimizar conflitos. O governador Eduardo Riedel tem evitado posicionamentos públicos enfáticos sobre demarcações específicas, adotando uma postura de mediação que reflete a complexidade política do tema em um estado onde o agronegócio e as comunidades indígenas coexistem em tensão permanente.

Próximos Passos

Com a conclusão do georreferenciamento, o grupo técnico da Funai deverá elaborar o relatório circunstanciado de identificação e delimitação da terra indígena Ofaié. O documento reúne os estudos antropológicos, o levantamento fundiário, o georreferenciamento e a análise ambiental da área.

O relatório será submetido à aprovação da presidência da Funai e, em seguida, publicado no Diário Oficial da União. A publicação abre prazo de 90 dias para que estados, municípios e terceiros interessados apresentem contestações ao processo de demarcação.

Superada a fase de contestações, o processo segue para o Ministério da Justiça, que emite a portaria declaratória reconhecendo os limites da terra indígena. Após a portaria, é realizada a demarcação física — com a colocação de marcos e placas nos limites da área — e, por fim, a homologação presidencial por decreto.

O prazo total do processo, da publicação do relatório até a homologação, pode levar anos, dependendo da existência de contestações judiciais e da vontade política dos governos federal e estadual. Processos de demarcação em MS têm histórico de judicialização intensa, com ações movidas por produtores rurais, municípios e pelo próprio estado.

A situação dos Ofaié, no entanto, tem um componente de urgência que outros processos não apresentam: com menos de 100 indivíduos, o povo enfrenta risco concreto de extinção demográfica e cultural. Cada ano de atraso no processo de demarcação é um ano a mais de vulnerabilidade para uma comunidade que já perdeu a maior parte de seu território e de sua população ao longo do último século.

Fechamento

A conclusão do georreferenciamento da terra indígena Ofaié em Brasilândia coloca Mato Grosso do Sul novamente no centro de um debate que atravessa gerações: como conciliar o direito constitucional dos povos indígenas à terra com o modelo de desenvolvimento econômico baseado no agronegócio. O caso Ofaié tem particularidades que o tornam emblemático — trata-se de uma das menores etnias do país, em risco de desaparecimento, em uma região dominada pela silvicultura de eucalipto.

O processo de demarcação seguirá seu rito administrativo e, provavelmente, enfrentará contestações. O que está em jogo, para os Ofaié, não é apenas um pedaço de terra — é a possibilidade de existir como povo. Para Mato Grosso do Sul, é mais um teste da capacidade do estado de encontrar caminhos que respeitem direitos e reduzam conflitos em um território onde diferentes visões de mundo disputam o mesmo espaço.


Fontes e Referências

  • Campo Grande News (campograndenews.com.br)
  • Funai — Fundação Nacional dos Povos Indígenas (funai.gov.br)
  • Decreto nº 1.775/1996 — Processo de demarcação de terras indígenas
  • UNESCO — Atlas de Línguas Ameaçadas
  • STF — Julgamento do marco temporal (setembro/2023)
  • Famasul — Federação da Agricultura e Pecuária de MS
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Publicado em 13 de abril de 2026 às 00:00
Fonte: Campo Grande News (campograndenews.com.br)
RB
Redação Bastidor Público

Equipe Editorial

Equipe de jornalistas do Bastidor Público MS dedicada à cobertura política e institucional de Mato Grosso do Sul.

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