O governo de Mato Grosso do Sul abriu processo licitatório para a construção de uma policlínica em Três Lagoas, com valor estimado de R$ 23 milhões. O recurso é proveniente do PAC Saúde (Programa de Aceleração do Crescimento), programa do governo federal voltado à ampliação da infraestrutura de saúde pública no país. A unidade será de média complexidade e atenderá a população do terceiro maior município do estado, que conta com aproximadamente 130 mil habitantes.
O Que Aconteceu
A abertura da licitação foi publicada pelo governo estadual na segunda semana de abril de 2026. O processo busca contratar empresa para a construção da policlínica, que será erguida em Três Lagoas com recursos federais do PAC Saúde repassados ao estado de Mato Grosso do Sul.
A policlínica oferecerá atendimento especializado que hoje não está disponível na rede pública do município. A unidade concentrará consultas médicas em diversas especialidades, exames de imagem e laboratoriais, e procedimentos ambulatoriais de média complexidade — serviços que atualmente obrigam os moradores de Três Lagoas a se deslocarem até Campo Grande, a mais de 330 quilômetros de distância.
O investimento de R$ 23 milhões coloca a policlínica entre as maiores obras de saúde em execução no interior de MS. A unidade funcionará como um elo entre a atenção básica — composta por postos de saúde e unidades de saúde da família — e o Hospital Regional de Três Lagoas, que concentra os atendimentos de alta complexidade na região.
A licitação segue as normas da Lei de Licitações e Contratos (Lei nº 14.133/2021) e prevê critério de julgamento por menor preço global. As empresas interessadas terão prazo para apresentar propostas conforme o edital publicado no Diário Oficial do Estado.
Contexto e Histórico
Três Lagoas consolidou-se nas últimas duas décadas como um dos polos industriais mais dinâmicos de Mato Grosso do Sul. A instalação de fábricas de celulose — com destaque para as operações da Suzano e da Eldorado Brasil — transformou a economia do município, que passou de uma base agropecuária para um perfil industrial diversificado que inclui também fertilizantes, siderurgia e energia.
O crescimento econômico atraiu trabalhadores de outras regiões e acelerou o aumento populacional. Três Lagoas saltou de cerca de 85 mil habitantes em 2010 para os atuais 130 mil, um crescimento de mais de 50% em 16 anos. Esse ritmo de expansão pressionou a infraestrutura pública, especialmente nas áreas de saúde, educação e saneamento.
A rede de saúde de Três Lagoas é composta pelo Hospital Regional — referência para atendimentos de urgência e alta complexidade —, unidades básicas de saúde distribuídas pelos bairros e o Hospital Auxiliadora, de gestão filantrópica. A ausência de uma unidade de média complexidade cria um gargalo: pacientes que precisam de consultas especializadas ou exames mais sofisticados enfrentam filas longas ou são encaminhados para Campo Grande.
O deslocamento de pacientes para a capital gera custos diretos para as famílias — transporte, hospedagem, alimentação — e custos indiretos para o sistema de saúde, que precisa financiar o Tratamento Fora de Domicílio (TFD). Dados da Secretaria de Estado de Saúde indicam que Três Lagoas é um dos municípios que mais encaminha pacientes para Campo Grande via TFD, o que evidencia a carência de serviços especializados na região.
O PAC Saúde, relançado pelo governo federal em 2023, destinou recursos para a construção de policlínicas em cidades de médio porte em todo o Brasil. A estratégia busca descentralizar o atendimento especializado, que historicamente se concentra nas capitais. Em Mato Grosso do Sul, Três Lagoas foi selecionada como uma das cidades prioritárias para receber a unidade, considerando seu porte populacional e sua condição de polo regional.
Impacto Para a População
A construção da policlínica terá efeitos diretos sobre a vida dos moradores de Três Lagoas e das cidades vizinhas que dependem do município como referência em saúde. O investimento de R$ 23 milhões representa uma mudança estrutural na oferta de serviços de saúde na região leste de MS.
| Indicador | Situação atual | Com a policlínica |
|---|---|---|
| Consultas especializadas | Fila de espera longa ou encaminhamento para CG | Atendimento local em múltiplas especialidades |
| Exames de imagem | Disponibilidade limitada; casos complexos vão para CG | Tomografia, ultrassonografia e raio-X no município |
| Deslocamento de pacientes | 330 km até Campo Grande (ida e volta: 660 km) | Atendimento na própria cidade |
| Custo para o paciente | Transporte + hospedagem + alimentação em CG | Eliminação de gastos com deslocamento |
| Tempo de espera | Semanas a meses para consulta especializada | Redução com ampliação da oferta local |
| Sobrecarga do Hospital Regional | Absorve demandas de média complexidade | Policlínica absorve casos ambulatoriais |
Para uma família de Três Lagoas que precisa levar um parente para uma consulta com cardiologista em Campo Grande, o custo médio de deslocamento inclui combustível ou passagem de ônibus (ida e volta: cerca de R$ 200 a R$ 350), alimentação e, em muitos casos, hospedagem — totalizando entre R$ 400 e R$ 700 por viagem. Pacientes com doenças crônicas que necessitam de acompanhamento mensal enfrentam esse gasto repetidamente.
A policlínica também beneficiará municípios menores da região, como Brasilândia, Selvíria, Água Clara e Paranaíba, que utilizam Três Lagoas como referência em saúde. A ampliação da oferta de serviços especializados no município reduz a pressão sobre a rede de Campo Grande e distribui de forma mais equilibrada o atendimento pelo território estadual.
A geração de empregos é outro efeito esperado. A construção da unidade demandará mão de obra da construção civil, e a operação da policlínica criará postos permanentes para médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, técnicos em radiologia, recepcionistas e pessoal administrativo. Estimativas do setor de saúde indicam que uma policlínica desse porte emprega entre 80 e 120 profissionais em regime permanente.
O Que Dizem os Envolvidos
O governo de Mato Grosso do Sul apresentou a licitação como parte de um pacote de investimentos em saúde no interior do estado. A Secretaria de Estado de Saúde (SES) destacou que a policlínica de Três Lagoas é uma das obras prioritárias do convênio com o governo federal via PAC Saúde.
"A policlínica vai mudar a realidade da saúde em Três Lagoas e em toda a região leste do estado. Pacientes que hoje precisam viajar centenas de quilômetros para uma consulta especializada terão atendimento na própria cidade", afirmou a SES em nota oficial.
Profissionais de saúde de Três Lagoas receberam o anúncio com cautela. A experiência com obras públicas na área de saúde no interior de MS inclui casos de atrasos, paralisações e unidades inauguradas sem equipamentos ou sem quadro de pessoal completo. A preocupação é que a policlínica seja construída, mas não entre em pleno funcionamento por falta de profissionais ou de insumos.
A Câmara Municipal de Três Lagoas acompanha o processo e cobrou do governo estadual um cronograma detalhado de execução. Vereadores da cidade argumentam que a população precisa de prazos concretos para cobrar resultados.
Próximos Passos
O processo licitatório segue o rito previsto na Lei nº 14.133/2021. Após a publicação do edital, as empresas interessadas terão prazo para apresentar propostas. A fase de habilitação e julgamento pode levar de 60 a 90 dias, dependendo da complexidade do processo e da existência de recursos administrativos.
Após a contratação da empresa vencedora, a obra terá prazo de execução definido em contrato — policlínicas de porte semelhante em outros estados levaram entre 18 e 24 meses para serem concluídas. Se o cronograma for cumprido, a unidade pode ser entregue entre o final de 2027 e o primeiro semestre de 2028.
A operação da policlínica dependerá da contratação de profissionais de saúde e da aquisição de equipamentos. O governo estadual precisará realizar concursos públicos ou processos seletivos para compor o quadro de pessoal, além de licitar a compra de equipamentos de imagem, mobiliário hospitalar e insumos.
O acompanhamento da obra pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-MS) e pelo Ministério Público será determinante para garantir que os R$ 23 milhões sejam aplicados conforme o projeto e dentro dos prazos estabelecidos.
Fechamento
A licitação de R$ 23 milhões para a policlínica de Três Lagoas representa um passo concreto na descentralização da saúde pública em Mato Grosso do Sul. O estado, que concentra a maior parte dos serviços especializados em Campo Grande, precisa ampliar a oferta no interior para atender uma população que cresce e se distribui por um território de mais de 357 mil quilômetros quadrados.
Para Três Lagoas, a policlínica é mais do que uma obra de saúde — é uma resposta a uma demanda que se acumula há anos e que afeta diretamente a qualidade de vida de 130 mil pessoas. O desafio agora é garantir que o projeto saia do papel dentro do prazo e que a unidade funcione com a estrutura e o pessoal necessários para cumprir sua missão.
Fontes e Referências
- Campo Grande News (campograndenews.com.br)
- Secretaria de Estado de Saúde de MS (saude.ms.gov.br)
- Diário Oficial do Estado de Mato Grosso do Sul
- IBGE — Estimativa Populacional 2025
- Ministério da Saúde — PAC Saúde
