A Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso do Sul (SES-MS) colocou cinco municípios em estado de alerta máximo para infestação do Aedes aegypti, conforme dados do LIRAa 2026 (Levantamento Rápido de Índices de Infestação pelo Aedes aegypti) divulgados em 15 de abril de 2026. As cinco cidades apresentaram índice de infestação acima de 3,9%, patamar que o Ministério da Saúde classifica como situação de risco iminente para surtos de dengue, chikungunya e zika.
O levantamento ganha peso em um momento em que Mato Grosso do Sul já enfrenta uma epidemia de chikungunya — com 7 mortes confirmadas e 5 mil notificações concentradas em Dourados — e registra aumento progressivo nos casos de dengue em diversas regiões do estado.
O Que Aconteceu
O LIRAa é uma ferramenta de vigilância entomológica coordenada pelo Ministério da Saúde e executada pelas secretarias municipais de saúde. Agentes de endemias percorrem uma amostra estatística de imóveis em cada município, inspecionando recipientes que possam servir de criadouro para o Aedes aegypti. O resultado é um índice percentual que indica a proporção de imóveis com presença de larvas do mosquito.
A classificação segue três faixas:
- Satisfatório: abaixo de 1%
- Alerta: entre 1% e 3,9%
- Risco: acima de 3,9%
Os cinco municípios sul-mato-grossenses que ultrapassaram o limite de risco no levantamento de 2026 apresentaram índices que indicam alta densidade de focos do mosquito em áreas residenciais, comerciais e terrenos baldios. A SES-MS não detalhou publicamente quais são as cinco cidades, mas o padrão epidemiológico aponta para municípios que já registram transmissão ativa de arboviroses — especialmente na região da Grande Dourados e no sul do estado.
O período chuvoso, que se estendeu de outubro de 2025 a março de 2026 com precipitações acima da média histórica, criou condições propícias para a reprodução do vetor. Poças de água em terrenos baldios, recipientes abandonados em quintais e caixas d'água destampadas se multiplicaram, oferecendo ao Aedes aegypti o ambiente que ele precisa para completar seu ciclo reprodutivo em poucos dias.
Contexto e Histórico
O LIRAa é aplicado no Brasil desde 2002 e se consolidou como o principal instrumento de monitoramento da infestação pelo Aedes aegypti em território nacional. Em Mato Grosso do Sul, o levantamento é realizado em ciclos que acompanham o calendário epidemiológico — geralmente entre outubro e maio, período de maior atividade do mosquito.
Nos últimos três anos, o estado registrou uma escalada nos índices de infestação. Em 2024, o LIRAa apontou três municípios em situação de risco. Em 2025, o número subiu para quatro. Agora, em 2026, cinco cidades ultrapassaram o limite — uma progressão que reflete tanto o aumento das chuvas quanto falhas persistentes no controle vetorial.
A relação entre infestação e adoecimento é direta. Municípios que mantêm índices acima de 3,9% por períodos prolongados tendem a registrar surtos de arboviroses nas semanas seguintes. O ciclo é previsível: o mosquito se reproduz em grande escala, a circulação viral se intensifica e os casos começam a aparecer nas unidades de saúde.
Mato Grosso do Sul vive em 2026 a pior temporada de arboviroses de sua história recente. A chikungunya, que até 2023 era considerada doença de baixa incidência no estado, explodiu com força em Dourados — onde 5 mil notificações e 7 mortes transformaram o município no epicentro de uma crise sanitária que mobilizou governo estadual e federal. A dengue, embora com números menores que os de 2024, também preocupa: o sorotipo DENV-3, que voltou a circular no Centro-Oeste, tem potencial para provocar formas graves da doença em pessoas que já foram infectadas por outros sorotipos.
O controle vetorial em MS enfrenta obstáculos estruturais. Muitos municípios do interior não dispõem de equipes de agentes de endemias em número suficiente para cobrir toda a área urbana. A rotatividade de profissionais é alta — os salários são baixos e os contratos, em muitos casos, temporários. Equipamentos de nebulização e borrifação apresentam desgaste, e a reposição de insumos como larvicidas e adulticidas depende de repasses federais que nem sempre chegam no prazo.
A urbanização desordenada agrava o problema. Terrenos baldios sem manutenção, loteamentos irregulares sem infraestrutura de drenagem e a cultura de acumular materiais recicláveis em quintais criam um mosaico de criadouros que os agentes de saúde não conseguem eliminar sozinhos.
Impacto Para a População
O alerta máximo em cinco municípios tem consequências diretas para os moradores dessas cidades e para o sistema de saúde de todo o estado. A tabela abaixo sintetiza os principais indicadores da crise:
| Indicador | Situação em abril de 2026 |
|---|---|
| Municípios em alerta máximo (LIRAa) | 5 |
| Índice de risco (limite) | Acima de 3,9% |
| Mortes por chikungunya em MS | 7 confirmadas |
| Notificações de chikungunya em Dourados | 5 mil |
| Casos de dengue em MS (2026) | Em crescimento |
| Período de maior risco | Abril a maio |
| Vacina contra dengue (público-alvo) | 10 a 14 anos |
| Vacina contra chikungunya | Não disponível na rede pública |
Para o cidadão que vive em um dos municípios em alerta, o risco de contrair dengue ou chikungunya é elevado. A chikungunya, em particular, provoca dores articulares que podem se tornar crônicas — pacientes relatam incapacidade para trabalhar por semanas ou meses após a infecção. Em Dourados, onde a epidemia está mais avançada, filas nas UBS (Unidades Básicas de Saúde) aumentaram, medicamentos analgésicos estão em falta nas farmácias municipais e o Hospital da Vida opera com ocupação acima de 90%.
O impacto econômico se estende para além do setor de saúde. Trabalhadores afastados por arboviroses geram perda de produtividade para empresas e comércios locais. Famílias de baixa renda, que dependem de trabalho braçal ou informal, são as mais atingidas — a incapacitação de um membro pode comprometer a renda de todo o núcleo familiar.
Para o contribuinte, a conta chega na forma de gastos emergenciais. Mutirões de limpeza, contratação temporária de agentes de endemias, compra de inseticidas e ampliação de leitos hospitalares consomem recursos que poderiam ser aplicados em prevenção permanente. O ciclo se repete a cada temporada de chuvas: o poder público reage à crise em vez de investir em infraestrutura de saneamento e controle vetorial contínuo.
O Que Dizem os Envolvidos
A SES-MS informou que notificou os cinco municípios em situação de risco e determinou a intensificação imediata das ações de controle vetorial. Entre as medidas orientadas estão mutirões de limpeza em bairros com maior concentração de focos, borrifação residual com inseticida em áreas críticas, instalação de estações disseminadoras de larvicida e campanhas de conscientização porta a porta.
"O LIRAa é um instrumento de alerta precoce. Quando o índice ultrapassa 3,9%, a probabilidade de surto nas semanas seguintes é alta. Por isso, a resposta precisa ser imediata", declarou a SES-MS em nota técnica distribuída aos municípios.
As prefeituras dos municípios em alerta foram orientadas a mobilizar equipes de agentes comunitários de saúde e agentes de combate a endemias para vistorias domiciliares intensivas. A SES-MS também recomendou que os gestores municipais solicitem apoio do Exército e da Defesa Civil para mutirões de limpeza em áreas de difícil acesso, como terrenos baldios e loteamentos irregulares.
O Ministério da Saúde, por meio da Secretaria de Vigilância em Saúde, acompanha a situação em MS e disponibilizou insumos adicionais para controle vetorial — incluindo larvicidas biológicos e equipamentos de nebulização UBV (Ultra Baixo Volume). A pasta federal reforçou que a eliminação de criadouros domésticos pela população é a medida mais eficaz e de menor custo para reduzir a infestação.
Especialistas em entomologia e saúde pública alertam que o controle químico — borrifação e nebulização — tem eficácia limitada quando aplicado isoladamente. O mosquito adulto desenvolve resistência aos inseticidas ao longo do tempo, e as larvas protegidas dentro de recipientes fechados não são atingidas pela nebulização. A eliminação mecânica dos criadouros — ou seja, a remoção física da água parada — continua sendo a estratégia mais efetiva.
Próximos Passos
A SES-MS programou novo ciclo do LIRAa para maio de 2026, quando será possível avaliar se as ações emergenciais reduziram os índices de infestação nos cinco municípios em alerta. O resultado do próximo levantamento determinará se as cidades permanecem em situação de risco ou se conseguiram baixar o índice para a faixa de alerta.
O período entre abril e maio é considerado o mais crítico para a transmissão de arboviroses em MS. As chuvas diminuem gradualmente, mas a água acumulada durante o verão ainda mantém criadouros ativos. A expectativa das autoridades sanitárias é que a transmissão comece a recuar a partir de junho, com a chegada do inverno e a queda nas temperaturas.
A campanha de vacinação contra a dengue — destinada a crianças e adolescentes de 10 a 14 anos — segue em andamento, mas a cobertura vacinal ainda não atingiu a meta estabelecida pelo Ministério da Saúde. A vacina contra chikungunya, desenvolvida pelo laboratório Valneva e já aprovada nos Estados Unidos e na Europa, aguarda registro da Anvisa para distribuição na rede pública brasileira. Não há previsão de quando o imunizante estará disponível em MS.
Os municípios em alerta devem apresentar planos de ação detalhados à SES-MS até o final de abril, com cronograma de mutirões, metas de cobertura de vistorias domiciliares e estratégias de comunicação com a população. O descumprimento das orientações pode resultar em notificação formal e, em casos extremos, na intervenção direta do estado na gestão do controle vetorial municipal.
Fechamento
O alerta máximo em cinco municípios de Mato Grosso do Sul expõe uma fragilidade que se repete a cada temporada de chuvas: o combate ao Aedes aegypti no estado ainda opera no modo reativo, mobilizando recursos e equipes apenas quando os índices de infestação já ultrapassaram o limite de segurança. Enquanto o investimento em saneamento básico, drenagem urbana e controle vetorial permanente não se tornar prioridade orçamentária, o ciclo de surtos e mortes por arboviroses tende a se repetir. A população paga a conta — com a saúde, com o bolso e, nos casos mais graves, com a vida.
Fontes e Referências
- Campo Grande News (campograndenews.com.br)
- Secretaria de Estado de Saúde de MS (saude.ms.gov.br)
- Ministério da Saúde — Programa Nacional de Controle da Dengue (gov.br/saude)
- LIRAa — Levantamento Rápido de Índices de Infestação pelo Aedes aegypti (Ministério da Saúde)
