Prefeituras de MS Gastam R$ 3 Mi em Shows em Abril com Problemas Básicos por Resolver
Um levantamento do Campo Grande News publicado nesta quarta-feira, 23 de abril, revelou que 23 prefeituras de Mato Grosso do Sul contrataram shows, festivais e eventos culturais por um total de R$ 3 milhões apenas no mês de abril de 2026 — enquanto o estado enfrenta surtos de chikungunya, déficits em saúde básica e escolas com infraestrutura comprometida.
A reportagem identificou contratos nos diários oficiais municipais e no sistema APLIC do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MS), revelando um padrão de priorização de eventos em detrimento de serviços essenciais.

O Que Aconteceu
O levantamento mapeou os contratos municipais publicados entre 1° e 20 de abril de 2026 e identificou R$ 3 milhões em contratações de serviços de entretenimento e eventos por 23 dos 79 municípios de MS.
Os casos mais emblemáticos:
- Um município da Grande Dourados pagou R$ 480 mil por dois shows em um único final de semana, usando dispensa de licitação
- Uma prefeitura do Bolsão contratou festa junina em abril (fora de época) por R$ 320 mil
- Uma cidade do Vale do Ivinhema realizou comemoração do aniversário municipal com shows por R$ 290 mil, mesmo com dívida de R$ 2 mi com o INSS
- Quatro municípios da região sul de MS contrataram o mesmo conjunto musical por valores entre R$ 95 mil e R$ 180 mil
Contexto
Os gastos acontecem em um contexto de crise da saúde pública no interior de Mato Grosso do Sul. O estado registra:
- 31 dos 79 municípios sem cobertura completa de Estratégia Saúde da Família (ESF)
- Surto de chikungunya com mais de 12.000 casos no estado e 3 mortes em Dourados
- Escolas municipais com infraestrutura reprovada em vistorias do Corpo de Bombeiros em ao menos 8 municípios
A Lei de Responsabilidade Fiscal não proíbe gastos com cultura e eventos, mas exige que os valores estejam dentro das metas de resultado primário e que não comprometam o cumprimento de obrigações básicas.
Impacto na Gestão Pública
| Aspecto | Dado |
|---|---|
| Total contratado em shows (abril/2026) | R$ 3 milhões |
| Municípios envolvidos | 23 de 79 |
| Maior contrato individual | R$ 480 mil |
| Contratos via dispensa de licitação | 71% do total |
| Municípios com ESF incompleto | 31 de 79 |
| Municípios com dívida ativa no INSS | 18 dos 23 citados |
O Que Dizem as Partes
O TCE-MS informou que os contratos identificados na reportagem estão sendo analisados no âmbito do monitoramento regular das contas municipais. "Casos com indícios de irregularidade serão encaminhados para a área de fiscalização", diz a nota.
A Associação Matogrossense dos Municípios (ASSOMASUL) saiu em defesa das prefeituras, afirmando que "eventos culturais geram economia local e são demanda legítima das comunidades". "O interior tem direito à cultura e ao lazer. Não se pode comparar um show com abandono de serviços", disse o presidente da entidade.
O Ministério Público de MS informou que está avaliando as informações da reportagem e que pode instaurar procedimentos investigatórios nos casos onde houver indícios de irregularidade na dispensa de licitação ou superfaturamento.
Nenhum dos prefeitos dos municípios citados respondeu aos pedidos de entrevista.
Análise do Bastidor Público
O padrão identificado pelo levantamento não é novo, mas ganhou visibilidade maior em 2026 por causa de dois fatores: a pressão do surto de chikungunya (que exige recursos para saúde pública) e a proximidade das eleições (que incentiva prefeitos a realizarem eventos com visibilidade popular antes do prazo de desincompatibilização).
O apurou o Bastidor Público que ao menos 6 dos 23 municípios citados têm prefeitos com intenção de candidatura a algum cargo em 2026 — seja reeleição, seja mudança para deputado estadual ou federal. Em alguns casos, os shows aconteceram no dia do aniversário municipal, com participação ostensiva do prefeito e divulgação intensa nas redes sociais.
A questão central é de prioridade e oportunidade política. Gastar R$ 480 mil em dois shows em um município onde a UBS funciona sem médico há 3 meses é, no mínimo, um problema de comunicação com a população.
Próximos Passos
O TCE-MS tem prazo legal de 60 dias para se manifestar sobre denúncias de irregularidade em contratos municipais. O Ministério Público de MS deve pedir acesso integral às prestações de contas antes de decidir sobre eventuais ações civis públicas.
A reportagem do Campo Grande News gerou repercussão nas redes sociais e vários vereadores dos municípios citados anunciaram que vão convocar os prefeitos para prestar esclarecimentos nas câmaras locais.
Fontes: Campo Grande News · TCE-MS (sistema APLIC) · Diários Oficiais Municipais · ASSOMASUL
