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Aquidauana inicia rodízio de água após nível do Rio Miranda cair 55% abaixo da média

Terceira cidade de MS a decretar restrição hídrica em 2026. Estiagem antecipada e falta de investimento em captação alternativa agravam a crise no Pantanal.

Redação Bastidor Público22 de março de 20268 min de leituraAquidauana1368 palavras
Rio Miranda com nível baixo na região de Aquidauana — Foto: Defesa Civil/Divulgação
Rio Miranda com nível baixo na região de Aquidauana — Foto: Defesa Civil/Divulgação

Aquidauana inicia rodízio de água com Rio Miranda em nível crítico

A Prefeitura de Aquidauana decretou rodízio de abastecimento de água na segunda-feira (20) após o nível do Rio Miranda — principal manancial da cidade — cair 55% abaixo da média histórica para março. A medida afeta os 38 mil habitantes do município e transforma Aquidauana na terceira cidade de MS a adotar restrição hídrica em 2026, após Dourados (março) e Ponta Porã (fevereiro).

O rodízio funciona em ciclos de 36 horas: cada bairro recebe água por 36 horas e fica sem fornecimento nas 36 horas seguintes. A Sanesul (Empresa de Saneamento de MS), responsável pelo abastecimento, informou que a vazão do Rio Miranda caiu de 120 m³/s (média histórica) para 54 m³/s — insuficiente para atender a demanda de 8,5 milhões de litros/dia da cidade.

Segundo apurou o Bastidor Público, a crise era previsível. A Agência Nacional de Águas (ANA) emitiu alerta de estiagem severa para a bacia do Rio Miranda em dezembro de 2025, recomendando que municípios dependentes do rio adotassem medidas preventivas. Aquidauana não tomou nenhuma providência até o nível atingir patamar crítico.

Situação dos Mananciais

A evolução do nível do Rio Miranda mostra deterioração acelerada:

Mês Vazão (m³/s) % da média Status
Dezembro/2025 98 82% Alerta
Janeiro/2026 78 65% Crítico
Fevereiro/2026 62 52% Emergência
Março/2026 (atual) 54 45% Rodízio decretado
Projeção abril (sem chuva) 38 32% Risco de colapso

A queda é atribuída a dois fatores: a estiagem antecipada que afeta todo o Pantanal (o mesmo fenômeno que provocou os incêndios em Corumbá) e o desmatamento de matas ciliares na cabeceira do Rio Miranda, que reduziu a capacidade de retenção de água na bacia.

Aquidauana depende exclusivamente do Rio Miranda para abastecimento. Não possui poços artesianos de reserva, reservatório de acumulação ou sistema alternativo de captação — vulnerabilidade que a Sanesul identificou em relatório de 2022 e que não foi corrigida.

Contexto

Aquidauana é a porta de entrada do Pantanal e tem economia baseada em turismo, pecuária e pesca. A cidade abriga a base do Exército para operações no Pantanal e é sede da UFMS campus Aquidauana, com 2.800 alunos.

A crise hídrica de 2026 não é a primeira. Em 2019, a cidade enfrentou rodízio de 18 dias. Em 2023, foram 12 dias. A cada episódio, a prefeitura promete investimentos em captação alternativa que não se materializam.

O Plano Municipal de Saneamento de 2021 previa a perfuração de 5 poços artesianos profundos até 2024, com investimento de R$ 8 milhões. Nenhum foi perfurado. O plano também previa a construção de um reservatório de 5 milhões de litros — obra que garantiria 12 horas de autonomia em caso de interrupção do rio. O reservatório não saiu do papel.

A Sanesul, empresa estadual responsável pelo saneamento em 68 dos 79 municípios de MS, opera com orçamento de investimento de R$ 120 milhões/ano para todo o estado — valor que especialistas consideram insuficiente para atender a demanda de modernização da infraestrutura hídrica.

Nos bastidores, a relação entre a prefeitura e a Sanesul é tensa. O prefeito acusa a empresa de não investir em Aquidauana; a Sanesul alega que o município não apresentou projetos técnicos para captação dos recursos disponíveis. O jogo de empurra se repete a cada crise.

Impacto no Bolso do Cidadão

O rodízio de água tem custos diretos para os 38 mil habitantes:

  • Caixa d'água emergencial: moradores estão comprando reservatórios extras. Custo médio de R$ 400 a R$ 700 por unidade — impacto estimado de R$ 3,8 milhões em compras emergenciais na cidade
  • Caminhão-pipa: famílias que não conseguem o serviço gratuito pagam R$ 120 a R$ 200 por carga. Bairros periféricos relatam gastos de R$ 480/mês por família
  • Turismo: Aquidauana recebe 25 mil turistas/ano para pesca e ecoturismo no Pantanal. A crise hídrica já provocou cancelamento de 40% das reservas para abril — perda estimada de R$ 2,8 milhões
  • Comércio: restaurantes e hotéis operam com restrição, com perdas de R$ 450 mil/semana em faturamento
  • Saúde: sem água regular, o risco de doenças de veiculação hídrica aumenta. O custo médio de internação por diarreia no SUS é de R$ 1.800 — com 120 casos extras estimados, o impacto é de R$ 216 mil
  • Investimento não feito: os 5 poços artesianos previstos no Plano de Saneamento custariam R$ 8 milhões e teriam evitado a crise. O custo da crise (compras emergenciais + turismo perdido + comércio) já ultrapassa R$ 7 milhões em uma semana

O Que Dizem as Partes

O prefeito de Aquidauana declarou que "a situação é grave e estamos tomando todas as medidas ao nosso alcance. Solicitamos à Sanesul a perfuração emergencial de poços artesianos e ao governo estadual o envio de caminhões-pipa".

A Sanesul informou que "a vazão do Rio Miranda está em nível crítico e o rodízio é inevitável. A empresa está mobilizando equipes para perfuração de 2 poços emergenciais, com previsão de operação em 30 dias".

O presidente da Associação Comercial de Aquidauana alertou que "o turismo é a alma da nossa economia. Se a crise se prolongar até abril, a temporada de pesca está perdida. São R$ 2,8 milhões que não voltam".

A ANA reiterou que "o alerta de estiagem foi emitido em dezembro de 2025 com recomendações específicas para municípios da bacia do Rio Miranda. A adoção de medidas preventivas é responsabilidade dos gestores locais".

Análise do Bastidor Público

Aquidauana repete o roteiro de Dourados: crise previsível, plano de saneamento não executado, investimento prometido e não realizado, emergência decretada quando já é tarde. O padrão é tão consistente que parece proposital — como se a gestão pública de MS operasse exclusivamente no modo reativo, incapaz de prevenir o que todos sabem que vai acontecer.

Os 5 poços artesianos do Plano de Saneamento custariam R$ 8 milhões e teriam dado à cidade autonomia hídrica independente do Rio Miranda. O custo da crise atual já ultrapassa R$ 7 milhões em uma semana. A matemática é cruel: economizou-se R$ 8 milhões em prevenção e gastou-se mais que isso em emergência.

A pergunta que o cidadão de Aquidauana deveria fazer ao prefeito é simples: onde estão os 5 poços? E a resposta, provavelmente, será a mesma de Dourados: "restrições orçamentárias". Em um município com orçamento de R$ 180 milhões, R$ 8 milhões representam 4,4%. Não é falta de dinheiro. É falta de prioridade.

Próximos Passos

  • Perfuração de poços emergenciais: previsão de 30 dias
  • Envio de caminhões-pipa pelo governo estadual: em andamento
  • Retorno das chuvas regulares: previsão para final de abril
  • Normalização do abastecimento: 30 a 45 dias após retorno das chuvas
  • Audiência pública sobre o Plano de Saneamento: abril de 2026

Perguntas Frequentes

Por que Aquidauana está com rodízio de água?

O nível do Rio Miranda, único manancial de abastecimento da cidade, caiu 55% abaixo da média histórica devido à estiagem antecipada que afeta o Pantanal. A vazão de 54 m³/s é insuficiente para atender a demanda de 8,5 milhões de litros/dia. A cidade não possui poços artesianos de reserva nem reservatório de acumulação — vulnerabilidades identificadas em 2022 que não foram corrigidas.

Quanto tempo deve durar a crise de água em Aquidauana?

A Sanesul prevê que o rodízio dure pelo menos 30 dias, até o início do período chuvoso em abril. A perfuração de 2 poços emergenciais, com previsão de operação em 30 dias, deve aliviar parcialmente a situação. A normalização completa depende da recuperação do nível do Rio Miranda, que pode levar 30 a 45 dias após o retorno das chuvas regulares.

O que poderia ter evitado a crise hídrica em Aquidauana?

O Plano Municipal de Saneamento de 2021 previa a perfuração de 5 poços artesianos profundos (R$ 8 milhões) e a construção de um reservatório de 5 milhões de litros até 2024. Nenhuma das obras foi executada. Se os poços estivessem operacionais, a cidade teria fonte alternativa de água independente do Rio Miranda. A ANA emitiu alerta de estiagem em dezembro de 2025, mas o município não adotou medidas preventivas.


Fontes: Prefeitura Municipal de Aquidauana (Decreto de Rodízio), Sanesul (Boletim Operacional), ANA (Alerta de Estiagem — Bacia do Rio Miranda), Plano Municipal de Saneamento de Aquidauana (2021), Associação Comercial de Aquidauana

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Atualizado em 23 de março de 2026 às 00:00
Fonte: Prefeitura Municipal de Aquidauana
RB
Redação Bastidor Público

Equipe Editorial

Equipe de jornalistas do Bastidor Público MS dedicada à cobertura política e institucional de Mato Grosso do Sul.

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