Na sede do PL em Campo Grande, o senador Flávio Bolsonaro fez uma declaração que surpreendeu parte dos correligionários presentes na quinta-feira (10 de abril de 2026). Perguntado sobre como pretende se diferenciar do pai na corrida presidencial de 2026, foi categórico: "Todo mundo que tentou ser igual ao presidente Bolsonaro se deu mal."
A frase, dita em coletiva de imprensa ao lado do governador Eduardo Riedel, do ex-governador Reinaldo Azambuja, da senadora Tereza Cristina e do senador Rogério Marinho, marca o tom que Flávio quer imprimir à sua pré-candidatura. Não será uma cópia. Será, segundo ele, "Flávio Bolsonaro" — com identidade própria, embora sem abrir mão do sobrenome que é seu principal ativo eleitoral.
O Que Aconteceu
A coletiva em Campo Grande fez parte de uma agenda de Flávio Bolsonaro em Mato Grosso do Sul que incluiu reunião com pré-candidatos do PL a cargos estaduais e federais. O senador veio ao estado para alinhar a estratégia do partido nas eleições de outubro e para reforçar a aliança com as lideranças locais que sustentam a base bolsonarista em MS.
Ao microfone, Flávio alternou entre críticas ao governo Lula e acenos ao agronegócio — dois temas que encontram terreno fértil no eleitorado sul-mato-grossense. Os números que apresentou para atacar a gestão federal foram duros: 80 milhões de brasileiros com dívidas atrasadas, 20% da população sem conseguir pagar contas de luz e água, famílias parcelando arroz e feijão no cartão de crédito.
O senador também mirou a regulamentação das apostas esportivas pelo governo federal. Sem entrar em detalhes técnicos, classificou a medida como prejudicial à população de baixa renda — argumento que tem ganhado tração em pesquisas qualitativas e que o PL pretende explorar na campanha.
Sobre a composição da chapa presidencial, Flávio mencionou Tereza Cristina como possível vice. Chamou-a de "melhor ministra" — referência ao período em que a senadora comandou o Ministério da Agricultura durante o governo Jair Bolsonaro (2019-2022). Mas não cravou a escolha. Disse que a definição do vice "ainda não foi feita" e que o partido avaliará os cenários até as convenções.
Contexto e Histórico
Flávio Bolsonaro é o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro e o que mais avançou na construção de uma carreira política autônoma. Senador pelo Rio de Janeiro desde 2019, preside o PL — maior partido do Congresso Nacional — e se posiciona como o herdeiro político do bolsonarismo caso o pai permaneça inelegível.
A vinda a MS não é casual. O estado é um dos bastiões do bolsonarismo no Brasil. Nas eleições de 2022, Jair Bolsonaro venceu Lula em MS com mais de 60% dos votos no segundo turno. O PL elegeu a maior bancada da Assembleia Legislativa e tem presença dominante nas prefeituras do interior.
| Indicador político | Dado | Contexto |
|---|---|---|
| Votação de Bolsonaro em MS (2022, 2º turno) | ~60% | Um dos melhores desempenhos do país |
| Bancada do PL na ALEMS | Maior do estado | Absorveu 5 deputados na janela de 2026 |
| Prefeitos do PL em MS | Dezenas de municípios | Capilaridade no interior |
| Tereza Cristina | Senadora e presidente do PP-MS | Ponte entre agronegócio e bolsonarismo |
A presença de Riedel, Azambuja e Tereza Cristina ao lado de Flávio na coletiva reforça a coalizão de centro-direita que domina a política de MS. Riedel governa com apoio do PL. Azambuja é pré-candidato ao Senado pelo partido. Tereza Cristina, embora filiada ao PP, mantém alinhamento estreito com o bolsonarismo desde o governo anterior.
Rogério Marinho, senador pelo Rio Grande do Norte e ex-presidente do PL, completou o palanque. Sua presença sinaliza que a articulação de Flávio para 2026 tem alcance nacional — MS é uma parada numa turnê que inclui outros estados estratégicos.
A declaração sobre "não copiar o pai" tem um subtexto que os analistas políticos de Brasília já vinham observando. Flávio tem perfil mais conciliador que Jair Bolsonaro. Enquanto o pai construiu sua marca com confronto permanente — contra a imprensa, contra o STF, contra adversários —, o filho prefere a articulação de bastidores e o diálogo com o centrão. A frase dita em Campo Grande oficializa essa diferenciação.
Impacto Para a População
As críticas de Flávio Bolsonaro ao governo Lula tocam em pontos que afetam diretamente o bolso do cidadão sul-mato-grossense. Os números apresentados pelo senador — mesmo que contestáveis em sua precisão — refletem uma percepção real de parte da população sobre o custo de vida.
| Indicador citado por Flávio | Dado apresentado | Impacto no cotidiano |
|---|---|---|
| Brasileiros endividados | 80 milhões com dívida atrasada | Restrição de crédito, nome sujo |
| Inadimplência em serviços básicos | 20% não pagam luz/água | Risco de corte, uso de ligações clandestinas |
| Alimentação | Famílias parcelando arroz e feijão | Comprometimento da renda com itens básicos |
| Apostas esportivas | Regulamentação criticada | Endividamento de famílias de baixa renda |
Para o eleitor de MS, a disputa presidencial tem impacto indireto mas concreto. O estado depende de políticas federais para infraestrutura, segurança de fronteira e incentivos ao agronegócio. Um presidente alinhado com as demandas do Centro-Oeste — como foi Bolsonaro na avaliação de seus apoiadores — tende a priorizar investimentos na região.
A menção a Tereza Cristina como possível vice tem peso especial em MS. A senadora é a principal representante do agronegócio no Congresso e sua eventual presença na chapa presidencial colocaria o estado no centro da disputa nacional. Para o setor produtivo de MS — que responde por parcela expressiva do PIB estadual —, ter uma sul-mato-grossense na vice-presidência significaria acesso direto ao Planalto.
A regulamentação das apostas esportivas, criticada por Flávio, é tema que afeta especialmente a população jovem e de baixa renda. Em MS, assim como no restante do país, o crescimento das plataformas de apostas online tem gerado preocupação entre educadores, assistentes sociais e gestores de saúde mental. O tema promete ser um dos mais explorados na campanha de 2026.
O Que Dizem os Envolvidos
Flávio Bolsonaro foi direto ao definir seu posicionamento:
"Todo mundo que tentou ser igual ao presidente Bolsonaro se deu mal. Eu vou me apresentar como Flávio Bolsonaro, com minha identidade."
Sobre Tereza Cristina, o elogio foi explícito:
"A Tereza foi a melhor ministra que o Brasil já teve. Se for para escolher um vice, ela está entre os melhores nomes."
A senadora, presente na coletiva, sorriu mas não respondeu diretamente à menção. Em declarações anteriores, Tereza Cristina tem dito que seu foco é o trabalho no Senado e a articulação do PP em MS — sem confirmar nem negar interesse na vice-presidência.
O governador Riedel, ao lado de Flávio no palanque, não fez declarações sobre a corrida presidencial. Sua presença, porém, fala por si: o governador de MS está alinhado com o PL e com o bolsonarismo, e a foto ao lado de Flávio reforça essa aliança a seis meses das eleições.
Reinaldo Azambuja, pré-candidato ao Senado pelo PL, também evitou declarações sobre a chapa presidencial. Nos bastidores, interlocutores do ex-governador dizem que Azambuja apoia Flávio mas prefere manter o foco na própria candidatura ao Senado, onde enfrenta concorrência interna no partido.
Próximos Passos
- O PL realizará convenção nacional entre julho e agosto de 2026 para oficializar a candidatura presidencial. A definição do vice será feita até essa data.
- Flávio Bolsonaro deve retornar a MS pelo menos mais uma vez antes das convenções, possivelmente durante a Expogrande ou outro evento do agronegócio.
- A composição da chapa do PL ao Senado em MS — com Azambuja como favorito para uma das vagas — será definida nas próximas semanas, em negociação que envolve também Capitão Contar e Marcos Pollon.
- O debate sobre a regulamentação das apostas esportivas deve ganhar espaço na campanha, com o PL usando o tema para atacar o governo Lula.
- Tereza Cristina precisará decidir, até as convenções, se aceita eventual convite para a vice-presidência ou se permanece focada na política estadual e no PP de MS.
Fechamento
A passagem de Flávio Bolsonaro por Campo Grande deixou duas mensagens. A primeira, para o eleitorado: ele não é o pai, não pretende ser, e quem espera uma cópia de Jair Bolsonaro vai se frustrar. A segunda, para as lideranças de MS: o PL conta com o estado como base de sustentação nacional, e a aliança Riedel-Azambuja-Tereza Cristina é peça central nesse tabuleiro. Entre a identidade própria que Flávio promete e o sobrenome que carrega, a campanha de 2026 testará se o bolsonarismo sobrevive — e em que formato — sem o próprio Bolsonaro na cabeça de chapa.
Fontes e Referências
- Campo Grande News (campograndenews.com.br) — "Flávio Bolsonaro diz que não vai copiar estilo do pai", 10 de abril de 2026
- Tribunal Superior Eleitoral (tse.jus.br) — Dados de filiação partidária do PL
