O Que Aconteceu
A Executiva Nacional do PSDB formalizou na quarta-feira (8) a criação de uma comissão provisória para comandar o partido em Mato Grosso do Sul. A resolução, assinada pelo presidente nacional Aécio Neves, coloca o deputado estadual Pedro Caravina na presidência regional. A vice-presidência ficou com Lia Nogueira. Paulo Duarte, recém-filiado ao PSDB vindo do PSB, assume como secretário-geral. A ex-senadora Marisa Serrano foi nomeada presidente de honra.
A comissão provisória passa a exercer as funções do diretório estadual e da executiva, com autonomia para tomar decisões estratégicas — de montagem de chapas a alianças eleitorais. O primeiro teste é outubro: Caravina quer eleger de quatro a cinco deputados estaduais, pelo menos um deputado federal e garantir o apoio do PSDB à reeleição do governador Eduardo Riedel (PP).
"Eu recebo essa missão com gratidão pela confiança do presidente nacional. É uma responsabilidade de tocar um partido como o PSDB no ano eleitoral", afirmou Caravina ao apurou o Bastidor Público.
A frase é protocolar. O cenário, nem tanto. O PSDB chega a 2026 aos trancos e barrancos — expressão usada por interlocutores ouvidos pela reportagem para descrever o estado da legenda em MS.
Contexto e Histórico
O PSDB já foi o partido mais poderoso de Mato Grosso do Sul. Governou o estado com José Orcírio Miranda dos Santos (Zeca do PT perdeu para o tucano André Puccinelli em 2006), elegeu senadores como Marisa Serrano e Delcídio do Amaral (que migrou depois), e manteve bancadas robustas na Assembleia Legislativa por mais de uma década. O auge foi entre 2007 e 2014, quando Puccinelli comandou o Executivo estadual por dois mandatos consecutivos.
A erosão começou em 2018. A derrota de Geraldo Alckmin na corrida presidencial e a ascensão do bolsonarismo esvaziaram o PSDB em todo o país. Em MS, lideranças migraram para o PL, o PP e o Republicanos — partidos que ofereciam mais tempo de TV, fundo eleitoral maior e proximidade com o governo federal de Jair Bolsonaro.
Na janela partidária de 2025-2026, o PSDB perdeu mais parlamentares. A bancada na ALMS, que já havia encolhido, ficou reduzida. Diretórios municipais no interior — especialmente em cidades médias como Dourados, Três Lagoas e Corumbá — perderam presidentes e vereadores para outras siglas.
O fundo eleitoral do PSDB acompanhou a queda. O valor distribuído aos partidos é proporcional à representação no Congresso Nacional. Com menos deputados federais e senadores, o PSDB recebe menos dinheiro para financiar campanhas — o que dificulta a atração de candidatos competitivos.
A resolução de Aécio Neves, criando comissão provisória em vez de convocar eleição interna, é sinal de que a direção nacional não confia na capacidade do partido em MS de se reorganizar sozinho. Comissões provisórias são instrumentos de intervenção: a cúpula nacional escolhe quem manda e define as regras do jogo.
| Período | Situação do PSDB em MS |
|---|---|
| 2007-2014 | Governo do estado (Puccinelli), maior bancada ALMS |
| 2015-2018 | Oposição ao governo Azambuja (PSDB), início da erosão |
| 2019-2022 | Perda de lideranças para PL e PP, bancada encolhe |
| 2023-2025 | Janela partidária esvazia diretórios municipais |
| Abril/2026 | Comissão provisória, reconstrução sob Caravina |
Impacto Para a População
Reestruturação partidária não muda o preço do arroz. Mas muda a composição da Assembleia Legislativa — e, por consequência, as leis que afetam o cotidiano do sul-mato-grossense.
Se o PSDB eleger quatro ou cinco deputados estaduais, como pretende Caravina, o partido volta a ter peso na base governista. Isso significa mais poder de barganha na aprovação de projetos, na indicação de cargos em secretarias e na destinação de emendas parlamentares para municípios onde o PSDB tem presença.
Para o eleitor, a questão é de representatividade. Um partido com bancada na ALMS pode pautar debates, apresentar projetos de lei e fiscalizar o Executivo. Um partido sem bancada é sigla de papel — existe no registro do TSE, mas não no dia a dia da política estadual.
| Meta eleitoral PSDB-MS | Alvo | Situação atual |
|---|---|---|
| Deputados estaduais | 4 a 5 | Bancada reduzida após janela |
| Deputados federais | Pelo menos 1 | Sem representante competitivo definido |
| Apoio ao governo | Reeleição de Riedel | Confirmado por Caravina |
| Diretórios municipais | Reconstrução no interior | Esvaziados |
| Fundo eleitoral | Proporcional à bancada federal | Reduzido |
O apoio à reeleição de Riedel é a moeda de troca. O governador, do PP, mantém base ampla e pode direcionar apoio logístico e político aos candidatos tucanos em troca de fidelidade legislativa. Nos bastidores, a aposta é que o PSDB funcione como partido satélite da base governista — sem protagonismo, mas com presença suficiente para manter relevância.
O risco para o eleitor é a diluição da oposição. Se o PSDB se acomoda na base de Riedel, sobra menos espaço para fiscalização independente do governo. O PT, com três deputados na ALMS, é a única oposição organizada — e não tem tamanho para barrar nada sozinho.
O Que Dizem os Envolvidos
Caravina apostou no discurso de retomada ao assumir a presidência regional:
"Eu tenho toda condição de retornar a ser um grande partido no Mato Grosso do Sul. É um partido que tem um diferencial a nível Brasil, foi o partido da redemocratização do país, da estabilização da economia com o Plano Real."
A fala mistura nostalgia com ambição. O Plano Real completou 32 anos em 2026. A redemocratização, 41. O eleitor de 25 anos não viveu nenhum dos dois. O desafio de Caravina é traduzir esse legado em votos — tarefa que exige mais do que memória histórica.
Lia Nogueira, vice-presidente da comissão, não se pronunciou publicamente. Paulo Duarte, secretário-geral, é a aposta de renovação: recém-filiado, vindo do PSB, traz consigo uma rede de contatos no interior que o PSDB perdeu nos últimos anos.
Marisa Serrano, presidente de honra, empresta o nome e o capital político de quem já foi senadora da República. A ex-parlamentar não tem pretensão de disputar cargo em 2026, segundo interlocutores, mas aceita o papel de madrinha da reconstrução.
Aécio Neves, que assinou a resolução de Brasília, não comentou publicamente a escolha de Caravina. O presidente nacional do PSDB enfrenta seus próprios problemas de imagem — condenações e processos judiciais que afastaram parte do eleitorado tucano — e delega a operação estadual a lideranças locais.
Nos corredores da ALMS, a leitura é pragmática. "O PSDB não vai liderar nada. Vai compor. Se conseguir eleger três, quatro deputados, já é vitória. O jogo grande é do PL e do PP", resumiu um parlamentar da base governista, sob condição de anonimato.
Próximos Passos
A comissão provisória tem até julho para montar as chapas de deputado estadual e federal. O prazo é curto. Caravina precisa encontrar candidatos competitivos em um cenário onde o fundo eleitoral do PSDB é menor do que o de PL, PP, MDB e Republicanos.
A primeira tarefa é reconstruir diretórios municipais. Sem estrutura local, o partido não consegue fazer campanha no interior — e é no interior que se decide a maioria das cadeiras da ALMS. Cidades como Dourados, Três Lagoas, Corumbá, Ponta Porã e Nova Andradina precisam de presidentes de diretório e candidatos a vereador para dar capilaridade à legenda.
As convenções partidárias estão marcadas para julho. Até lá, o PSDB precisa definir se vai lançar candidato próprio ao Senado — hipótese remota, dado o tamanho atual do partido — ou se vai apoiar um nome da base governista em troca de espaço na chapa proporcional.
A aliança com Riedel é o ativo mais valioso. O governador pode incluir candidatos tucanos em eventos oficiais, direcionar agenda no interior e sinalizar apoio público — gestos que, em ano eleitoral, valem mais do que dinheiro de fundo partidário.
Fechamento
O PSDB de Mato Grosso do Sul tenta se reerguer com uma comissão provisória, metas ambiciosas e o nome de Marisa Serrano no papel timbrado. A realidade é menos glamorosa: partido esvaziado, fundo eleitoral minguado e dependência total da boa vontade do governo Riedel. Se Caravina entregar quatro deputados estaduais em outubro, terá feito mais do que o razoável com o que tem em mãos. Se não entregar, o PSDB em MS caminha para a irrelevância — destino que, há dez anos, ninguém no partido imaginaria possível.
Fontes e Referências
- Campo Grande News (campograndenews.com.br)
- Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (al.ms.gov.br)
- Tribunal Superior Eleitoral (tse.jus.br)
