O Que Aconteceu
A advogada Carla Bernal tomou posse como presidente do MDB Mulher de Campo Grande em solenidade realizada na quarta-feira (15 de abril). A vice-presidência ficou com Maritza Cogo. O evento reuniu dirigentes partidários, filiadas e representantes de movimentos de mulheres na capital.
A missão declarada da nova diretoria é ampliar a participação feminina na política de Mato Grosso do Sul, com foco em dois eixos: formação de lideranças e articulação de candidaturas competitivas para as eleições de 2026. O MDB Mulher pretende funcionar como espaço de debate sobre políticas públicas para mulheres e como porta de entrada para novas filiadas ao partido.
A posse ocorre em um momento de reorganização do MDB em MS. A saída da senadora Simone Tebet do partido, em 2025, encerrou um ciclo de décadas da família Tebet na política sul-mato-grossense pelo MDB. O vazio deixado pela ex-senadora — que foi candidata à Presidência da República em 2022 e ministra do Planejamento no governo Lula — ainda não foi preenchido.
Contexto e Histórico
O MDB de Mato Grosso do Sul foi, durante três décadas, sinônimo da família Tebet. Ramez Tebet governou o estado e presidiu o Senado Federal. Simone Tebet herdou o capital político do pai e construiu trajetória própria: foi vereadora em Três Lagoas, deputada estadual, senadora e candidata à Presidência. Sua saída do MDB, descrita por interlocutores como motivada por mágoa com a direção nacional do partido, representou uma ruptura que o diretório estadual ainda tenta absorver.
Sem Simone, o MDB em MS perdeu sua principal liderança feminina e uma das figuras de maior projeção nacional. O partido mantém estrutura nos 79 municípios do estado, mas carece de nomes com visibilidade para disputar cargos majoritários em 2026. A reorganização do MDB Mulher em Campo Grande é parte de uma estratégia mais ampla de reconstrução da base partidária.
A participação feminina na política brasileira avançou em termos legais, mas os números continuam baixos. A legislação eleitoral exige que partidos destinem ao menos 30% das candidaturas e 30% do fundo eleitoral a mulheres. Na prática, muitas candidaturas femininas são lançadas apenas para cumprir a cota, sem investimento real de campanha. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) endureceu a fiscalização nos últimos ciclos eleitorais, cassando chapas que usaram candidaturas fictícias de mulheres — as chamadas "candidatas laranjas".
Em Mato Grosso do Sul, o cenário reflete a média nacional. Na Assembleia Legislativa, mulheres ocupam menos de 15% das 24 cadeiras. Na Câmara Municipal de Campo Grande, a proporção é semelhante. Entre os 79 municípios do estado, menos de dez têm prefeitas. A sub-representação feminina não é exclusividade de um partido — atinge todas as legendas, da esquerda à direita.
O movimento nacional por mais mulheres em cargos de influência ganhou força após as eleições de 2024, quando o número de vereadoras eleitas no país cresceu 12% em relação a 2020. Organizações como a ONU Mulheres e o Instituto Alziras passaram a pressionar partidos por compromissos concretos de inclusão feminina, indo além da cota legal.
O MDB Mulher existe como órgão partidário previsto no estatuto do MDB. Cada diretório municipal pode constituir seu núcleo feminino, com presidente, vice e secretaria próprias. O núcleo tem voz nas convenções e pode indicar nomes para composição de chapas proporcionais. Na prática, o peso político do MDB Mulher varia conforme a liderança local — em alguns municípios, é atuante; em outros, existe apenas no papel.
Impacto Para a População
A reorganização do MDB Mulher em Campo Grande tem impacto indireto, mas mensurável, na qualidade da representação política. Quando mulheres ocupam cargos eletivos, pautas como saúde da mulher, combate à violência doméstica, creches, licença-maternidade e igualdade salarial ganham espaço na agenda legislativa. Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que câmaras municipais com maior proporção de vereadoras aprovam mais projetos voltados a políticas de gênero.
Para a eleitora de Campo Grande, a existência de um núcleo feminino ativo no MDB significa mais opções de candidatas com formação política e propostas estruturadas. A alternativa — candidaturas lançadas apenas para cumprir cota — não representa avanço real.
O MDB Mulher pretende atuar em três frentes: formação política (cursos e oficinas para potenciais candidatas), articulação institucional (diálogo com o Executivo e o Legislativo sobre políticas para mulheres) e captação de filiadas (ampliação da base feminina do partido em Campo Grande).
| Indicador | Situação atual em MS | Meta do MDB Mulher |
|---|---|---|
| Mulheres na ALMS | Menos de 15% das cadeiras | Ampliar candidaturas competitivas |
| Vereadoras em Campo Grande | Proporção similar à ALMS | Formar lideranças para 2028 |
| Prefeitas no estado | Menos de 10 em 79 municípios | Articular candidaturas no interior |
| Candidaturas femininas reais | Muitas apenas para cota | Eliminar candidaturas fictícias no MDB |
| Fundo eleitoral para mulheres | 30% obrigatório por lei | Garantir aplicação efetiva no MDB-MS |
| Filiadas ativas no MDB-CG | Dado não divulgado | Ampliar base feminina do partido |
A formação de lideranças femininas tem efeito cascata. Mulheres que passam por programas de capacitação política tendem a se engajar em conselhos municipais, associações de bairro e movimentos sociais, mesmo que não disputem eleições. O fortalecimento da participação feminina na base do partido pode, no médio prazo, alterar a composição das chapas proporcionais e a dinâmica interna das convenções.
Para o eleitor em geral, a diversidade de representação melhora a qualidade das decisões legislativas. Câmaras e assembleias compostas majoritariamente por homens tendem a negligenciar pautas que afetam desproporcionalmente mulheres — como a rede de proteção contra violência doméstica, que em Campo Grande opera com déficit de vagas em casas-abrigo e demora no atendimento de medidas protetivas.
O Que Dizem os Envolvidos
Carla Bernal discursou na posse com tom pragmático. Evitou promessas grandiosas e focou no trabalho de base:
"Não estamos aqui para fazer discurso bonito. Estamos aqui para formar mulheres que saibam disputar eleição de verdade — com proposta, com estrutura, com dinheiro de campanha. A cota de 30% não pode ser preenchida com nomes que não têm chance."
Maritza Cogo, vice-presidente, reforçou a necessidade de articulação com outros partidos:
"A pauta da mulher na política não é do MDB. É de todas as siglas. Vamos dialogar com outros núcleos femininos para construir agenda comum. Sozinhas, não mudamos a estatística."
Dirigentes do MDB estadual presentes na solenidade evitaram mencionar Simone Tebet. A ausência do nome da ex-senadora nos discursos foi notada por jornalistas e filiados. A leitura é de que o partido tenta virar a página sem reabrir feridas — a saída de Simone ainda gera desconforto entre militantes que a acompanharam por anos.
A reportagem procurou a assessoria de Simone Tebet para comentar a reorganização do MDB Mulher em Campo Grande. Não houve resposta até o fechamento desta publicação. Desde que deixou o partido, a ex-senadora tem evitado declarações sobre o MDB e concentrado suas manifestações públicas em temas do Ministério do Planejamento.
Representantes de movimentos de mulheres que compareceram à posse elogiaram a iniciativa, mas cobraram resultados concretos. Uma das presentes, que pediu para não ser identificada, resumiu a expectativa: "Já vimos muita posse de núcleo feminino que não deu em nada. Queremos ver candidatas eleitas, não fotos de evento."
Próximos Passos
O MDB Mulher de Campo Grande deve realizar seu primeiro evento de formação política até junho de 2026. O formato previsto é uma oficina de dois dias, com temas como legislação eleitoral, prestação de contas de campanha, comunicação política e uso de redes sociais. A ideia é preparar mulheres que pretendem disputar as eleições de 2026 como candidatas a deputada estadual ou federal.
A captação de novas filiadas é prioridade imediata. Carla Bernal pretende visitar bairros periféricos de Campo Grande para apresentar o MDB Mulher a lideranças comunitárias que ainda não têm vínculo partidário. A estratégia é identificar mulheres com atuação em associações de moradores, conselhos de saúde e educação, e movimentos religiosos — perfis que têm base eleitoral própria e podem se tornar candidatas viáveis.
A convenção municipal do MDB em Campo Grande, prevista para o segundo semestre de 2026, será o primeiro teste de força do núcleo feminino. Se Carla Bernal conseguir emplacar nomes de mulheres em posições competitivas na chapa proporcional, o MDB Mulher terá demonstrado capacidade de influência real. Se as vagas forem preenchidas por indicações de caciques masculinos, o núcleo terá sido apenas decorativo.
No plano estadual, o MDB enfrenta o desafio de definir posição para as eleições de 2026 sem sua principal liderança. A ausência de Simone Tebet obriga o partido a buscar novos nomes para cargos majoritários — e a reorganização do MDB Mulher pode ser o caminho para revelar candidatas que ainda não estão no radar da imprensa e dos analistas políticos.
A pressão nacional por mais mulheres na política tende a se intensificar à medida que o calendário eleitoral avança. O TSE já sinalizou que a fiscalização sobre candidaturas fictícias será ainda mais rigorosa em 2026. Partidos que não investirem de verdade em candidaturas femininas correm o risco de ter chapas impugnadas — o que transforma a pauta de gênero de questão ideológica em questão de sobrevivência eleitoral.
Fechamento
A posse de Carla Bernal no MDB Mulher de Campo Grande é um passo organizacional, não uma transformação. O partido perdeu Simone Tebet e precisa reconstruir sua presença feminina em MS. O núcleo feminino pode ser o instrumento dessa reconstrução — ou pode se tornar mais um órgão partidário que existe no estatuto e desaparece no cotidiano.
O que diferencia um cenário do outro é execução. Formar lideranças exige investimento de tempo, dinheiro e capital político. Lançar candidatas competitivas exige enfrentar resistências internas de dirigentes que preferem reservar as vagas mais disputadas para aliados homens. Carla Bernal terá de provar que o MDB Mulher de Campo Grande é mais do que uma solenidade de posse com fotos para redes sociais. O prazo é curto: as convenções de 2026 estão a menos de quatro meses.
Fontes e Referências
- Campo Grande News (campograndenews.com.br)
- TSE — Tribunal Superior Eleitoral (tse.jus.br)
- Ipea — Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (ipea.gov.br)
