Cerca de 100 lideranças da federação PT-PV-PCdoB se reuniram na sede da Federação dos Trabalhadores em Educação de Mato Grosso do Sul (Fetems), em Campo Grande, na sexta-feira (11 de abril de 2026). O motivo: a visita do presidente nacional do PT, Edinho Silva, que veio ao estado para costurar os palanques do partido nas eleições de outubro.
A reunião ampliada do Diretório Estadual serviu como ponto de partida para a consolidação de duas pré-candidaturas que o partido trata como definitivas — Fábio Trad ao governo e Vander Loubet ao Senado. Edinho Silva trouxe de Brasília uma mensagem clara: o PT quer "palanques consistentes" em todos os estados, e Mato Grosso do Sul não será exceção.
O Que Aconteceu
O encontro na Fetems durou toda a manhã e reuniu dirigentes municipais, vereadores, deputados e militantes da federação PT-PV-PCdoB de diversas regiões do estado. A deputada federal Camila Jara e a secretária nacional de Políticas para as Mulheres, Cida Gonçalves, estiveram presentes e participaram das discussões sobre composição de chapa e estratégia eleitoral.
Edinho Silva abriu os trabalhos com um panorama nacional. Segundo relatos de participantes, o presidente do PT enfatizou que o partido precisa construir candidaturas competitivas nos estados onde historicamente tem desempenho fraco — e MS se encaixa nesse perfil. Nas duas últimas eleições estaduais, o PT lançou candidatos ao governo que não passaram de candidaturas "para marcar posição", sem competitividade real.
A meta traçada para 2026 é diferente: alcançar 30% dos votos no primeiro turno e forçar um segundo turno contra o governador Eduardo Riedel (PP), que busca a reeleição. Para isso, o partido aposta em uma estratégia que seus dirigentes chamam de "desideologização" da campanha — menos bandeiras nacionais, mais foco em problemas concretos do estado.
Fábio Trad, que discursou após Edinho Silva, detalhou os quatro eixos que pretende adotar na campanha: saúde, segurança, educação e infraestrutura viária. São temas que atravessam o espectro ideológico e que, na avaliação do pré-candidato, permitem ao PT dialogar com o eleitorado conservador do interior sem abrir mão de sua base tradicional.
Contexto e Histórico
O PT nunca governou Mato Grosso do Sul. Em mais de quatro décadas de existência, o partido jamais conseguiu eleger um governador no estado, que é dominado por forças de centro-direita desde a redemocratização. O melhor desempenho petista em eleições estaduais foi a candidatura de Delcídio do Amaral ao Senado em 2002, quando o partido surfou na onda da primeira eleição de Lula à Presidência.
Nas eleições de 2022, o PT lançou candidato ao governo que obteve votação inexpressiva, terminando em quarto lugar. Para o Senado, o partido não apresentou candidatura própria, apoiando um nome de outra legenda.
A vinda de Edinho Silva a Campo Grande sinaliza uma mudança de postura. O presidente nacional do PT tem percorrido estados considerados "difíceis" para o partido, buscando montar chapas que ao menos forcem segundo turno nas disputas pelo governo. A lógica é que, mesmo sem vencer, candidaturas competitivas ao governo puxam votos para as chapas proporcionais — deputados federais e estaduais — e ajudam a eleger senadores.
| Eleição | Candidato PT ao governo de MS | Resultado |
|---|---|---|
| 2018 | Candidatura de marcação | 4º lugar |
| 2022 | Candidatura de marcação | 4º lugar |
| 2026 | Fábio Trad (pré-candidato) | Meta: 2º turno |
A federação PT-PV-PCdoB, formalizada junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), permite que os três partidos operem como uma única legenda nas eleições. Na prática, isso amplia o tempo de propaganda eleitoral gratuita e o acesso ao fundo eleitoral, dois recursos escassos para partidos de esquerda em estados conservadores.
O debate sobre o 8º Congresso Nacional do PT também entrou na pauta da reunião em Campo Grande. O congresso, previsto para o segundo semestre de 2026, definirá as diretrizes nacionais do partido para o ciclo eleitoral — e os delegados de MS terão voz nesse processo.
Impacto Para a População
A montagem do palanque petista em MS tem consequências diretas para o eleitor, mesmo para quem não vota no PT. Uma candidatura competitiva ao governo obriga todos os concorrentes a apresentarem propostas mais detalhadas e a debaterem temas que, numa eleição sem oposição forte, seriam ignorados.
| Aspecto | Cenário sem PT competitivo | Cenário com PT competitivo |
|---|---|---|
| Debate público | Riedel caminha para reeleição sem confronto | Obrigado a defender gestão em debates e sabatinas |
| Propostas para saúde | Pauta definida pelo governo | Oposição pressiona com alternativas |
| Fundo eleitoral | Concentrado na base governista | Distribuído entre mais candidatos |
| Chapas proporcionais | Menos opções para o eleitor | Mais candidatos a deputado de diferentes espectros |
| Fiscalização | Oposição fraca não cobra resultados | Oposição forte cobra prestação de contas |
Para o eleitorado do interior, a estratégia de "regionalização" da chapa — com candidatos a deputado em todas as grandes cidades — pode significar mais opções na urna. Municípios que hoje têm apenas candidatos da base governista passariam a contar com alternativas de oposição.
A presença de Cida Gonçalves na reunião e a declaração de Vander Loubet sobre incluir uma mulher na suplência do Senado indicam que o PT pretende usar a composição da chapa como instrumento de representatividade. Se concretizada, seria a primeira vez que o partido lança uma chapa ao Senado em MS com mulher na suplência.
O custo dessa operação eleitoral, porém, recai sobre o contribuinte. O fundo eleitoral — composto por recursos públicos — financiará as campanhas de todos os partidos, incluindo o PT. Quanto mais competitiva a candidatura, maior a fatia do fundo destinada ao estado.
O Que Dizem os Envolvidos
Edinho Silva foi direto ao explicar o que espera do PT em Mato Grosso do Sul:
"Queremos palanques consistentes. Não viemos aqui para marcar posição. Viemos para disputar."
A frase resume a mudança de tom do partido em relação a MS. Nas eleições anteriores, a direção nacional tratava o estado como território perdido, destinando recursos mínimos e candidaturas simbólicas.
Fábio Trad, por sua vez, deixou claro que pretende se distanciar da imagem tradicional do PT:
"Minha campanha vai falar de saúde, segurança, educação e estrada. O eleitor de MS quer saber se o hospital funciona, se a escola tem professor e se a rodovia tem asfalto. É nisso que vou focar."
Vander Loubet, articulador experiente com décadas de atuação no Congresso, falou sobre a composição da chapa ao Senado:
"As chapas estão praticamente definidas. Agora é fase de consolidação. Queremos regionalizar, ter candidaturas fortes nas maiores cidades e incluir uma mulher na suplência."
A deputada Camila Jara, que tem se destacado como uma das vozes mais ativas da bancada federal de MS, participou das discussões mas não fez declarações públicas sobre eventual candidatura própria em 2026.
Próximos Passos
- O PT de MS realizará convenção estadual entre julho e agosto de 2026 para oficializar as candidaturas de Fábio Trad ao governo e Vander Loubet ao Senado.
- A federação PT-PV-PCdoB definirá as chapas proporcionais — candidatos a deputado federal e estadual — nas próximas semanas, com foco em candidaturas regionalizadas.
- O 8º Congresso Nacional do PT, previsto para o segundo semestre, estabelecerá as diretrizes nacionais que orientarão a campanha em todos os estados.
- Edinho Silva deve retornar a MS pelo menos mais uma vez antes das convenções para avaliar o andamento das articulações.
- A definição da suplência ao Senado — com a inclusão de uma mulher, conforme anunciado por Loubet — será negociada internamente nas próximas reuniões do diretório estadual.
Fechamento
A visita de Edinho Silva a Campo Grande marca o momento em que o PT deixa de tratar Mato Grosso do Sul como território hostil e passa a encará-lo como campo de disputa real. Se a estratégia de desideologização funcionará num estado onde o partido nunca governou, só outubro dirá. O que já mudou é o tom: pela primeira vez em pelo menos três ciclos eleitorais, o PT fala em vencer — ou, no mínimo, em forçar um segundo turno que obrigue o poder estabelecido a se explicar.
Fontes e Referências
- Campo Grande News (campograndenews.com.br) — "Edinho Silva vem a MS montar palanque do PT para eleições de 2026", 11 de abril de 2026
- Tribunal Superior Eleitoral (tse.jus.br) — Registro da federação PT-PV-PCdoB
