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Governo envia à Assembleia projeto de zoneamento do Pantanal que libera pecuária em 40% do bioma

Proposta define áreas de preservação integral, uso sustentável e produção agropecuária. Ambientalistas criticam percentual de liberação; ruralistas pedem mais.

Redação Bastidor Público29 de março de 202610 min de leituraCampo Grande1321 palavras
Vista aérea do Pantanal com áreas de vegetação nativa e pastagem — Foto: Imasul/Divulgação
Vista aérea do Pantanal com áreas de vegetação nativa e pastagem — Foto: Imasul/Divulgação

Governo envia projeto de zoneamento do Pantanal à Assembleia

O governador Eduardo Riedel enviou na sexta-feira (28) à Assembleia Legislativa o projeto de lei que estabelece o Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE) do Pantanal sul-mato-grossense — documento que definirá, pela primeira vez, quais áreas do bioma podem ser usadas para produção agropecuária e quais devem ser preservadas integralmente. A proposta divide os 89 mil km² de Pantanal em MS em três zonas: preservação integral (35%), uso sustentável (25%) e produção agropecuária (40%).

O projeto é resultado de 2 anos de estudos técnicos coordenados pelo Imasul (Instituto de Meio Ambiente de MS) com participação da UFMS, Embrapa Pantanal e organizações ambientalistas. A tramitação na Assembleia deve levar de 3 a 6 meses, com audiências públicas obrigatórias em Corumbá, Miranda, Aquidauana e Porto Murtinho.

A proposta já gera polêmica antes mesmo da votação. Ambientalistas consideram que 40% de liberação para pecuária é excessivo e ameaça a integridade do bioma. Ruralistas argumentam que 40% é insuficiente e que a pecuária pantaneira é sustentável por natureza. O governo tenta equilibrar os dois lados — tarefa que, nos bastidores, é descrita como "impossível".

As Três Zonas

O ZEE divide o Pantanal de MS em:

Zona Área (km²) % do total Atividades permitidas Restrições
Preservação Integral 31.150 35% Pesquisa, turismo de observação Proibida qualquer atividade produtiva
Uso Sustentável 22.250 25% Turismo, pesca, extrativismo Pecuária limitada a 1 cabeça/5 ha
Produção Agropecuária 35.600 40% Pecuária extensiva, aquicultura Reserva legal de 50%, sem desmatamento novo

A zona de preservação integral (35%) inclui as áreas mais sensíveis: nascentes, matas ciliares, habitats de espécies ameaçadas e terras indígenas. A zona de uso sustentável (25%) permite atividades de baixo impacto com limites rígidos. A zona de produção (40%) libera pecuária extensiva — atividade tradicional do Pantanal — mas proíbe desmatamento novo e exige manutenção de 50% de reserva legal.

Contexto

O Pantanal é o único bioma brasileiro sem zoneamento ecológico-econômico. A Amazônia tem o ZEE desde 2010, o Cerrado desde 2014 e a Mata Atlântica desde 2006. A ausência de zoneamento no Pantanal significa que não há regra clara sobre o que pode e o que não pode ser feito — situação que gera conflitos entre produtores, ambientalistas e órgãos de fiscalização.

A pecuária pantaneira é atividade centenária que coexiste com o bioma há gerações. Diferentemente da pecuária intensiva do cerrado, a pecuária do Pantanal é extensiva — com baixa densidade de animais por hectare e manejo adaptado ao ciclo de cheias. Ambientalistas reconhecem que a pecuária pantaneira tradicional é compatível com a preservação; o problema é a intensificação — aumento do rebanho, drenagem de áreas alagadas e conversão de vegetação nativa em pastagem plantada.

Os incêndios de 2024 (1,2 milhão de hectares) e 2026 (85 mil hectares em janeiro) aceleraram a discussão sobre o zoneamento. Sem regras claras, não há como responsabilizar quem desmata ou drena áreas sensíveis — e não há como proteger quem pratica pecuária sustentável.

Nos bastidores, a negociação do ZEE envolveu 18 meses de reuniões entre governo, ruralistas e ambientalistas. O percentual de 40% para produção foi o ponto mais disputado: a Famasul pedia 55%, o WWF-Brasil pedia 25%. O governo optou por 40% como "ponto médio" — decisão que desagrada ambos os lados, mas que tem sustentação técnica nos estudos do Imasul.

Impacto no Bolso do Cidadão

O zoneamento do Pantanal tem efeitos econômicos de longo prazo:

  • Pecuária: os 35.600 km² liberados para produção comportam rebanho de até 2,8 milhões de cabeças (atual: 3,4 milhões). A redução de 600 mil cabeças custaria R$ 1,8 bilhão em valor de mercado aos pecuaristas — mas o governo promete programa de compensação
  • Turismo: a zona de preservação integral (35%) e uso sustentável (25%) protegem os atrativos turísticos que geram R$ 280 milhões/ano. Sem zoneamento, a degradação ameaçaria essa receita
  • Incêndios: áreas zoneadas com regras claras de manejo reduzem o risco de incêndios em 40%, segundo estudo da Embrapa. A economia em combate a incêndios seria de R$ 35 milhões/ano
  • Crédito de carbono: áreas de preservação integral podem gerar créditos de carbono estimados em R$ 120 milhões/ano — receita nova que compensaria parcialmente a restrição à pecuária
  • Segurança jurídica: o zoneamento dá previsibilidade a produtores e investidores. Propriedades em zona de produção valorizam 15% a 20% com a segurança jurídica; propriedades em zona de preservação podem desvalorizar 30% a 40%

O Que Dizem as Partes

O secretário de Meio Ambiente declarou que "o ZEE é o documento mais importante para o futuro do Pantanal. Pela primeira vez, teremos regras claras que protegem o bioma e dão segurança ao produtor. O equilíbrio de 35-25-40 é sustentado por ciência, não por política".

O presidente da Famasul criticou o percentual. "40% para produção é insuficiente. A pecuária pantaneira é sustentável há 200 anos. Restringir 60% do bioma é punir quem preservou — porque foi o pecuarista que manteve o Pantanal de pé, não o ambientalista de escritório".

O coordenador do WWF-Brasil em MS declarou que "40% de liberação para pecuária é excessivo para um bioma que perdeu 12% de cobertura vegetal na última década. O Pantanal precisa de pelo menos 45% de preservação integral para manter seus serviços ecossistêmicos — regulação hídrica, biodiversidade, sequestro de carbono".

O pesquisador da Embrapa Pantanal avaliou que "o ZEE proposto é tecnicamente sólido. O percentual de 40% para produção é compatível com a capacidade de suporte do bioma, desde que as regras de manejo sejam cumpridas — especialmente a proibição de desmatamento novo e a manutenção de 50% de reserva legal".

Análise do Bastidor Público

O zoneamento do Pantanal é a decisão ambiental mais importante de MS em décadas. Acertar significa proteger o bioma e dar segurança ao produtor. Errar significa ou destruir o Pantanal (se liberar demais) ou inviabilizar a pecuária tradicional (se restringir demais).

O percentual de 40% para produção é defensável tecnicamente, mas a implementação será o teste real. Regras no papel não protegem bioma — fiscalização protege. E o Imasul opera com 15 fiscais para 89 mil km² de Pantanal. Sem reforço na fiscalização, o zoneamento será mais uma lei bonita que ninguém cumpre.

O crédito de carbono é a oportunidade mais promissora. Se MS conseguir monetizar a preservação do Pantanal via mercado de carbono, a equação muda: preservar passa a ser mais lucrativo que desmatar. Mas o mercado de carbono no Brasil ainda é incipiente, e a regulamentação está em discussão no Congresso.

Próximos Passos

  • Audiências públicas: abril a junho de 2026
  • Votação na Assembleia: segundo semestre de 2026
  • Regulamentação (se aprovado): 12 meses após sanção
  • Programa de compensação a pecuaristas: a definir
  • Estudo de viabilidade de créditos de carbono: em andamento

Perguntas Frequentes

O que é o zoneamento do Pantanal?

É um documento legal que divide os 89 mil km² de Pantanal em MS em três zonas: preservação integral (35%), uso sustentável (25%) e produção agropecuária (40%). Define quais atividades são permitidas em cada zona e estabelece regras de manejo. É o primeiro zoneamento ecológico-econômico do Pantanal na história.

O zoneamento vai proibir a pecuária no Pantanal?

Não integralmente. A zona de produção (40% do bioma) permite pecuária extensiva com regras: proibição de desmatamento novo, manutenção de 50% de reserva legal e limite de densidade animal. A zona de uso sustentável (25%) permite pecuária limitada. Apenas a zona de preservação integral (35%) proíbe atividade produtiva. O rebanho atual de 3,4 milhões de cabeças pode precisar ser reduzido para 2,8 milhões.

Quando o zoneamento entra em vigor?

O projeto foi enviado à Assembleia em março de 2026. Audiências públicas estão previstas para abril a junho. A votação deve ocorrer no segundo semestre. Se aprovado e sancionado, a regulamentação leva 12 meses. O zoneamento efetivo deve entrar em vigor entre 2027 e 2028.


Fontes: Secretaria de Estado de Meio Ambiente de MS, Imasul, Embrapa Pantanal, UFMS, Famasul, WWF-Brasil, Assembleia Legislativa de MS

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Atualizado em 30 de março de 2026 às 00:00
Fonte: Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento de MS
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Redação Bastidor Público

Equipe Editorial

Equipe de jornalistas do Bastidor Público MS dedicada à cobertura política e institucional de Mato Grosso do Sul.

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