O Que Aconteceu
A rede hoteleira de Campo Grande atingiu 86% de ocupação nesta quinta-feira (9), puxada pelo primeiro show do Guns N' Roses na capital de Mato Grosso do Sul. O levantamento é da Semades (Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Gestão Urbana e Desenvolvimento Econômico, Turístico e Sustentável), que monitora a taxa de ocupação em períodos de grandes eventos na cidade.
Na véspera, quarta-feira (8), o índice marcava 63%. Para sexta-feira (10), a previsão já apontava queda para 45% — comportamento típico de eventos concentrados em data única, quando o público chega na véspera e parte no dia seguinte.
O espetáculo acontece no Autódromo Internacional de Campo Grande, com expectativa de reunir mais de 30 mil pessoas. A abertura ficou por conta dos Raimundos, que desembarcaram na manhã desta quinta no Aeroporto Internacional de Campo Grande. A turnê "Because What You Want and What You Get Are Two Completely Different Things" incluiu a capital sul-mato-grossense no roteiro brasileiro após ampliação das datas no país, anunciada em dezembro de 2025.
O que chama atenção não é apenas o show em si, mas a coincidência com a abertura da 86ª Expogrande, a maior feira agropecuária do estado. Dois eventos de grande porte no mesmo dia, na mesma cidade, com públicos parcialmente sobrepostos. O resultado: hotéis lotados, restaurantes com fila e aplicativos de transporte com tarifa dinâmica desde o início da tarde.
Contexto e Histórico
Campo Grande não é uma cidade acostumada a receber turnês internacionais de rock. A última vez que um artista de porte comparável ao Guns N' Roses tocou na capital foi em 2019, quando o Iron Maiden se apresentou para cerca de 25 mil pessoas no mesmo Autódromo Internacional. Antes disso, a cidade recebeu o Metallica em 2014, em show que reuniu público semelhante. O intervalo entre grandes atrações internacionais expõe uma lacuna que a gestão municipal tenta preencher desde 2023, quando a Semades passou a atuar como articuladora entre a prefeitura e produtoras de eventos.
A inclusão de Campo Grande no roteiro da turnê sul-americana do Guns N' Roses foi resultado de negociação entre a produtora responsável e o governo municipal, que ofereceu contrapartidas logísticas — apoio na montagem de infraestrutura viária e segurança pública. A Semades intermediou as tratativas desde o segundo semestre de 2025, quando a produtora sinalizou interesse em expandir a turnê para capitais fora do eixo Rio-São Paulo.
O Autódromo Internacional, localizado na saída para Ribas do Rio Pardo, tem capacidade para eventos de até 50 mil pessoas, mas a configuração escolhida para o show limitou a lotação a pouco mais de 30 mil, com áreas VIP, camarotes e setores de alimentação ocupando parte do espaço. O local já recebeu etapas de motocross, rodeios e festivais regionais, mas nunca uma banda internacional do calibre do Guns N' Roses.
A Expogrande, por sua vez, é evento consolidado no calendário do agronegócio nacional. A feira acontece desde 1940 e reúne leilões de gado, exposição de máquinas agrícolas, rodeio profissional e shows sertanejos. Na edição de 2025, movimentou R$ 650 milhões em negócios e recebeu 114 mil visitantes ao longo de 11 dias. Para 2026, a organização projeta superar esses números, impulsionada pela coincidência com o show do Guns N' Roses no dia de abertura.
A sobreposição de eventos não foi planejada. A Expogrande tem data fixa no calendário — sempre na segunda semana de abril — e a turnê do Guns N' Roses definiu o roteiro com base em disponibilidade de arenas e logística de deslocamento entre cidades. O encaixe foi acidental, mas o efeito econômico, multiplicado. Nos bastidores, a Acrissul (Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul) admitiu que a coincidência trouxe um público diferente para o Parque Laucídio Coelho — mais jovem e urbano do que o perfil tradicional da feira.
A capital sul-mato-grossense tem investido em infraestrutura para eventos desde a reforma do Autódromo em 2021, quando o espaço ganhou novo sistema de iluminação, estacionamento ampliado e área de alimentação permanente. O investimento, de cerca de R$ 8 milhões, foi bancado com recursos do Fundo Municipal de Turismo. A aposta era atrair exatamente o tipo de evento que chegou nesta quinta-feira.
Impacto Para a População
O salto de 23 pontos percentuais na ocupação hoteleira em um único dia traduz o peso de eventos de grande porte na economia local. Hotéis, pousadas, restaurantes, bares, postos de combustível e serviços de transporte por aplicativo registraram aumento de demanda desde a manhã de quarta-feira (8), quando os primeiros fãs começaram a chegar à cidade.
| Indicador | Véspera (8/abr) | Dia do show (9/abr) | Dia seguinte (10/abr) |
|---|---|---|---|
| Ocupação hoteleira | 63% | 86% | 45% (projeção) |
| Fluxo no Aeroporto | Normal | Acima da média | Acima da média |
| Trânsito na saída para Ribas do Rio Pardo | Normal | Congestionado | Normal |
| Tarifa dinâmica em apps de transporte | Não | Sim, a partir das 14h | Não |
| Movimento no comércio central | Normal | Acima da média | Normal |
Para o morador de Campo Grande, o impacto mais visível foi no trânsito. A PRF (Polícia Rodoviária Federal) definiu regras especiais para o tráfego de caminhões na rodovia entre a capital e Ribas do Rio Pardo, restringindo a circulação de veículos pesados em horários de pico de deslocamento para o Autódromo. A medida buscou evitar congestionamentos nas vias de acesso, que são de pista simples em boa parte do trecho. A operação mobilizou 12 agentes e quatro viaturas, com início às 14h e previsão de encerramento às 3h de sexta-feira (10).
Comerciantes da região central relataram aumento de movimento desde a véspera, com turistas circulando pela Rua 14 de Julho e pelo Mercado Municipal. Donos de bares na Rua Barão do Rio Branco — polo gastronômico da cidade — registraram faturamento acima da média para uma quarta-feira. Taxistas e motoristas de aplicativo relataram corridas para o Autódromo desde as 15h, com pico entre 17h e 19h.
O setor hoteleiro, que vinha de meses com ocupação média entre 40% e 55%, celebrou o pico. A Associação Brasileira da Indústria de Hotéis em Mato Grosso do Sul (ABIH-MS) já havia alertado, em nota divulgada na semana anterior, que a combinação de show e Expogrande poderia gerar escassez de quartos na faixa econômica. Hotéis de três e quatro estrelas esgotaram reservas com antecedência de até duas semanas. Pousadas e hostels da região central também reportaram lotação máxima.
O impacto no emprego temporário merece registro. A montagem da estrutura do show mobilizou cerca de 200 trabalhadores durante cinco dias, entre técnicos de som, iluminação, segurança privada e equipe de limpeza. A Expogrande, por sua vez, gera em torno de 3 mil postos temporários a cada edição, entre montadores, vendedores, seguranças e equipe de apoio. Somados, os dois eventos injetaram renda direta em milhares de famílias campo-grandenses que dependem de trabalho sazonal.
Moradores das imediações do Autódromo relataram incômodo com o barulho e o trânsito intenso, especialmente na Avenida Duque de Caxias e na rotatória de acesso à BR-262. A prefeitura reforçou a sinalização viária e deslocou agentes da Agetran (Agência Municipal de Transporte e Trânsito) para os pontos de maior fluxo a partir das 16h.
O Que Dizem os Envolvidos
A prefeita Adriane Lopes (PP) destacou que o crescimento na taxa de ocupação reforça a estratégia de posicionar Campo Grande como polo de turismo de eventos no Centro-Oeste.
"Campo Grande está se consolidando como uma cidade capaz de receber grandes eventos. A ocupação hoteleira de 86% mostra que temos estrutura e que o turista quer vir para cá", afirmou a prefeita em entrevista à imprensa local.
O secretário municipal Ademar Silva Junior, titular da Semades, disse que o monitoramento em tempo real da ocupação hoteleira permite à prefeitura medir o retorno econômico de cada evento e calibrar investimentos futuros em infraestrutura turística.
"Estamos acompanhando os números hora a hora. Isso nos dá base para negociar com produtoras e mostrar que Campo Grande entrega resultado", declarou o secretário.
A organização da Expogrande, por meio da Acrissul, informou que a coincidência com o show trouxe um público diferente para o Parque Laucídio Coelho no dia de abertura. A expectativa é que parte desse público retorne nos dias seguintes para conferir a programação de rodeio e shows sertanejos. O presidente da Acrissul afirmou que a feira registrou movimento acima do esperado já nas primeiras horas de funcionamento.
A PRF, em nota, informou que a operação especial de trânsito transcorreu sem ocorrências graves. Houve lentidão no trecho entre o trevo de acesso ao Autódromo e a rotatória da BR-262 entre 17h e 19h30, mas sem acidentes registrados. A restrição a caminhões foi cumprida integralmente.
Representantes do setor hoteleiro ouvidos pela reportagem afirmaram que a demanda superou a capacidade de absorção da rede. Pelo menos três hotéis da região central redirecionaram hóspedes para estabelecimentos parceiros em bairros mais afastados, como o Tiradentes e o Jardim dos Estados.
Próximos Passos
A Expogrande segue até 19 de abril, com programação diária que inclui leilões, exposições e shows noturnos. A organização espera que o fluxo de visitantes se mantenha acima de 10 mil pessoas por dia ao longo da feira, com picos nos finais de semana. A programação de rodeio começa na segunda semana, tradicionalmente o período de maior público.
A Semades vai divulgar, até o fim de abril, um balanço completo do impacto econômico do show do Guns N' Roses, incluindo estimativa de receita gerada em hospedagem, alimentação, transporte e comércio. O relatório será usado como base para negociações com outras produtoras de eventos internacionais que já sinalizaram interesse em incluir Campo Grande em roteiros de turnê.
A prefeitura estuda a criação de um calendário unificado de grandes eventos, integrando a Semades, a Fundação de Cultura e a Acrissul, para evitar sobreposições indesejadas e, quando possível, potencializar coincidências como a desta semana. A proposta deve ser apresentada ao prefeito até junho de 2026.
No plano estadual, o governo de Mato Grosso do Sul acompanha os números com interesse. A Secretaria de Turismo (Setesc) já havia incluído Campo Grande no programa "MS Turístico", que oferece incentivos fiscais para empresas do setor de eventos que realizem pelo menos duas produções por ano no estado. O programa prevê isenção parcial de ICMS sobre ingressos e redução de taxas de alvará para eventos com mais de 10 mil pessoas.
A próxima grande atração confirmada para o Autódromo Internacional é o festival de música eletrônica previsto para julho de 2026, com line-up ainda em definição. A expectativa é de público entre 15 mil e 20 mil pessoas. A Semades negocia ainda a vinda de pelo menos mais uma atração internacional para o segundo semestre, mas não revelou nomes.
Fechamento
Campo Grande testou, em uma única quinta-feira, sua capacidade de absorver dois eventos de grande porte simultaneamente. O resultado — hotéis lotados, trânsito congestionado, comércio aquecido — expõe tanto o potencial quanto os gargalos da infraestrutura urbana. A cidade tem espaço para crescer no turismo de eventos, mas precisa resolver questões básicas: acesso viário ao Autódromo, transporte público em horários estendidos e oferta hoteleira na faixa econômica.
O Guns N' Roses veio, tocou e foi embora. O que fica é o dado: 86% de ocupação não acontece por acaso. Acontece quando a cidade se organiza — ou quando dois eventos caem no mesmo dia e a demanda simplesmente ultrapassa a oferta. A Expogrande segue por mais dez dias, e o teste de fôlego da capital continua. Se a prefeitura conseguir transformar esses números em política pública de turismo, o show terá valido mais do que o ingresso.
Fontes e Referências
- Campo Grande News (campograndenews.com.br)
- Semades — Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Gestão Urbana e Desenvolvimento Econômico, Turístico e Sustentável
- Acrissul — Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul (acrissul.com.br)
- PRF — Polícia Rodoviária Federal, Superintendência em MS
- ABIH-MS — Associação Brasileira da Indústria de Hotéis em Mato Grosso do Sul
