O Brasil acordou neste sábado (24 de outubro de 2026), a exatas 24 horas da abertura das urnas eletrônicas para o segundo turno presidencial, imerso nas ondas de choque do último e mais assistido confronto televisivo da campanha. Realizado na noite de ontem (sexta-feira, 23/10) nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, sob mediação do jornalista César Tralli, o debate final entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) entregou um roteiro dramático dividido em dois atos: três blocos iniciais de embate controlado sob regras rígidas de palco e uma explosão emocional que dominou as redes sociais e o noticiário nacional e internacional nesta véspera de eleição.
Impulsionado pelo cenário de empate técnico absoluto nas pesquisas — com o Datafolha (TSE BR-09709/2026) cravado em 50% a 50% nos votos válidos —, o encontro alcançou números de audiência dignos de Copa do Mundo. Dados consolidados da prévia do Ibope na Grande São Paulo registraram média de 25 pontos e picos de 28 pontos (cada ponto representando cerca de 199 mil telespectadores apenas na praça paulista), confirmando que milhões de brasileiros acompanharam cada segundo da disputa até perto da meia-noite.
O efeito da "regra do púlpito" e a mudança de postura em relação ao debate da Band
A primeira vitória institucional da noite na TV Globo pertenceu ao novo desenho de regras negociado entre a emissora e os coordenadores das duas campanhas. Conforme detalhado na análise prévia sobre a chamada "regra antideboche" e o confinamento nos púlpitos, nos três primeiros blocos do programa o candidato que não estava com a palavra foi obrigado a permanecer parado junto ao seu púlpito, impedido de caminhar pelo estúdio.
A medida corrigiu diretamente o caos territorial ocorrido uma semana antes na TV Bandeirantes — cuja perícia forense realizada pelo sistema VeriTAK sobre os 114 turnos daquele debate havia documentado a invasão de espaço cênico por Flávio Bolsonaro aos 11m21s, o índice de 70,4% de evasão e contra-ataques e o colapso do cronômetro do candidato do PL aos 31m27s.
Sem a possibilidade de intimidação física pelas costas nos blocos iniciais da Globo, ambos os candidatos seguiram à risca o treinamento de suas salas de guerra na primeira metade do programa:
- Flávio Bolsonaro (PL) Adotou Tom Contido e Foco Fiscal: Orientado por aliados estratégicos como o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e o coordenador Rogério Marinho (PL-RN) a exibir temperamento de chefe de Estado para reduzir sua rejeição de 46%, o senador evitou gritar nos blocos iniciais, controlou o banco de tempo com precisão e concentrou sua artilharia na carestia dos alimentos, no endividamento público, na carga de impostos sobre empreendedores e em comparações econômicas com a Argentina;
- Lula (PT) Cadenciou a Voz e Defendeu Programas Sociais: Municiado pelos números de Fernando Haddad e pelo roteiro de Sidônio Palmeira, o presidente poupou sua voz nos primeiros blocos — evitando a estafa vocal precoce registrada na Band —, defendeu a ampliação do programa Pé-de-Meia, os reajustes reais do salário mínimo, obras de infraestrutura e a isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil, enquanto buscava explorar contradições do adversário na área de segurança pública.
| Indicador do Debate na TV Globo (23/10/2026) | Registro Factual e Desdobramento na Véspera (24/10) |
|---|---|
| Mediação e Local | Jornalista César Tralli, ao vivo dos Estúdios Globo (Rio de Janeiro) |
| Audiência (Ibope Grande São Paulo) | Média de 25 pontos com picos de 28 pontos (~199 mil pessoas por ponto em SP) |
| Dinâmica dos Blocos 1, 2 e 3 | Regra do púlpito conteve invasões de palco; foco em regiões, economia, saúde e segurança |
| Momento de Maior Tensão da Noite | Fala de Flávio sobre Lula tirar "com nove dedos", reação dura de Lula e pedido de desculpas |
| Eixo do Confronto em Segurança | Embate direto sobre atuação policial, combate ao crime organizado e acusações sobre milícias |
| Foco deste Sábado (24/10 — Últimas 24h) | Guerra de cortes no WhatsApp/TikTok e carreatas finais para conquistar os 2% de indecisos |
O choque dos "nove dedos", a reação furiosa de Lula e o pedido de desculpas ao vivo
O equilíbrio técnico e o tom relativamente civilizado dos três primeiros blocos romperam-se de forma dramática quando o confronto avançou para o embate direto sobre impostos, programas sociais e passado político.
Ao tentar emplacar uma frase de efeito contra a política econômica petista — argumentando que a inflação e os tributos corroem o poder de compra dos benefícios sociais —, o senador Flávio Bolsonaro disparou que o presidente Lula "dá com uma mão e tira com nove dedos".
A referência direta à deficiência física do presidente — que perdeu o dedo mínimo da mão esquerda aos 17 anos de idade, esmagado por uma prensa mecânica enquanto trabalhava como torneiro mecânico na metalúrgica Vilaema, em São Paulo — provocou o momento mais explosivo de toda a campanha de segundo turno.
Visivelmente indignado, Lula pediu a palavra, elevou o tom de voz e partiu para o contra-ataque frontal olhando diretamente para o adversário:
"Ele disse uma grande asneira e eu não vou levar para casa. Ele me chamou de nove dedos. Se tem alguém que sabe o que é o mundo do trabalho sou eu. Se tem alguém que perdeu o dedo com 17 anos, fui eu. Não vou permitir que um miliciano me chame de nove dedos, não vou permitir! Você vai ter que pedir desculpa."
Na mesma ofensiva, Lula dobrou a aposta no tema da segurança pública do Rio de Janeiro, relembrando episódios da atuação parlamentar da família Bolsonaro na Assembleia Legislativa fluminense (Alerj):
"Todo mundo assiste um discurso dele defendendo miliciano, oferecendo condecoração para miliciano..."
Nos bastidores dos Estúdios Globo, o alerta vermelho soou instantaneamente nas pesquisas qualitativas em tempo real (tracking groups) monitoradas pelas duas campanhas: entre eleitores indecisos de baixa renda e trabalhadores braçais, a piada com a amputação decorrente de um acidente de trabalho teve recepção imediata altamente negativa, sendo classificada como ataque capacitista e desrespeitoso ao trabalhador.
Percebendo o risco de perder votos preciosos na reta final, a equipe de Flávio Bolsonaro orientou a contenção imediata de danos. Ainda durante o debate, Flávio Bolsonaro recuou publicamente e pediu desculpas a Lula pelo uso da expressão dos "nove dedos", afirmando que utilizara uma figura de linguagem política sem intenção de ofender a condição física do presidente e tentando reconduzir o debate para os escândalos de corrupção, investigações envolvendo o entorno governista e o desequilíbrio das contas públicas.
A batalha final das equipes neste sábado (24/10): quem ganhou no pós-debate?
Assim que as luzes do estúdio se apagaram, o confronto transferiu-se para a guerra de pós-debate que domina este sábado (24/10) — o último dia em que a legislação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) permite caminhadas, carreatas, uso de carros de som e impulsionamento contratado antes do domingo de votação.
A avaliação de analistas políticos e das próprias salas de guerra mostra como cada equipe está operando nas últimas 24 horas:
1. Como joga a Equipe de Lula (PT) neste Sábado:
Para o comando da campanha petista — integrado por Sidônio Palmeira, Fernando Haddad, Geraldo Alckmin, Rui Costa, Gleisi Hoffmann e Simone Tebet, com o suporte dos governadores do Nordeste (Jerônimo Rodrigues, Elmano de Freitas e Rafael Fonteles) e do prefeito João Campos —, o episódio dos "nove dedos" entregou a Lula exatamente o gatilho emocional que faltava para mobilizar a base trabalhadora e reduzir a abstenção no domingo.
- A Estratégia de Cortes nas Redes e WhatsApp: Desde a madrugada deste sábado, os coletivos digitais governistas e as centrais sindicais dispararam milhões de cópias do vídeo de 45 segundos em que Lula reage dizendo "Se tem alguém que sabe o que é o mundo do trabalho sou eu, que perdi o dedo com 17 anos", conectando essa fala diretamente à defesa do fim da escala 6x1, ao aumento real do salário mínimo e ao programa Pé-de-Meia;
- Veredito dos Analistas: Parte expressiva do colunismo político avaliou que Lula levou vantagem por pontos no debate da Globo justamente porque conseguiu forçar o adversário a pedir desculpas ao vivo e manteve o controle da pauta social nos blocos decisivos.
2. Como joga a Equipe de Flávio Bolsonaro (PL) neste Sábado:
Na sala de guerra do candidato do PL — articulada por Rogério Marinho, Ciro Nogueira e Valdemar Costa Neto, sustentada nos estados pelos governadores Tarcísio de Freitas (SP), Romeu Zema (MG), Ratinho Júnior (PR), Ronaldo Caiado (GO) e Jorginho Mello (SC), além da senadora Tereza Cristina (PP-MS) no agro, Michelle Bolsonaro e Nikolas Ferreira nas redes —, a leitura estratégica foca na resiliência demonstrada por Flávio ao longo das mais de duas horas de programa.
- A Estratégia de Cortes nas Redes e WhatsApp: A rede coordenada por Nikolas Ferreira e pelos diretórios estaduais do PL inundou o TikTok, o Instagram e o WhatsApp neste sábado com os cortes dos três primeiros blocos, nos quais Flávio Bolsonaro aparece sereno, sem cair nas armadilhas de banco de tempo que o prejudicaram na Band, enquadrando Lula sobre o aumento de impostos, o custo dos alimentos e as investigações envolvendo figuras ligadas ao governo;
- O Uso do Pedido de Desculpas como Gesto de Humildade: Aliados de Flávio, incluindo integrantes do núcleo de Tarcísio de Freitas, sustentam junto ao eleitorado moderado e evangélico que o fato de Flávio ter pedido desculpas imediatamente no microfone — somado à indignação descontrolada de Lula ao usar o termo "miliciano" — mostra um candidato da direita mais maduro, humilde e preparado para pacificar o ambiente econômico em 2027.
Essa disputa palmo a palmo pelas narrativas digitais encerra uma semana marcada pela mais intensa cobertura analítica da imprensa brasileira, desde a repercussão inicial do confronto de 30 minutos na Band e o mapeamento completo dos exércitos de apoiadores estaduais de cada presidenciável.
Guia definitivo para o eleitor: o que esperar da votação deste domingo (25 de outubro)
Com o encerramento da propaganda neste sábado às 22h, a decisão passa integralmente para as mãos dos mais de 156 milhões de eleitores brasileiros aptos a votar neste domingo (25 de outubro de 2026).
Confira as regras oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para o dia da decisão:
- Horário Unificado de Votação (8h às 17h de Brasília): Assim como no primeiro turno, a abertura e o fechamento das seções eleitorais seguem o horário oficial de Brasília em todo o território nacional. Nos estados com fuso horário de menos uma hora em relação à capital federal — como Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Amazonas (maior parte), Rondônia e Roraima —, a votação ocorre das 7h às 16h no horário local;
- Documentos Aceitos na Seção Eleitoral: Para votar, basta apresentar um documento oficial com foto (RG/Carteira de Identidade Nacional, CNH, Passaporte, Carteira de Trabalho ou Carteira de Categoria Profissional) ou o aplicativo e-Título atualizado com fotografia (atenção: a emissão ou atualização da via digital do e-Título fica suspensa no domingo da eleição, devendo ser baixada no celular até às 23h59 deste sábado, 24/10);
- Proibição Absoluta de Celular na Cabine de Votação: É terminantemente proibido entrar na cabine da urna eletrônica portando aparelho celular, câmera fotográfica, filmadora ou radiocomunicador — mesmo desligados. O aparelho deve ser deixado na mesa receptora junto com o documento de identidade antes de caminhar até a urna;
- Transporte Público Gratuito e Segurança Reforçada: Capitais e grandes municípios de todo o país — incluindo Campo Grande, Dourados, Corumbá, Ponta Porã e Três Lagoas em Mato Grosso do Sul — operarão com tarifa zero nos ônibus urbanos para combater a abstenção;
- Apuração em Tempo Real a partir das 17h (Brasília): Como o segundo turno envolve exclusivamente um único voto na urna na maior parte do país (e dois votos apenas nos estados com segundo turno para governador), a totalização dos votos pelo supercomputador do TSE em Brasília será ainda mais veloz que a do primeiro turno, com expectativa de definição matemática do próximo Presidente da República entre 19h e 20h30 (horário de Brasília) deste domingo.




