O ex-governador de Goiás e um dos principais nomes da oposição para a disputa presidencial de 2026, Ronaldo Caiado (PSD), levou a segurança pública para o centro das discussões sobre o futuro econômico do país durante sua participação na sabatina da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), realizada em Brasília. Com um discurso pragmático focado no combate enérgico às organizações criminosas, Caiado defendeu a tese de que sem o resgate da segurança pública e da soberania do Estado sobre os territórios dominados por facções, não há espaço para crescimento sustentável, atração de investimentos ou segurança jurídica para o comércio e o setor produtivo nacional.
Em sua apresentação, que faz parte da rodada de debates da CNC com pré-candidatos à Presidência, o político goiano buscou nacionalizar o debate em torno do modelo de segurança implantado em Goiás durante seus dois mandatos como governador. Ao defender a implantação de uma política nacional de "tolerância zero", Caiado ressaltou a necessidade de uma atuação integrada de inteligência e controle de fronteiras como medida emergencial para impedir que a soberania nacional continue sendo erodida por facções que controlam o tráfico de drogas, o contrabando de armas e o mercado informal.
A retórica de Caiado centrou-se no alerta contra a "mexicanização" do Brasil, fenômeno no qual o poder paralelo das grandes facções deixa de ser apenas uma questão de criminalidade comum para se transformar em um poder político estruturado, capaz de capturar órgãos estatais, disputar prefeituras e controlar setores inteiros da economia legítima. Para o ex-governador, esta é a maior ameaça à democracia brasileira, sobrepondo-se aos debates econômicos e fiscais tradicionais que costumam pautar as campanhas presidenciais.
O Que Aconteceu
Na reunião da CNC em Brasília, Ronaldo Caiado apresentou suas diretrizes para a segurança pública e a governabilidade do Brasil, caso venha a disputar e vencer o pleito de 2026. Diante de uma plateia composta por líderes do comércio varejista, empresários do setor de turismo e presidentes de federações estaduais do comércio, ele foi taxativo ao apontar que o atual governo federal vem falhando em conter a escalada da violência urbana e a expansão geográfica do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV).
Caiado propôs a formalização de um pacto federativo de segurança pública com tolerância zero contra crimes violentos e corrupção sistêmica. Segundo o ex-governador, a proposta passa pela criação de um fundo financeiro estruturado que possa garantir o reequipamento das polícias militares e civis em nível nacional, sem retirar a autonomia operacional dos governos estaduais. Para ele, projetos federais centralizadores, como a proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública do governo federal, são ineficazes porque tentam engessar a atuação local das forças policiais, em vez de focar no controle de fronteiras, que é competência constitucional exclusiva da União.
O principal ponto de preocupação manifestado por Caiado reside na infiltração das facções criminosas na atividade econômica formal. O pré-candidato explicou que as quadrilhas deixaram de ser apenas vendedoras de entorpecentes em favelas e periferias. Hoje, as organizações lavam capitais comprando redes de postos de combustíveis, cooperativas de transporte, construtoras e adquirindo grandes extensões de terras agrícolas. Essa infiltração gera uma concorrência desleal para o empresário legítimo e destrói o ambiente de negócios.
Contexto e Histórico
A pauta da segurança pública consolidou-se como o principal ativo político de Ronaldo Caiado desde a sua reeleição em Goiás no ano de 2022. O estado, que historicamente convivia com índices elevados de criminalidade em regiões metropolitanas como Goiânia e o Entorno do Distrito Federal, passou por uma reestruturação de suas forças policiais durante a gestão de Caiado, com forte investimento em policiamento ostensivo, serviço de inteligência e repressão severa a quadrilhas de roubo de cargas e assaltos a agências bancárias, modalidade que ficou conhecida como "novo cangaço".
A segurança pública em Goiás tornou-se referência nacional entre os setores de direita e centro-direita, sendo usada pelo governador como vitrine para se cacifar eleitoralmente em nível federal. A redução expressiva de homicídios e roubos no território goiano é o cartão de visitas apresentado por Caiado para justificar sua viabilidade política em 2026, competindo pelo espólio eleitoral do eleitorado conservador que prioriza o combate direto ao crime.
No panorama latino-americano, o debate sobre a segurança pública ganhou contornos mais profundos com o avanço do crime organizado transnacional. O termo "mexicanização", empregado por Caiado, refere-se ao processo histórico vivido pelo México a partir da década de 1990, quando os cartéis de drogas superaram a capacidade de resposta das forças policiais locais e passaram a controlar rotas, extorquir empresários formais e assassinar candidatos que não se submetiam ao seu poder financeiro e bélico. Esse cenário difere do colapso puramente ideológico verificado na Venezuela, focando na falência das instituições públicas diante do poder financeiro ilícito do narcotráfico.
Impacto Para a População
O avanço das facções criminosas e a falta de segurança pública têm impacto direto e diário na vida e no bolso da população brasileira. O cidadão comum arca com taxas invisíveis aplicadas ao preço dos produtos para compensar os roubos de carga sofridos pelas transportadoras, além de arcar com o aumento dos custos em seguros de veículos e monitoramento de residências. O comércio local é asfixiado pela exigência de pagamento de taxas de segurança a milícias ou traficantes para que possam continuar de portas abertas.
Na esfera macroeconômica, o turismo, um dos maiores geradores de emprego e renda do Brasil, sofre com a fuga de visitantes estrangeiros assustados com a violência urbana crônica. O custo Brasil se eleva, afastando multinacionais e investidores que preferem aplicar recursos em nações com maior estabilidade institucional e menor risco físico aos seus colaboradores e patrimônios.
| Indicador Social e Econômico | Impacto Direto na População | Proposta de Solução de Caiado |
|---|---|---|
| Roubo de Carga | Aumento de até 15% nos custos do frete, encarecendo os alimentos nos supermercados | Integração das inteligências estaduais para rastreamento de quadrilhas de receptação |
| Monopólio Territorial | Cidadãos impedidos de acessar serviços básicos de saúde, internet e gás sem autorização do tráfico | Retomada territorial com policiamento de choque e ocupação permanente de pontos críticos |
| Lavagem de Dinheiro | Destruição do pequeno comércio legítimo devido a comércios de fachada que vendem sem lucro | Rastreamento bancário automático de transações suspeitas ligadas a laranjas e empresas fantasmas |
| Turismo Inviabilizado | Desemprego em massa no setor de serviços em capitais litorâneas e históricas | Criação de divisões policiais exclusivas para rotas turísticas e corridors econômicos |
| Custo de Segurança Privada | Condomínios e lojas gastam bilhões anuais com vigilância, onerando taxas residenciais e produtos | Redução do crime de rua com policiamento ostensivo, diminuindo a dependência de segurança particular |
O Que Dizem os Envolvidos
"Nós não estamos falando mais de assaltantes de banco de antigamente ou de pequenos traficantes de bairro. Estamos vivenciando a mexicanização do país, onde o dinheiro ilícito infiltra-se nas campanhas políticas, no Judiciário, nas prefeituras e nas atividades do comércio formal. Se não houver uma ação urgente e unificada, com tolerância zero, o Estado brasileiro perderá o controle de sua soberania territorial de forma definitiva", declarou Ronaldo Caiado durante o evento em Brasília.
Os representantes do setor comercial presentes no debate demonstraram forte preocupação com o encarecimento dos custos operacionais devido à criminalidade. A presidência da CNC destacou que o varejo brasileiro gasta anualmente bilhões de reais com segurança privada, seguros patrimoniais e reposição de mercadorias furtadas ou roubadas. Esses valores poderiam ser investidos em novas lojas, geração de empregos e inovação tecnológica se o Estado cumprisse seu papel constitucional de garantir a paz social.
Críticos de pautas focadas exclusivamente em repressão policial, contudo, apontam que propostas de tolerância zero correm o risco de ignorar a necessidade de reformas sociais estruturais e investimentos em educação e saúde para as áreas mais vulneráveis. Defensores do plano do governo federal argumentam que a unificação de diretrizes por meio da PEC da Segurança é o caminho legal para estabelecer padrões nacionais de atuação policial e fiscalização cibernética, impedindo abusos e garantindo transparência nas ações de combate ao crime.
Próximos Passos
Os próximos passos da agenda de Ronaldo Caiado rumo a 2026 incluem uma série de visitas de articulação política aos estados do Sul, Sudeste e Nordeste, com o objetivo de buscar o apoio de lideranças empresariais locais e fechar alianças com governadores que também defendem uma postura mais conservadora na segurança pública. Ele planeja utilizar eventos empresariais e assembleias legislativas estaduais como tribunas para expandir a difusão de seu modelo goiano de combate ao crime.
Paralelamente, a CNC pretende publicar um documento oficial compilando as propostas de todos os presidenciáveis ouvidos na sabatina. Esse manifesto setorial será entregue ao Congresso Nacional e aos candidatos oficiais em 2026, detalhando as demandas da classe produtiva nas áreas de segurança pública, simplificação tributária, logística nacional e incentivos ao turismo.
No Legislativo, as discussões sobre a PEC da Segurança Pública devem ganhar força no segundo semestre. Governadores aliados a Caiado prometem fazer oposição dura a qualquer tentativa do Palácio do Planalto de subordinar as polícias civis e militares estaduais às diretrizes do Ministério da Justiça, mantendo a autonomia local como principal escudo para as suas próprias políticas de segurança.
Fechamento
A segurança pública tornou-se, inegavelmente, a variável mais sensível e urgente do tabuleiro político nacional. Ao pautar o debate com o conceito de "mexicanização", Ronaldo Caiado busca retirar o tema da esfera meramente policial e alçá-lo ao patamar de segurança nacional e estabilidade econômica. As propostas apresentadas na sabatina da CNC em Brasília mostram que a disputa de 2026 terá no embate de modelos de segurança um de seus maiores divisores de águas.
Resta saber se a estratégia de focar quase exclusivamente na tolerância zero será suficiente para convencer o eleitorado nacional de que o modelo aplicado no território de Goiás é replicável em estados de proporções continentais e com crises de segurança mais complexas. A viabilidade econômica e a preservação das instituições democráticas dependerão da capacidade do Brasil de retomar sua soberania interna e garantir que a economia legítima não seja asfixiada pelo poder econômico do crime organizado.
Fontes e Referências
- Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo - CNC (https://www.portaldocomercio.org.br)
- Governo do Estado de Goiás - Secretaria de Segurança Pública (https://www.seguranca.go.gov.br)
- Tribunal de Contas da União - Relatórios sobre Custos Sociais e Econômicos da Violência no Varejo (https://tcu.gov.br)
- Fórum Brasileiro de Segurança Pública - Anuário de Segurança Pública (https://forumseguranca.org.br)
