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Desvios Milionários: Operação do MPRJ Prende Presidente do Instituto Rio Metrópole por Fraude de R$ 86 Milhões

Operação Ouroboros do MPRJ mira esquema de R$ 86 milhões no Instituto Rio Metrópole. Prisões envolvem Davi Perini Vermelho, delegado e procurador do Estado.

RB
Redação Bastidor Público
11 de julho de 2026•8 min
Rio de Janeiro1870 palavras
Desvios Milionários: Operação do MPRJ Prende Presidente do Instituto Rio Metrópole por Fraude de R$ 86 Milhões

O Que Aconteceu

No dia 9 de julho de 2026, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) deflagrou a Operação Ouroboros, uma ação coordenada que mirou um sofisticado esquema de corrupção, fraude à licitação e desvio de recursos públicos no Instituto Rio Metrópole (IRM). A autarquia estadual, responsável por coordenar o planejamento e a execução de funções públicas de interesse comum na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, foi convertida, segundo a denúncia, em um balcão de negócios ilícitos que desviou cerca de R$ 86,28 milhões dos cofres do Estado.

A ação culminou com a prisão preventiva de importantes lideranças do órgão, incluindo o presidente da autarquia, Davi Perini Vermelho, conhecido politicamente como "Didê". Além do mandatário, foram presos o delegado da Polícia Civil e diretor do IRM, Franquis Dias Nepomuceno, e o Procurador do Estado, Marcelo Lopes da Silva, que atuava na assessoria jurídica do instituto. Outros integrantes da alta cúpula administrativa também foram capturados ou denunciados, incluindo o diretor Maurício Silva Knoploch dos Santos (pai do ex-deputado estadual Alexandre Knoploch) e a gestora de contratos Amanda Íthala Santos da Paschoa.

A engenharia financeira desenhada pelo grupo investigado contava com a cooperação de empresas privadas e uma organização não governamental (ONG) de fachada. De acordo com as investigações do MPRJ, o dinheiro público era escoado por meio de contratos fraudulentos e intencionalmente vagos firmados com as empresas Engeconsult e R. Peotta. Após os repasses do IRM para essas empresas, os valores eram direcionados para o Instituto Bio, uma ONG controlada pelo grupo que servia como anteparo para a lavagem do dinheiro.

Uma das principais engrenagens operacionais do esquema era Caroline Soares Barros, que ficou conhecida na investigação como a "Mulher da Mala". O MPRJ identificou que Caroline, ex-fiscal do IRM, realizava saques sistemáticos em dinheiro vivo, em quantias milionárias, utilizando escolta armada. Esses valores em espécie eram posteriormente distribuídos aos membros da organização criminosa e a agentes públicos corrompidos como pagamento de propina. Ao todo, a denúncia engloba 11 pessoas pelos crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro, fraude em licitações e corrupção passiva e ativa.

Contexto e Histórico

Para compreender a magnitude da Operação Ouroboros, é preciso analisar o cenário político e institucional do Estado do Rio de Janeiro nos últimos anos. O Instituto Rio Metrópole (IRM) foi concebido com o objetivo técnico de integrar as políticas públicas de saneamento básico, mobilidade urbana e resíduos sólidos entre a capital e os municípios metropolitanos. Contudo, a nomeação de apadrinhados políticos para a sua direção transformou a autarquia em um foco de disputas e loteamento de cargos.

Davi Perini Vermelho, o "Didê", assumiu a presidência do IRM em 2023, após consolidar sua carreira política na Baixada Fluminense. Didê é ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal de São João de Meriti, além de ser egresso do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro. Sua ascensão ao comando do instituto deu-se sob a influência direta do grupo político do ex-governador Cláudio Castro. As conexões do presidente do IRM com a estrutura estadual colocaram o órgão sob forte vigilância de órgãos de controle e do Ministério Público.

Essa operação ocorre em um momento de extrema fragilidade para o grupo político governista no Rio de Janeiro. No início de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proferiu uma decisão histórica que declarou o ex-governador Cláudio Castro inelegível pelo período de oito anos, em razão de abusos de poder político e econômico. A perda dos direitos políticos de Castro abriu uma disputa de poder na base governista e desencadeou uma série de auditorias e investigações sobre os órgãos que estiveram sob influência direta de seus aliados mais próximos nos anos anteriores.

A captura do Instituto Rio Metrópole por interesses privados e clientelistas reflete uma prática recorrente na história recente do Rio de Janeiro, na qual autarquias estaduais e fundações públicas (como a CEPERJ e a FAETEC em governos passados) são instrumentalizadas para escoar dinheiro de impostos por meio de projetos sem fiscalização efetiva. No caso do IRM, a contratação das empresas Engeconsult e R. Peotta e o uso da ONG de fachada "Instituto Bio" são apontados pelo Ministério Público como um modelo repetido de desvio que prosperou devido à ausência de fiscalização interna e ao silêncio cúmplice de agentes que deveriam zelar pela legalidade, como o procurador do Estado denunciado.

Impacto Para a População

Os desvios de recursos públicos em larga escala no Rio de Janeiro geram consequências diretas e severas sobre a qualidade de vida da população fluminense. Os R$ 86,28 milhões que foram drenados do Instituto Rio Metrópole deveriam ter sido aplicados em projetos de integração regional que beneficiariam milhões de cidadãos, especialmente na Baixada Fluminense, região que historicamente sofre com a precariedade de infraestrutura.

A destinação original das verbas englobava obras de saneamento básico, gerenciamento de resíduos e a articulação de transportes intermunicipais. A falta desses investimentos resulta em rios poluídos, lixões clandestinos e um sistema de transporte público caótico que penaliza o trabalhador diariamente com longas jornadas de deslocamento. Quando a máquina pública é fraudada, o cidadão paga duas vezes: a primeira por meio de impostos elevados e a segunda ao ter de arcar com serviços públicos inoperantes ou inexistentes.

Abaixo, a tabela detalha como a estrutura administrativa do Instituto Rio Metrópole foi instrumentalizada para viabilizar os desvios sob investigação:

Agente ou Entidade Função Declarada Atuação no Esquema Ilícito Consequência da Investigação
Davi Perini Vermelho (Didê) Presidente do IRM Direcionamento político de licitações e liberação de pagamentos fraudulentos Prisão preventiva decretada e afastamento imediato
Franquis Dias Nepomuceno Diretor do IRM e Delegado Uso de prerrogativas do cargo para blindar o esquema e garantir influência operacional Prisão preventiva decretada e afastamento da Polícia Civil
Marcelo Lopes da Silva Procurador do Estado Emissão de pareceres favoráveis para justificar contratos vagos e sem entrega Prisão preventiva e abertura de sindicância interna
Instituto Bio (ONG) Entidade de Desenvolvimento ONG de fachada usada para receber repasses das empresas e lavar o dinheiro público Suspensão das atividades e bloqueio judicial de contas
Engeconsult e R. Peotta Prestadoras de Serviços Emissão de notas fiscais fictícias por serviços sem comprovação de entrega física Bloqueio de créditos e suspensão de contratos estaduais
Caroline Soares Barros Ex-fiscal do IRM Saque de vultosas somas em dinheiro vivo (operadora financeira / "Mulher da Mala") Prisão preventiva por lavagem de dinheiro

O desfalque financeiro na autarquia também fragiliza a saúde financeira do estado. O Rio de Janeiro encontra-se sob o Regime de Recuperação Fiscal (RRF), um acordo rígido com o Governo Federal que impõe restrições severas à contratação de servidores, reajustes salariais e investimentos básicos em segurança, saúde e educação. A revelação de que dezenas de milhões de reais foram desviados através de fraudes no IRM desgasta a credibilidade do estado perante o Tesouro Nacional, dificultando a renegociação de prazos e dívidas que poderiam aliviar a crise econômica estadual.

O Que Dizem os Envolvidos

Após a deflagração da Operação Ouroboros, as defesas dos acusados e os órgãos estaduais envolvidos manifestaram-se de forma oficial sobre as prisões e as graves acusações do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro.

A defesa do presidente afastado do IRM, Davi Perini Vermelho, o Didê, declarou em nota à imprensa que a prisão preventiva decretada contra o seu cliente é desnecessária e carece de fundamentação jurídica contemporânea. A nota sustenta que todos os contratos do Instituto Rio Metrópole sob a sua gestão seguiram os trâmites formais da Lei de Licitações e que os serviços contratados foram devidamente prestados e atestados pelas áreas técnicas competentes. A defesa informou que já impetrou um pedido de habeas corpus perante o Tribunal de Justiça para assegurar que ele responda ao processo em liberdade.

Por sua vez, a Procuradoria-Geral do Estado do Rio de Janeiro (PGE-RJ) emitiu nota oficial informando que o procurador do Estado Marcelo Lopes da Silva foi imediatamente afastado de suas funções públicas. O órgão destacou que colabora de forma irrestrita com o Ministério Público e que determinou a instauração imediata de um processo administrativo disciplinar (PAD) na Corregedoria da PGE para apurar a conduta funcional do servidor, ressaltando que não tolera qualquer desvio ético ou legal por parte de seus integrantes.

A Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro também se manifestou sobre a prisão do delegado Franquis Dias Nepomuceno. A instituição declarou que o policial já se encontrava cedido à autarquia estadual e que a Corregedoria de Polícia Civil (CGPOL) acompanha o caso de perto, tendo instaurado um inquérito administrativo que pode resultar na demissão do agente dos quadros da força policial. A defesa de Nepomuceno não emitiu pronunciamento oficial até o fechamento desta reportagem.

As empresas Engeconsult e R. Peotta, bem como os representantes da ONG Instituto Bio, não foram localizados para manifestar posicionamento oficial ou optaram por não responder aos questionamentos enviados. O espaço editorial permanece aberto para que as manifestações jurídicas sejam devidamente registradas em atualizações subsequentes.

Próximos Passos

Os desdobramentos da Operação Ouroboros seguirão caminhos judiciais e administrativos complexos nos próximos meses. O material apreendido pelos agentes do GAECO e do MPRJ durante as buscas — que inclui celulares, computadores, HDs externos e farta documentação contábil — será submetido a perícia técnica minuciosa pela Coordenadoria de Segurança e Inteligência (CSI) do Ministério Público. Os investigadores buscam identificar outros possíveis beneficiários das propinas em espécie distribuídas pela operadora do esquema.

No campo criminal, o Ministério Público formalizará a denúncia definitiva perante a Vara Criminal competente do Tribunal de Justiça. Caberá ao juiz analisar a denúncia e decidir se os acusados passarão à condição de réus em processo criminal. A manutenção das prisões preventivas de Didê e de seus comparsas dependerá da avaliação judicial sobre o risco de liberdade dos envolvidos para a instrução criminal ou para a ordem pública, visto que o grupo detinha forte poder de influência política e contava com a proteção de membros da segurança pública do estado.

No âmbito administrativo, a autarquia estadual passará por uma intervenção e por auditoria completa determinada pela Controladoria-Geral do Estado (CGE-RJ) para analisar a validade de todos os contratos remanescentes. Há a expectativa de que o governo estadual anuncie a rescisão unilateral dos contratos com a Engeconsult e com a R. Peotta, além de banir o Instituto Bio de firmar novas parcerias com a administração pública fluminense.

Fechamento

A Operação Ouroboros reafirma a persistência de esquemas de corrupção estrutural nos órgãos públicos do Estado do Rio de Janeiro, mesmo em períodos de grave crise fiscal. A derrocada de figuras proeminentes do Instituto Rio Metrópole, sob a sombra da recente inelegibilidade do ex-governador Cláudio Castro, demonstra que o controle sobre o erário fluminense ainda carece de mecanismos preventivos robustos para deter a captura de autarquias estaduais por redes de clientelismo político.

Enquanto a Justiça e o Ministério Público cumprem seus papéis repressivos, o estado do Rio de Janeiro segue imerso em incertezas políticas. Caberá à sociedade fluminense e aos novos gestores que assumirão o planejamento metropolitano garantir que órgãos com finalidades técnicas e de alto impacto social, como o IRM, não continuem a servir como meros canais de desvio de impostos e de enriquecimento ilícito de elites políticas regionais.


Fontes e Referências

  • Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) (https://www.mprj.mp.br)
  • Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ) (https://www.tjrj.jus.br)
  • Tribunal Superior Eleitoral (TSE) (https://www.tse.jus.br)
  • Controladoria-Geral do Estado do Rio de Janeiro (CGE-RJ) (https://www.cge.rj.gov.br)
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Publicado em 11 de julho de 2026 às 00:00
Fonte: https://www.mprj.mp.br
RB
Redação Bastidor Público

Equipe Editorial

Equipe de jornalistas do Bastidor Público MS dedicada à cobertura política e institucional de Mato Grosso do Sul.

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