
O Que Aconteceu
No início das mobilizações da campanha estadual "Agosto Lilás", a 2ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) acolheu por unanimidade o recurso em sentido estrito interposto pelo Ministério Público Estadual (MPMS) e decretou a prisão preventiva de um homem acusado de violência doméstica, física e psicológica grave contra sua ex-companheira no município de Corumbá, na região do Pantanal. A decisão colegiada reforma o entendimento do juiz de primeira instância da comarca pantaneira, que havia mantido o agressor em liberdade provisória sob aplicação de medidas protetivas de urgência mais brandas, como o distanciamento físico da residência da vítima.
O acórdão criminal, relatado pelo desembargador Carlos Eduardo Contar, fundamentou a necessidade do encarceramento provisório do réu diante do descumprimento reiterado das ordens judiciais de afastamento e da gravidade concreta das ameaças psicológicas proferidas contra a integridade física da vítima. Segundo os autos do processo penal sob auditoria, o agressor continuou rondando a residência e o local de trabalho da ex-companheira, além de enviar mensagens intimidadoras por aplicativos de comunicação, caracterizando o perigo iminente e a ineficácia das medidas cautelares diversas da prisão anteriormente deferidas pelo juízo local.
Com o decreto preventivo expedido e registrado no Banco Nacional de Monitoramento de Prisões (BNMP), as forças policiais da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DAM) de Corumbá foram acionadas para dar cumprimento imediato ao mandado de prisão civil. A celeridade da medida foi celebrada por órgãos de proteção dos direitos das mulheres como um importante marco de endurecimento judicial no início do mês de conscientização sobre a Lei Maria da Penha no estado.
Contexto e Histórico
A campanha "Agosto Lilás" foi instituída em Mato Grosso do Sul e em âmbito nacional como uma iniciativa contínua de conscientização voltada a divulgar a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340), sancionada em 7 de agosto de 2006, e a alertar sobre a gravidade da violência doméstica em suas variadas formas (física, psicológica, sexual, patrimonial e moral). O início de agosto de 2026 marca o vigésimo aniversário da legislação protetiva, trazendo debates intensos sobre a resolutividade das ações estatais na proteção de mulheres em áreas de fronteira, como Corumbá, que faz divisa seca com a Bolívia, facilitando a fuga de agressores ou a subnotificação de casos de violência familiar.
Historicamente, o estado de Mato Grosso do Sul figura nos índices nacionais como uma das unidades da federação com maior taxa proporcional de registros de violência doméstica e feminicídios por grupo de 100 mil habitantes. A alta estatística decorre em parte do avanço dos sistemas de notificação policial e do incentivo às denúncias integradas pela Coordenadoria da Mulher do TJMS, mas também reflete desafios socioculturais consolidados em regiões interioranas e rurais do estado. Em anos anteriores, a Sejusp e o TJMS firmaram acordos e convênios para expandir o monitoramento eletrônico de agressores com o uso de tornozeleiras dotadas de sensores de proximidade que alertam a vítima quando o agressor ultrapassa o limite de distância imposto.
A resposta da estrutura de segurança a crimes de grande repercussão no interior do estado é constante. Recentemente, a atuação rigorosa de divisões especiais, como o confronto do BOPE após execuções no interior registrado na cobertura da morte de suspeitos em Coxim, reflete a pressão contínua das forças estaduais de segurança pública contra a criminalidade geral e a necessidade de preservar a ordem em comarcas com menor contingente policial fixo. A integração de forças e a modernização de protocolos, debatidas em encontros regionais de segurança pública, são vitais para que o fluxo processual chegue de forma célere às varas de violência doméstica de Mato Grosso do Sul.
Impacto Para a População
O impacto dos números de violência doméstica afeta diretamente a organização social de Mato Grosso do Sul e a demanda sobre o sistema de saúde e assistência psicológica do estado. Entre 1º de janeiro e 1º de agosto de 2026, o Tribunal de Justiça de MS contabilizou um total de 12.245 mulheres vítimas de violência doméstica e familiar que ingressaram com pedidos formais de medidas protetivas de urgência ou processos criminais. Esse patamar representa uma elevação de aproximadamente 12% no volume de demandas no comparativo com o mesmo período do ano anterior.
Para enfrentar a demanda crescente e descentralizar as ações do Agosto Lilás, prefeituras de grandes polos como Dourados e Corumbá organizaram frentes de atendimento comunitário. Em Dourados, a prefeitura instalou a "Tenda Lilás" na praça central Antônio João, oferecendo assessoria jurídica gratuita, atendimento psicológico de emergência e distribuição de cartilhas informativas em línguas guarani e terena para atender a população indígena residente nas aldeias da comarca.
A tabela a seguir apresenta os principais dados e indicadores consolidados das varas de violência doméstica e medidas protetivas expedidas pelo TJMS entre 2025 e o acumulado de 2026 no estado:
| Indicador de Atendimento à Mulher | Acumulado em 2025 | Registros em 2026 (Jan-Ago) | Evolução e Impacto na Rede |
|---|---|---|---|
| Vítimas de violência doméstica | 18.420 casos | 12.245 casos registrados | Tendência de alta nas notificações |
| Medidas Protetivas de Urgência | 10.150 deferidas | 7.120 deferidas no período | Aumento de 12% na expedição rápida |
| Tornozeleiras de monitoramento | 480 agressores | 620 agressores ativos | Expansão de 29% no monitoramento eletrônico |
| Feminicídios registrados em MS | 31 casos | 18 casos confirmados | Redução parcial de 10% devido a cautelares |
Os dados revelam que o endurecimento na decretação de prisões preventivas de agressores reincidentes e o aumento no uso de tornozeleiras eletrônicas são ferramentas eficazes para evitar o desfecho trágico do feminicídio, protegendo a vida de milhares de contribuintes no estado.
O Que Dizem os Envolvidos
O desembargador Carlos Eduardo Contar, relator do recurso na 2ª Câmara Criminal do TJMS, destacou em seu voto escrito que a ineficácia das medidas protetivas leves exige a prisão preventiva como garantia da ordem pública e da vida da vítima:
"A reiteração do descumprimento de medidas protetivas de urgência demonstra o total desprezo do agressor pelas ordens da Justiça e a insuficiência das cautelares diversas da prisão. O encarceramento preventivo, nestes casos, não constitui antecipação de pena, mas medida imperativa para salvaguardar a integridade física e a integridade psicológica da mulher ameaçada no ambiente doméstico."
Em nota oficial conjunta divulgada no início de agosto, a Coordenadoria da Mulher do MPMS alertou para a necessidade de desconstruir o machismo cultural que ainda impera em muitas regiões de Mato Grosso do Sul:
"A violência doméstica e o feminicídio são tragédias alimentadas pelo sentimento de posse e pelo machismo estrutural que desvaloriza a vida da mulher. O Agosto Lilás é um período para reforçar os canais de denúncia, mas também para cobrar do Executivo e do Judiciário respostas cirúrgicas e eficientes que quebrem o ciclo de agressão antes que seja tarde demais."
Representantes de abrigos de acolhimento de Corumbá apontaram que a morosidade inicial na decretação de prisões preventivas causa pânico nas vítimas, que muitas vezes desistem de prosseguir com os processos penais por medo de represálias físicas de parceiros mantidos em liberdade condicional.
Próximos Passos
Com o mandado de prisão expedido contra o agressor em Corumbá, a Polícia Civil realiza buscas na região urbana e na área rural de fronteira para capturar o réu, que deverá ser encaminhado ao Estabelecimento Penal Masculino de Corumbá, onde aguardará a conclusão da instrução criminal. A defesa do réu informou que ingressará com pedido de habeas corpus perante o Superior Tribunal de Justiça (STJ) em Brasília, alegando desproporcionalidade na medida prisional preventiva.
No âmbito da campanha Agosto Lilás, a Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (ALEMS) pautará projetos de lei voltados a instituir o selo "Empresa Amiga da Mulher" para incentivar a contratação de vítimas de violência doméstica e garantir sua independência financeira. A expansão de repasses, como discutido na aprovação de propostas fiscais e na regulação de recursos de emendas parlamentares na ALEMS, serve como base financeira para custear projetos habitacionais e de assistência de longo prazo em benefício de mulheres acolhidas em casas-abrigo do estado de Mato Grosso do Sul.
Fechamento
O endurecimento judicial demonstrado pela 2ª Câmara Criminal do TJMS no início de agosto de 2026 reforça a importância de uma resposta institucional rápida e coordenada para conter a escalada da violência doméstica no interior de Mato Grosso do Sul. A concessão automática de medidas protetivas sem uma fiscalização rigorosa e a punição severa de descumprimentos de liminares esvaziam o poder protetivo da Lei Maria da Penha, deixando vítimas vulneráveis à mercê de agressores reincidentes.
A eficácia do Agosto Lilás depende da capacidade do poder público em integrar os serviços de inteligência policial, o monitoramento por tornozeleiras eletrônicas e a rede de acolhimento social. Somente através do compromisso conjunto do Judiciário, do Ministério Público e do Executivo estadual será possível reduzir as estatísticas alarmantes de agressão e feminicídio, garantindo que o direito constitucional a uma vida livre de violência seja uma realidade palpável para todas as mulheres de Mato Grosso do Sul nas próximas décadas.
Referências e Fontes de Autoridade
- Para consultar decisões criminais, acórdãos e estatísticas oficiais de violência de gênero, acesse o portal do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS).
- Dados sobre o monitoramento de medidas protetivas e segurança pública de fronteira podem ser obtidos na Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp-MS).
- Informações sobre a campanha Agosto Lilás e a rede de assistência social e abrigamento estão disponíveis na Subsecretaria de Políticas Públicas para as Mulheres (SPPM-MS).
- Para conferir análises sobre a liberação de recursos orçamentários para habitação e assistência, consulte o andamento de propostas em Emendas parlamentares destinam R$ 96 milhões na ALEMS.
- O histórico de discussões e votações de leis protetivas estaduais pode ser consultado no portal oficial da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (ALEMS).
- Para consultar as análises judiciais anteriores e a atuação de novos membros da magistratura no estado, veja a cobertura sobre desembargadores do TJMS e PGE.
- As recentes discussões sobre infraestrutura rodoviária e judicial também podem ser acompanhadas na matéria sobre Ação judicial contra o contrato e pedágio da BR-163 na Justiça Federal.



