Uma operação de busca e salvamento aquático de altíssima complexidade mobilizou o Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso do Sul (CBMMS) e comoveu os municípios da faixa de fronteira do Conesul sul-mato-grossense. O desfecho das buscas no Rio Canguery, nas imediações da ponte da rodovia estadual MS-485 — trecho que interliga os municípios de Amambai e Aral Moreira —, resultou na localização do corpo da menina indígena Jeiely Lopes Ramires, de 12 anos, moradora da Aldeia Taquapery, pertencente ao município vizinho de Coronel Sapucaia.
O acidente ocorreu quando a criança estava acompanhada de familiares sobre uma formação rochosa às margens do curso d'água. Com a umidade elevada e o aumento expressivo da vazão provocado pelas precipitações que atingiram a região sul de Mato Grosso do Sul nos últimos dias, a vítima acabou escorregando nas pedras e sendo imediatamente tragada pela força da correnteza. O episódio gerou profunda consternação nas comunidades indígenas Guarani-Kaiowá da fronteira e levou o comando do Corpo de Bombeiros a reforçar o alerta máximo sobre os perigos ocultos nos rios sul-mato-grossenses durante a atual temporada chuvosa.
A dinâmica da tragédia na MS-485 e os desafios técnicos do mergulho de resgate
O ponto onde ocorreu o desaparecimento fica próximo à ponte sobre o Rio Canguery na rodovia MS-485, um local historicamente frequentado por moradores e famílias da região entre Amambai, Aral Moreira e Coronel Sapucaia. Segundo os relatos colhidos pelas equipes de socorro junto aos familiares presentes no momento do acidente, tudo aconteceu em questão de segundos: ao pisar na superfície lisa da rocha molhada pela elevação do nível do rio, a menina perdeu o equilíbrio e caiu diretamente no canal principal de escoamento.
Acionado imediatamente após o ocorrido, o quartel do Corpo de Bombeiros Militar em Amambai deslocou viaturas de salvamento e embarcações para iniciar a varredura superficial e marginal ao longo do leito do Rio Canguery. Contudo, os militares depararam-se com um cenário hidrometeorológico extremamente adverso:
- Velocidade Crítica da Correnteza: As chuvas acumuladas nas cabeceiras da microbacia transformaram o Rio Canguery em um corredor de forte turbulência hidráulica, dificultando a estabilização de botes infláveis e o uso de cabos de segurança;
- Turbidez Total e Visibilidade Zero: O carreamento de sedimentos, argila e galhos deixou a água completamente barrenta, impedindo qualquer visualização a olho nu a partir da superfície ou das margens;
- Topografia Subaquática Rochosa: O leito do rio naquele trecho da MS-485 é caracterizado por lajes de pedra submersas, fendas profundas e desníveis abruptos que formam refluxos e redemoinhos capazes de prender objetos e vítimas no fundo.
Diante da gravidade técnica do cenário, o comando operacional do CBMMS determinou o deslocamento de uma equipe de mergulhadores especializados em resgate em águas rápidas a partir de Campo Grande para reforçar a força-tarefa no Conesul.
| Parâmetro da Operação de Salvamento | Detalhamento Técnico e Operacional (CBMMS) |
|---|---|
| Curso d'Água e Localização | Rio Canguery — ponte da rodovia estadual MS-485 (Amambai / Aral Moreira) |
| Vítima Identificada | Jeiely Lopes Ramires (12 anos), residente na Aldeia Taquapery (Coronel Sapucaia) |
| Causa Primária do Acidente | Queda acidental em formação rochosa escorregadia seguida de arraste pela correnteza |
| Efetivo Empregado | Guarnições do CBMMS de Amambai e mergulhadores especializados de Campo Grande |
| Ponto de Localização Subaquática | Cerca de 4 metros de profundidade, sob estrutura rochosa submersa |
Localização a quatro metros de profundidade e atuação da Polícia Científica
Com a chegada dos mergulhadores especializados da Capital e o emprego de técnicas de mergulho autônomo tático — modalidade em que o bombeiro avança pelo fundo do rio guiado por cabos de segurança (cabos-guia) e realiza a busca pelo tato em meio à visibilidade zero —, as equipes concentraram os esforços nos poços mais profundos formados logo abaixo das corredeiras de pedra.
Após intensa varredura subaquática sob forte pressão da água, os mergulhadores localizaram o corpo da menina submerso a aproximadamente quatro metros de profundidade, onde havia ficado retido sob uma formação rochosa no leito do Rio Canguery. A retirada exigiu manobras precisas de ancoragem para garantir a segurança dos próprios militares diante da força da correnteza.
Concluído o resgate aquático, a área às margens da rodovia MS-485 foi isolada para os trabalhos periciais da Polícia Civil e da Polícia Científica (Unidade Regional de Perícia e Identificação de Amambai/Dourados), responsáveis pelos exames necroscópicos legais antes da liberação para o velório junto à comunidade da Aldeia Taquapery, em Coronel Sapucaia. Lideranças indígenas e órgãos de assistência social do município prestaram apoio psicológico e logístico à família enlutada.
Outubro de cheias atípicas: o alerta do CBMMS para rios e cachoeiras de Mato Grosso do Sul
A tragédia registrada no Rio Canguery não é um evento isolado do ponto de vista climático neste mês de outubro de 2026. Mato Grosso do Sul atravessa uma primavera marcada por frentes frias sucessivas e acumulados pluviométricos muito acima da média histórica para o período, alterando drasticamente o comportamento hidrológico das bacias dos rios Paraná e Paraguai.
Nos últimos dias, o próprio Corpo de Bombeiros Militar e a Defesa Civil Estadual já haviam sido mobilizados em outras emergências severas provocadas pelo volume das águas no interior do Estado, incluindo a força-tarefa de resgate no transbordamento do Rio Dourados, que atingiu cota de emergência e inundou estradas rurais, e o alerta crítico emitido pelo Imasul diante da cheia atípica e do fenômeno da decoada no Rio Miranda, no Pantanal sul-mato-grossense.
Além das ocorrências em rios, o excesso de umidade e a neblina nas manhãs chuvosas também têm exigido atenção redobrada nas rodovias do Estado, onde acidentes graves mobilizaram equipes de socorro recentemente, como na colisão fatal registrada na BR-262 em Ribas do Rio Pardo.
Orientações de segurança do Corpo de Bombeiros (Telefone 193)
Para evitar novas perdas de vidas humanas em rios, córregos, pontes rodoviárias e balneários do interior de Mato Grosso do Sul, o Comando do CBMMS destaca cinco regras fundamentais de prevenção:
- Jamais caminhar sobre pedras úmidas em margens de rios: A combinação de limo biológico e respingos de correnteza reduz o atrito a quase zero, provocando quedas súbitas diretamente em canais profundos;
- Atenção ao fenômeno da "cabeça-d'água": Mesmo quando não está chovendo no ponto onde a família se encontra, tempestades ocorridas dezenas de quilômetros acima, na cabeceira do rio, podem fazer o nível da água subir mais de dois metros em poucos minutos;
- Risco oculto sob pontes rodoviárias: Pilares de pontes (como nas rodovias MS-485, MS-156 e MS-386) e paredões de pedra criam zonas de sucção hidráulica e redemoinhos invisíveis na superfície;
- Supervisão rigorosa de crianças e adolescentes: Menores nunca devem permanecer próximos a barrancos ou corredeiras sem colete salva-vidas homologado;
- Acionamento imediato do 193: Ao presenciar qualquer pessoa sendo levada pela correnteza, a orientação técnica é não pular na água sem equipamento de flutuação — o que frequentemente gera uma segunda vítima —, mas sim lançar algum objeto flutuante (galão plástico, boia ou corda) e acionar imediatamente o telefone de emergência 193 do Corpo de Bombeiros Militar.
De acordo com os boletins meteorológicos do Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima de Mato Grosso do Sul (Cemtec/MS) e da Coordenadoria Estadual de Defesa Civil, a faixa de fronteira que abrange Amambai, Aral Moreira, Coronel Sapucaia, Ponta Porã, Paranhos, Sete Quedas e Mundo Novo permanece sob influência de áreas de instabilidade atmosférica nesta segunda quinzena de outubro. A combinação de solo já saturado pelas chuvas anteriores com novas pancadas intensas faz com que o escoamento superficial deságue rapidamente nos rios Canguery, Amambai e Iguatemi, mantendo o alerta preventivo para moradores de áreas rurais, assentamentos e terras indígenas de toda a região sul do Estado.




