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Conexão Goiás: Operação Gutenberg do GAECO Alvo de Mandados de Busca em Abadiânia

GAECO-MS deflagra Operação Gutenberg em Abadiânia (GO) e outros estados, desmantelando desvio de R$ 27 milhões na compra de livros paradidáticos.

RB
Redação Bastidor Público
11 de julho de 2026•9 min
Abadiânia1748 palavras
Conexão Goiás: Operação Gutenberg do GAECO Alvo de Mandados de Busca em Abadiânia

O Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (GAECO), vinculado ao Ministério Público do Estado de Mato Grosso do Sul (MPMS), em ação conjunta com a Polícia Civil do Estado de Goiás (PCGO), deflagrou a Operação Gutenberg. A investigação colocou em evidência um complexo e ramificado esquema de corrupção, fraudes em licitações e desvio de recursos públicos federais e municipais por meio da venda fraudulenta de livros paradidáticos para prefeituras do interior. A operação realizou buscas e apreensões em residências e escritórios de fachada no município de Abadiânia, em Goiás, além de diversas outras cidades em Mato Grosso do Sul e no estado de São Paulo.

Os investigadores estimam que a quadrilha, formada por empresários do ramo editorial, advogados, lobistas e servidores públicos municipais e estaduais, desviou mais de R$ 27.000.000,00 (vinte e sete milhões de reais) dos cofres municipais ao longo de dois anos. O esquema utilizava-se da contratação de editoras com base na modalidade de inexigibilidade de licitação — ferramenta jurídica prevista em lei para casos em que o fornecedor é exclusivo, mas que foi deturpada de forma sistemática para burlar a concorrência e justificar a compra de materiais escolares com preços superfaturados.

A complexidade do esquema atingiu contornos ainda mais graves quando a investigação revelou que o grupo utilizava a regulação de vagas de exames e leitos de internação em hospitais públicos como moeda de troca política. Servidores públicos corrompidos agiam na Central de Regulação de Vagas da Saúde do Estado de Mato Grosso do Sul condicionando o encaminhamento prioritário de doentes do interior de MS à compra de pacotes literários superfaturados pelas prefeituras municipais de onde esses pacientes eram originários, criando uma engrenagem que lesava simultaneamente a educação e a saúde pública de milhares de cidadãos.

O Que Aconteceu

Na manhã de 7 de julho de 2026, equipes do GAECO de Mato Grosso do Sul e da Polícia Civil de Goiás cumpriram mandados judiciais de busca e apreensão e ordens de prisão preventiva emitidos pelo Poder Judiciário. A ofensiva policial em Abadiânia (GO) focou em endereços residenciais de empresários que mantinham empresas de fachada na região para emitir notas fiscais frias e diluir o fluxo financeiro gerado pelos contratos públicos suspeitos. Ao todo, a operação cumpriu 16 mandados de prisão preventiva e 43 de busca e apreensão, espalhados por capitais e cidades do interior dos três estados envolvidos.

Em Goiás, a movimentação policial chamou a atenção dos moradores de Abadiânia. As sedes das empresas registradas no município consistiam, em muitos casos, em pequenas salas comerciais alugadas ou mesmo residências simples que não apresentavam estoque físico de publicações educacionais condizentes com os milhões de reais recebidos em contratos públicos. Os computadores, aparelhos celulares e documentos contábeis apreendidos na cidade goiana foram imediatamente catalogados e enviados para análise pericial na sede do GAECO, em Campo Grande (MS), para subsidiar os inquéritos criminais em andamento.

As empresas sob suspeita — incluindo a Avante Comércio de Livros e Serviços e a Souza e Fanaia Comércio de Livros e Serviços Editoriais — atuavam como consórcio criminoso. Elas dividiam as áreas geográficas de influência e direcionavam as prefeituras a justificarem a singularidade de seus materiais paradidáticos para que a compra direta (sem licitação) fosse chancelada pelos assessores jurídicos das administrações municipais. Em contrapartida, servidores públicos que facilitavam a homologação dos pareceres técnicos e jurídicos recebiam propinas disfarçadas de consultorias ou transferências para laranjas.

Contexto e Histórico

A contratação de editoras de livros por inexigibilidade de licitação tem sido objeto de fiscalização intensa por parte dos Tribunais de Contas no Brasil. Pela Lei de Licitações (Lei nº 14.133/2021), a compra direta só é legalmente justificada quando o fornecedor detém a exclusividade absoluta do produto e não há possibilidade de substituição por similar de mercado. No entanto, o esquema desmantelado pela Operação Gutenberg criou uma farsa documental, onde livros comuns de alfabetização ou apoio pedagógico eram registrados com títulos e metodologias supostamente exclusivos, criados apenas para dar suporte formal à inexigibilidade de concorrência.

O nome da operação, "Gutenberg", é uma referência direta a Johannes Gutenberg, o inventor da prensa de tipos móveis, cuja tecnologia revolucionou a reprodução de livros e a difusão da escrita no século XV. A escolha do nome é irônica: o GAECO buscou evidenciar que, em vez de servirem como ferramentas de difusão de conhecimento e avanço educacional das crianças, os livros paradidáticos foram degradados e transformados em meros instrumentos de fraudagem, encobrindo um dos esquemas de corrupção mais audaciosos e nocivos da história recente das finanças públicas municipais da região Centro-Oeste.

O envolvimento de políticos de expressão regional também elevou a gravidade política do caso. O ex-prefeito do município de Fátima do Sul, Eronivaldo da Silva Vasconcelos Júnior, conhecido popularmente como Junior Vasconcelos, que também atuava como escrivão concursado da Polícia Civil e assessor de gabinete parlamentar, foi preso preventivamente por ser apontado como um dos operadores do esquema. Sua prisão acarretou o afastamento sumário de suas funções na Polícia Civil por ordem administrativa da Corregedoria de Polícia do Estado, com apreensão imediata de sua arma regulamentar e identificação profissional.

Impacto Para a População

O impacto social e financeiro dessa rede de corrupção atinge de forma devastadora os cidadãos que mais dependem dos serviços públicos essenciais. Por um lado, as escolas municipais deixavam de receber investimentos cruciais na infraestrutura de salas de aula, quadras esportivas, climatização e merenda para alimentar a aquisição de livros de baixíssima utilidade pedagógica e preços abusivos. Por outro lado, a faceta da regulação da saúde expôs o sofrimento de famílias que aguardavam meses por exames cardíacos, cirurgias ortopédicas ou tratamentos de alta complexidade.

Para a população carente de municípios do interior que dependem de leitos e cirurgias centralizadas em hospitais regionais de referência, a manipulação do sistema de regulação significava que a vida ou a morte de um paciente estava diretamente condicionada ao fechamento de contratos de compra de livros pelas prefeituras locais. O crime de concussão por parte de servidores que controlavam as vagas impôs uma barreira física ao direito constitucional à saúde gratuita.

Área de Impacto Social Consequência Direta no Cotidiano do Cidadão Mecanismo de Prejuízo Financeiro
Educação Básica Alunos recebem materiais didáticos inadequados e de baixa qualidade impressa Desvio de recursos do Fundeb que deveriam estruturar escolas e pagar professores
Saúde e Hospitais Aumento do tempo de espera na fila de transplantes, exames de imagem e leitos de UTI Regulação do Sisreg corrompida por interesses comerciais das prefeituras conveniadas
Comércio e Livrarias Editoras locais e pequenas livrarias excluídas de licitações públicas justas Monopólio artificial de empresas ligadas a testas de ferro em Goiás e São Paulo
Finanças Municipais Rombos fiscais em pequenos municípios do interior de Mato Grosso do Sul Endividamento de prefeituras para quitação de notas fiscais superfaturadas de editoras
Gestão Pública Desconfiança generalizada nas licitações e na idoneidade dos pareceres jurídicos municipais Cooptação de servidores de carreira por pagamento de propinas e favorecimentos pessoais

O Que Dizem os Envolvidos

"A Operação Gutenberg expôs um cenário criminoso asqueroso. É inaceitável que a vida e a saúde de pacientes vulneráveis que necessitam de leitos hospitalares de urgência tenham sido utilizadas como moeda de negociação mercantil para forçar gestores a comprarem livros didáticos superfaturados. A atuação do GAECO é implacável contra o desvio de verbas e a violação de direitos humanos fundamentais no interior do Estado", declarou a coordenação do GAECO durante coletiva de imprensa realizada após a deflagração da operação.

A defesa técnica de Junior Vasconcelos informou à imprensa que todas as contratações realizadas no período de sua gestão seguiram os pareceres legais exarados pela assessoria jurídica do município e pelos órgãos fiscais. Seus representantes jurídicos asseveraram que a inocência do ex-prefeito será devidamente provada no transcorrer da instrução penal e que as prisões preventivas são medidas desproporcionais que carecem de fundamentação jurídica idônea.

As empresas Avante Comércio de Livros e Serviços e Souza e Fanaia Comércio de Livros e Serviços Editoriais não emitiram manifestações formais sobre as buscas realizadas em suas dependências administrativas. Seus representantes legais não responderam às tentativas de contato de nossa redação jornalística até o fechamento desta edição, mantendo o silêncio corporativo em relação às acusações de superfaturamento e participação ativa no consórcio ilícito de inexigibilidades.

Próximos Passos

Os próximos desdobramentos da Operação Gutenberg concentram-se na análise técnica forense dos dispositivos eletrônicos e dos discos rígidos de computadores recolhidos no escritório localizado em Abadiânia (GO) e nas demais sedes corporativas em São Paulo e Mato Grosso do Sul. Peritos do Ministério Público buscam encontrar registros de comunicações e mensagens instantâneas trocadas entre os proprietários das editoras e secretários municipais de educação para confirmar a existência de um esquema pré-definido de pagamento de propinas e direcionamento de licitações.

O Poder Judiciário deve iniciar nos próximos dias as audiências de instrução dos acusados que permanecem detidos provisoriamente em unidades prisionais de segurança média. Caso as prisões preventivas sejam mantidas, as defesas devem ingressar com pedidos de Habeas Corpus perante os Tribunais de Justiça estaduais e o Superior Tribunal de Justiça (STJ), alegando excesso de prazo e desnecessidade das custódias provisórias.

O Tribunal de Contas do Estado (TCE) também abriu procedimentos de auditoria especial para analisar todos os contratos celebrados pelas editoras investigadas com as mais de 15 prefeituras envolvidas no esquema nos últimos quatro anos. O objetivo principal do TCE é quantificar a extensão exata do superfaturamento dos materiais escolares e determinar a imediata devolução dos valores desviados aos cofres públicos municipais, além de aplicar multas e restrições administrativas de contratação às empresas envolvidas.

Fechamento

A Operação Gutenberg constitui um marco regulatório importante no combate ao desvio de finalidade nas contratações públicas de serviços educacionais e de saúde nos estados de Mato Grosso do Sul e Goiás. A descoberta de que vidas humanas estavam sendo arriscadas na fila do SUS para viabilizar fraudes financeiras na aquisição de livros paradidáticos revela um nível alarmante de insensibilidade moral por parte de agentes públicos e privados corrompidos.

O fortalecimento dos mecanismos de transparência e o controle social da aplicação dos fundos constitucionais de saúde e educação são imperativos urgentes para evitar que novas organizações criminosas se infiltrem em pequenos municípios do interior usando a fragilidade institucional para enriquecimento ilícito. O desfecho da Operação Gutenberg servirá como baliza para a responsabilização criminal daqueles que transformaram o livro, símbolo maior do saber humano, em disfarce para a rapina de recursos públicos.


Fontes e Referências

  • Ministério Público do Estado de Mato Grosso do Sul - GAECO MS (https://www.mpms.mp.br)
  • Tribunal de Justiça do Estado de Mato Grosso do Sul (https://www.tjms.jus.br)
  • Polícia Civil do Estado de Goiás - PCGO (https://www.policiacivil.go.gov.br)
  • Lei de Licitações e Contratos Administrativos - Lei Federal nº 14.133/2021 (https://www.planalto.gov.br)
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Publicado em 11 de julho de 2026 às 00:00
Fonte: Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), Tribunal de Justiça de MS
RB
Redação Bastidor Público

Equipe Editorial

Equipe de jornalistas do Bastidor Público MS dedicada à cobertura política e institucional de Mato Grosso do Sul.

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