O Que Aconteceu
O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), por meio de sua principal força-tarefa de repressão à corrupção, o Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (GAECO), deflagrou no dia 7 de julho de 2026 a Operação Gutenberg. Centrada na capital, Campo Grande, a ação cumpriu 16 mandados de prisão preventiva e 43 mandados de busca e apreensão. O foco da operação foi a desarticulação de uma organização criminosa de grande porte suspeita de fraudar concorrências públicas e desviar mais de R$ 27.000.000,00 dos cofres municipais e estaduais destinados à educação e à saúde pública em Mato Grosso do Sul.
O aspecto mais grave e alarmante revelado pelos investigadores é a manipulação criminosa da fila do Sistema Único de Saúde (SUS). O grupo criminoso, que lucrava com o fornecimento fraudulento de livros paradidáticos e didáticos a secretarias municipais de educação, utilizava o poder de servidores infiltrados no Complexo Regulador Estadual (Core) da Secretaria de Estado de Saúde (SES) para coagir prefeitos do interior.
Caso as administrações municipais recusassem fechar os contratos milionários de livros escolares, os pacientes graves daqueles municípios viam suas transferências para leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) ou a autorização de cirurgias eletivas serem atrasadas ou bloqueadas propositadamente por servidores do Core. Quando o prefeito cooperava e assinava o contrato sem concorrência (por inexigibilidade), as transferências de urgência de sua respectiva cidade eram liberadas imediatamente.
Contexto e Histórico
A investigação que culminou na deflagração da Operação Gutenberg teve início a partir da análise de contratos de compra direta de livros efetuados por prefeituras de Mato Grosso do Sul. Diversos tribunais e órgãos de controle já vinham apontando a contratação reiterada de editoras por inexigibilidade sob a justificativa de exclusividade autoral de obras de alfabetização e apoio escolar. No entanto, o volume financeiro acumulado de R$ 27 milhões por serviços que apresentavam pouca ou nenhuma utilidade prática nas escolas de pequenos municípios acendeu o alerta nos promotores do GAECO-MS.
Entre os principais alvos presos na operação em Campo Grande está o coordenador de Regulação Assistencial da SES e auditor de saúde, Ed Carlo Britto Burgatt. Apontado como a peça-chave interna do esquema na área de regulação de leitos, Ed Carlo controlava diretamente as vagas do Core e comandava as retaliações ou os favorecimentos médicos às cidades do interior. A filha de Ed Carlo, Jéssyca Burgatt, dona da empresa Capital Saúde, também foi detida por suposta lavagem de capitais obtidos das construtoras e prefeituras.
No núcleo de intermediação comercial do esquema, a principal figura identificada foi a empresária Rossana Olivia Jafar (também citada como Rossana Paroschi Jafar em investigações conexas, como a Operação Lama Asfáltica e Máquinas de Lama). Ela atuava como a ponte de negociação entre as gráficas fornecedoras de livros e os prefeitos. A filha de Rossana, a médica e empresária Olívia Paroschi Jafar, sócia da Clínica Ross, também foi presa preventivamente. Outro integrante de destaque é Eronivaldo da Silva Vasconcelos Júnior (Júnior Vasconcelos), ex-prefeito de Fátima do Sul e escrivão concursado da Polícia Civil, que estava cedido e atuava como assessor parlamentar no gabinete do deputado estadual Jamilson Name na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (ALEMS). O ex-prefeito aproveitava seu trânsito político para pressionar outros prefeitos do interior a assinar as inexigibilidades contratuais.
Impacto Para a População
O impacto social do esquema da Operação Gutenberg ultrapassa em muito a órbita do dano patrimonial de R$ 27 milhões, atingindo diretamente a integridade física de cidadãos em estado de extrema vulnerabilidade médica. A quebra do critério clínico de urgência no SUS para atender a interesses comerciais ilegais representou uma chantagem contra vidas humanas. Pacientes graves de municípios do interior que aguardavam regulação para Campo Grande e Dourados viram seus quadros clínicos se deteriorarem na fila de espera por pura retaliação contra prefeitos que não compravam os livros didáticos superfaturados.
Paralelamente, os recursos da educação que deveriam custear a merenda escolar, a reforma de prédios e a melhoria dos salários de professores foram direcionados para adquirir obras de alfabetização genéricas e de baixa qualidade pedagógica, comprometendo o futuro educacional das crianças do interior. A tabela a seguir descreve como as ações da quadrilha afetaram diferentes áreas da administração pública e a população sul-mato-grossense:
| Área Afetada | Ações Criminosas Apuradas | Efeito Direto no Cidadão Sul-Mato-Grossense |
|---|---|---|
| Saúde e Urgência | Condicionamento de leitos de UTI à compra de livros didáticos. | Aumento do tempo de internação nas UPAs e riscos reais de óbito de pacientes de urgência. |
| Igualdade no SUS | Favorecimento de vagas no Core por critérios políticos. | Quebra da fila única de regulação médica e favorecimento de prefeituras parceiras do cartel. |
| Ensino Básico | Compra de material didático superfaturado por inexigibilidade. | Escolas desassistidas e falta de investimentos essenciais na infraestrutura escolar. |
| Integridade Pública | Coação de prefeitos do interior do estado de MS. | Fragilização de gestões de pequenas cidades submetidas ao suborno na saúde. |
O Que Dizem os Envolvidos
O Governo do Estado de Mato Grosso do Sul, em nota oficial, manifestou seu integral apoio às ações do Ministério Público e declarou tolerância zero a qualquer desvio ético ou de conduta na estrutura administrativa. A Secretaria de Estado de Saúde (SES) informou que determinou o afastamento imediato e o início dos trâmites de exoneração formal de Ed Carlo Britto Burgatt do cargo de coordenação reguladora, assim como de todos os servidores comissionados mencionados no inquérito policial.
A Controladoria-Geral do Estado (CGE), em conjunto com a corregedoria da SES, anunciou a instauração de uma auditoria extraordinária pente-fino no Complexo Regulador Estadual. A auditoria fiscalizará todas as transferências de pacientes e autorizações de exames nos últimos doze meses para identificar possíveis indícios de represamento intencional ou favorecimento ilegal de vagas de UTI.
O deputado estadual Jamilson Name divulgou uma nota pública na qual reiterou que não possui qualquer envolvimento com as investigações que resultaram na prisão de Júnior Vasconcelos. O parlamentar ressaltou que o ex-prefeito exercia funções meramente burocráticas em seu gabinete na ALEMS e que as denúncias de corrupção dizem respeito à rotina particular do assessor e a contratos anteriores firmados no interior, não guardando qualquer relação com a rotina legislativa da Assembleia. As defesas de Ed Carlo, Jéssyca, Rossana, Olívia e Júnior Vasconcelos informaram que se manifestarão no processo penal após terem pleno acesso às decisões do Poder Judiciário.
Próximos Passos
Os próximos passos da investigação do GAECO em Mato Grosso do Sul concentram-se na análise técnica das mídias e computadores apreendidos nos 43 endereços. Os peritos do MPMS buscarão mensagens instantâneas e registros bancários que consolidem o fluxo do dinheiro desviado, avaliando se a organização criminosa utilizou outras empresas de consultoria ou contas no exterior para ocultar os R$ 27 milhões.
A equipe de auditoria da CGE deverá emitir o relatório preliminar de fiscalização da regulação de leitos em até trinta dias. Os resultados serão compartilhados com os promotores de Justiça para comprovar de forma documental a alteração discricionária na fila única do SUS, enriquecendo a denúncia criminal.
O Ministério Público formalizará o indiciamento criminal dos 16 presos preventivos pelos crimes de fraude em licitação por inexigibilidade ilegal, corrupção ativa e passiva, peculato, associação criminosa e concussão (extorsão cometida por servidor público no exercício da função). A procuradoria estadual de MS também ajuizará ações civis por improbidade administrativa, requerendo o sequestro de bens e contas das gráficas envolvidas para garantir o ressarcimento dos recursos educacionais.
Fechamento
A Operação Gutenberg em Mato Grosso do Sul revela um nível inédito e cruel de mercantilização da administração pública, em que o direito à vida de pacientes graves na fila do SUS foi sequestrado para garantir o fechamento de contratos de venda de livros didáticos. A transformação de leitos de UTI em moeda de troca política e corporativa constitui uma grave violação dos direitos fundamentais dos cidadãos sul-mato-grossense.
A resposta célere das instituições de fiscalização e do Ministério Público do Estado de Mato Grosso do Sul é o único caminho capaz de reestabelecer a lisura e a ética no sistema público de saúde. A punição rigorosa dos servidores corrompidos no Core, dos empresários envolvidos no conluio e dos assessores políticos que facilitavam as fraudes servirá como um alerta de que a integridade da saúde e o futuro educacional das crianças do estado não podem ser convertidos em mercadorias de rapina.
Fontes e Referências
- Ministério Público do Estado de Mato Grosso do Sul — GAECO (mpms.mp.br)
- Controladoria-Geral do Estado de MS — CGE (cge.ms.gov.br)
- Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul — ALEMS (al.ms.gov.br)
