
A Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro efetuou a prisão nesta quarta-feira, 12 de agosto de 2026, de Ana Paula Lima de Souza Mariano, dona de uma clínica de estética clandestina localizada no município de São João de Meriti, na Baixada Fluminense. Ela era considerada foragida pela Justiça desde o mês de junho, após ser indiciada em investigações conduzidas pela Delegacia do Consumidor (Decon) por provocar graves lesões corporais, infecções e deformidades físicas permanentes em pelo menos 22 mulheres. As vítimas passaram por procedimentos de preenchimento e harmonização de glúteos com a substância polimetilmetacrilato (PMMA), material cujo uso em larga escala na face e no corpo é alvo de severos alertas médicos.
O marido de Ana Paula também foi preso em flagrante delito pelos agentes da Decon por desacato e favorecimento pessoal, sob a acusação de ocultar o paradeiro da foragida e prestar auxílio material para que ela se mantivesse escondida das autoridades policiais cariocas.
O Que Aconteceu
As investigações contra a clínica estética localizada no bairro de Vilar dos Teles, em São João de Meriti, ganharam força em maio de 2026, quando diversas pacientes começaram a procurar hospitais públicos da Baixada Fluminense com graves reações inflamatórias. A Decon instaurou um inquérito policial após receber relatos documentados de mulheres que apresentaram dores lancinantes, secreções purulentas e necrose de pele poucos dias após a aplicação do preenchedor químico de glúteos.
Fiscais da Vigilância Sanitária estadual e agentes da polícia do consumidor interditaram a clínica de Ana Paula Lima de Souza Mariano. Durante a inspeção de emergência no consultório, as autoridades constataram que o estabelecimento funcionava sem alvará sanitário, não possuía equipamentos de suporte básico de vida para o atendimento a choques anafiláticos e armazenava ampolas de anestésicos locais com data de validade vencida. Além disso, as agulhas e seringas descartadas não seguiam o protocolo obrigatório de coleta de resíduos infectantes.
Diante do volume de provas e das lesões deformantes atestadas pelo Instituto Médico Legal (IML-RJ), a Justiça acolheu o pedido de prisão preventiva formulado pela Decon. Após passar semanas escondida na região serrana e em Nova Iguaçu, Ana Paula apresentou-se nesta quarta-feira à 52ª DP, onde foi cumprido o mandado de prisão preventiva. Em seus depoimentos, as vítimas afirmaram que a acusada garantia estar injetando ácido hialurônico, um produto biológico reabsorvível e muito mais seguro, mas biópsias teciduais posteriores comprovaram a injeção do polímero sintético permanente PMMA.
Contexto e Histórico
O uso estético do polimetilmetacrilato (PMMA) no Brasil divide cirurgiões plásticos e dermatologistas e gera frequentes disputas legais e éticas. A substância é um gel acrílico definitivo composto por microesferas de plástico que não são reabsorvidas pelo organismo. A Anvisa autoriza o uso do PMMA apenas para pequenas correções volumétricas corporais (especialmente em pacientes com lipodistrofia decorrente do vírus HIV) e desaconselha formalmente o preenchimento de grandes volumes em mamas e glúteos.
O comércio clandestino de PMMA industrial por clínicas estéticas não autorizadas e profissionais sem qualificação em medicina proliferou na Baixada Fluminense devido ao baixo preço do acrílico em comparação com o ácido hialurônico de uso médico regulado. A realização de cirurgias reparadoras complexas para a retirada do plástico petrificado dos tecidos musculares das pernas e nádegas das vítimas é um processo doloroso que muitas vezes não consegue reverter as marcas e deformações cutâneas definitivas.
Esse caso de crime de consumo e medicina ilegal assemelha-se a outras fraudes farmacológicas combatidas pelas forças de segurança brasileiras nas últimas horas. A desarticulação de uma associação criminosa em Araras (SP) envolvida na venda de canetas emagrecedoras clandestinas demonstra como a busca por padrões de beleza rápidos impulsiona um perigoso mercado de falsificações e manipulação biológica inadequada. A circulação desses insumos, muitas vezes contrabandeados por rodovias, é combatida pelas barreiras policiais federais, exemplificada pela recente apreensão de caminhão na rodovia BR-262 com cocaína em fundo falso, comprovando as conexões e o trânsito dessas redes de distribuição clandestina que ameaçam a saúde da população.
Impacto Para a População
O impacto social da atuação de Ana Paula Mariano reflete-se na devastação psicológica e física das vítimas, em sua maioria mulheres jovens de baixa renda da Baixada Fluminense. O tratamento das infecções crônicas demanda longos ciclos de antibióticos potentes e intervenções de desbridamento cirúrgico em hospitais públicos do Sistema Único de Saúde (SUS), onerando os cofres públicos e afastando as trabalhadoras de suas atividades profissionais por meses.
Para mapear a evolução de denúncias e interdições sanitárias na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, compilamos os seguintes dados estatísticos oficiais fornecidos pela DECON-RJ:
| Indicadores de Crimes de Estética (DECON/RJ) | Casos em 2025 | Casos em 2026 (Parcial) | Danos Físicos e Clínicos Notificados | Procedimento Judicial |
|---|---|---|---|---|
| Clínicas Interditadas por Uso Irregular | 18 clínicas | 29 consultórios | Necrose, infecção, deformidade | Suspensão e cassação de licenças |
| Pacientes Lesionadas por PMMA em Glúteos | 42 vítimas | 78 denúncias | Dores crônicas e internações em UTI | Processamento criminal dos réus |
| Apreensões de PMMA Clandestino (litros) | 14 litros | 31 litros | Insumos sem certificação Anvisa | Destruição física autorizada |
| Prisões de Falsos Profissionais de Estética | 9 prisões | 16 detenções | Lesão corporal grave e óbitos | Regime fechado e processos cíveis |
O Que Dizem os Envolvidos
A delegada titular da Delegacia do Consumidor (Decon) comentou sobre o perfil da investigada e a gravidade dos fatos apurados no Rio de Janeiro:
"Ana Paula Lima de Souza Mariano agia com total desrespeito à integridade das clientes. Ela cobrava milhares de reais prometendo ácido hialurônico, mas injetava PMMA industrial, material que petrifica nos músculos e destrói o tecido das pacientes. Ela permaneceu foragida sabendo das sequelas deformantes graves causadas em 22 mulheres. A prisão preventiva da acusada e a detenção do marido por favorecimento fecham o cerco a essa clínica ilegal na Baixada Fluminense." — Direção da DECON-RJ.
A defesa técnica da esteticista presa manifestou-se afirmando a inocência de sua cliente e a regularidade dos insumos estéticos utilizados:
"Minha cliente sempre atuou pautada pela ética profissional e nega ter enganado as pacientes sobre a natureza dos produtos injetados. Todas as aplicações foram feitas mediante consentimento livre e esclarecido, utilizando produtos registrados e adquiridos legalmente. A prisão preventiva é uma medida extrema e desnecessária que a defesa reverterá no Tribunal de Justiça, provando que as complicações médicas decorreram de fatores biológicos individuais de cada paciente." — Defesa jurídica de Ana Paula Mariano.
Próximos Passos
Ana Paula Lima de Souza Mariano foi transferida para o sistema prisional de Benfica, onde aguardará a audiência de custódia da Justiça fluminense. Os investigadores da Decon agora apuram se distribuidoras de produtos médicos de fachada no Rio de Janeiro emitiram notas fiscais falsificadas para viabilizar a compra do polímero em grande escala pela acusada.
As vítimas continuam sendo submetidas a exames periciais complementares de corpo de delito no Instituto Médico Legal (IML-RJ) para subsidiar a denúncia do Ministério Público com laudos detalhados sobre as deformidades estéticas definitivas.
A Vigilância Sanitária estadual notificou a prefeitura de São João de Meriti para intensificar as vistorias em centros de estética na Baixada Fluminense para coibir a aplicação clandestina de PMMA.
Fechamento
O portal Bastidor Público continuará apurando de forma investigativa os desdobramentos criminais da bioplastia clandestina na Baixada Fluminense e a assistência médica prestada às vítimas. A regulação rigorosa da estética de grandes volumes e a fiscalização de clínicas clandestinas são fundamentais para impedir que mais pessoas tenham a saúde mutilada por procedimentos estéticos inadequados.
Antes de passar por qualquer intervenção estética invasiva, o paciente deve verificar o registro do profissional nos conselhos de medicina e a autenticidade dos produtos injetáveis na plataforma oficial da Anvisa.
Referências e Fontes de Autoridade
- Delegacia do Consumidor (DECON) - Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro
- Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP)
- Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj)
- Normas de Aplicação de Polímeros Estéticos Anvisa
- Ações do Consumidor e Prevenção de Complicações Estéticas em São Paulo



