Câmeras equipadas com inteligência artificial passaram a escanear os rostos de frequentadores da Expogrande 2026 em Campo Grande como parte de um projeto-piloto de segurança coordenado pela Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp). A tecnologia de reconhecimento facial, implantada no Parque de Exposições Laucídio Coelho, compara em tempo real as imagens captadas com um banco de dados de foragidos e pessoas com mandado de prisão pendente.
O Que Aconteceu
A Sejusp de Mato Grosso do Sul colocou em operação, durante a Expogrande 2026, um sistema de reconhecimento facial voltado à identificação de indivíduos procurados pela Justiça. O equipamento foi instalado em pontos de acesso e circulação do evento, que reúne milhares de visitantes ao longo de sua programação.
O sistema opera com câmeras de alta definição conectadas a um software de inteligência artificial capaz de mapear características faciais e cruzá-las com bases de dados policiais. Quando uma correspondência é detectada, a central de monitoramento recebe um alerta e equipes de segurança são acionadas para verificação presencial.
Paralelamente à operação na Expogrande, o governo estadual revelou que mantém conversas com a Google para estabelecer uma parceria tecnológica que permitiria expandir o reconhecimento facial para outras regiões de Mato Grosso do Sul. A informação foi publicada pelo Campo Grande News em 10 de abril de 2026 e gerou repercussão entre especialistas em segurança pública e defensores de direitos digitais.
A Sejusp coordena o projeto e conta com apoio das forças de segurança estaduais para a operação em campo. O objetivo declarado é reforçar o combate à criminalidade em grandes eventos e, futuramente, em áreas urbanas e de fronteira com alto índice de ocorrências.
Contexto e Histórico
O uso de reconhecimento facial por forças de segurança ganhou tração no Brasil a partir de experiências em estados como Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro. Salvador foi pioneira ao instalar o sistema no Carnaval de 2019, quando a tecnologia identificou um foragido por homicídio entre os foliões. Desde então, diversos estados adotaram a ferramenta em eventos de grande porte e em sistemas de videomonitoramento urbano.
Em Mato Grosso do Sul, a discussão sobre reconhecimento facial ganhou corpo com o aumento dos investimentos em tecnologia para segurança pública. O estado, que faz fronteira com Paraguai e Bolívia, enfrenta desafios específicos relacionados ao tráfico de drogas, contrabando e crimes transfronteiriços — cenário que justifica, na visão do governo, o uso de ferramentas tecnológicas avançadas.
A parceria com a Google, caso concretizada, representaria um salto qualitativo na infraestrutura de vigilância do estado. A empresa norte-americana possui expertise em processamento de imagens, computação em nuvem e inteligência artificial, recursos que poderiam ser aplicados tanto no reconhecimento facial quanto em análise preditiva de criminalidade.
No entanto, o envolvimento de uma big tech no aparato de segurança pública de um estado brasileiro levanta questões sobre soberania de dados, dependência tecnológica e os limites da vigilância estatal. A própria Google enfrentou controvérsias globais sobre o fornecimento de tecnologia de reconhecimento facial para governos, tendo anunciado em 2020 uma moratória no desenvolvimento de produtos nessa área — posição que foi flexibilizada nos anos seguintes.
Impacto Para a População
Para o cidadão que frequenta a Expogrande ou circula por áreas monitoradas, o reconhecimento facial traz implicações que vão além da segurança imediata. A tecnologia opera de forma passiva — o indivíduo não precisa consentir nem sequer saber que está sendo escaneado.
| Aspecto | Implicação para o cidadão |
|---|---|
| Segurança em eventos | Maior probabilidade de captura de foragidos em aglomerações |
| Privacidade | Dados biométricos faciais coletados sem consentimento individual |
| LGPD | Dados biométricos são classificados como sensíveis pela lei |
| Erros de identificação | Falsos positivos podem gerar abordagens indevidas |
| Expansão futura | Monitoramento pode se estender a vias públicas e transporte |
| Transparência | Cidadão não tem acesso ao banco de dados utilizado |
A taxa de erro dos sistemas de reconhecimento facial é um ponto crítico. Estudos internacionais, incluindo pesquisas do National Institute of Standards and Technology (NIST) dos Estados Unidos, demonstram que algoritmos de reconhecimento facial apresentam taxas de erro significativamente maiores para pessoas negras, mulheres e idosos. Em um estado com população diversa como Mato Grosso do Sul, que abriga comunidades indígenas, quilombolas e uma população negra expressiva, esse viés algorítmico pode resultar em abordagens policiais injustas.
O debate sobre proporcionalidade também merece atenção. A captura massiva de dados biométricos de milhares de pessoas para identificar um número reduzido de foragidos configura, para críticos, uma forma de vigilância desproporcional ao objetivo declarado.
O Que Dizem os Envolvidos
A Sejusp defendeu a implantação do reconhecimento facial como uma ferramenta moderna e eficaz de combate à criminalidade. Segundo a secretaria, o sistema opera dentro dos parâmetros legais e os dados coletados são utilizados exclusivamente para fins de segurança pública.
"A tecnologia de reconhecimento facial é mais uma ferramenta à disposição das forças de segurança para proteger a população. O sistema já demonstrou resultados positivos em outros estados e será determinante para reforçar a segurança em grandes eventos e, futuramente, em todo o estado", declarou a Sejusp em comunicado.
Organizações de direitos digitais, por sua vez, manifestaram preocupação com a ausência de regulamentação específica para o uso de reconhecimento facial pelo poder público no Brasil. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) classifica dados biométricos como sensíveis, mas prevê exceções para segurança pública — uma brecha que, segundo especialistas, precisa ser regulamentada com mais detalhamento.
A possível parceria com a Google também gerou questionamentos sobre a transferência de dados biométricos de cidadãos brasileiros para servidores de uma empresa estrangeira. Embora os detalhes do acordo ainda não tenham sido divulgados, a questão da soberania digital é central nesse tipo de cooperação.
Próximos Passos
A Sejusp deve apresentar um balanço dos resultados do reconhecimento facial na Expogrande 2026 após o encerramento do evento, incluindo o número de identificações positivas e eventuais prisões realizadas com auxílio da tecnologia.
As negociações com a Google seguem em andamento, sem prazo definido para a formalização de um acordo. A expansão do sistema para outras regiões do estado depende de investimentos em infraestrutura de câmeras, conectividade de internet e capacitação de operadores.
O Ministério Público de Mato Grosso do Sul pode ser provocado a se manifestar sobre a conformidade do sistema com a LGPD e com os direitos fundamentais dos cidadãos. A Defensoria Pública também pode atuar caso sejam registrados casos de abordagens indevidas decorrentes de falsos positivos.
No âmbito legislativo, projetos de lei que regulamentam o uso de reconhecimento facial pelo poder público tramitam no Congresso Nacional e podem impactar a operação do sistema em MS.
Fechamento
A chegada do reconhecimento facial a Mato Grosso do Sul marca a entrada do estado em um território tecnológico que mistura promessas de segurança com riscos reais à privacidade. A Expogrande 2026 serve como laboratório — e os resultados dessa experiência vão determinar se a tecnologia será ampliada ou revista.
A negociação com a Google adiciona uma camada de complexidade ao debate. Parcerias com big techs podem acelerar a modernização da segurança pública, mas exigem transparência sobre o uso dos dados, garantias de soberania digital e mecanismos de controle que protejam o cidadão contra abusos. Mato Grosso do Sul tem a oportunidade de construir um modelo responsável — ou de repetir os erros de estados que adotaram a tecnologia sem o devido cuidado.
Fontes e Referências
- Campo Grande News (campograndenews.com.br) — Reportagem sobre reconhecimento facial na Expogrande e parceria com Google, 10 de abril de 2026
- Sejusp-MS (sejusp.ms.gov.br) — Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública
- Lei 13.709/2018 — Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD)
- NIST — National Institute of Standards and Technology, estudos sobre viés em reconhecimento facial
