Deputado federal pelo PT de Mato Grosso do Sul, Fábio Trad traçou na sexta-feira (11 de abril de 2026) as linhas gerais do que pretende ser sua campanha ao governo do estado. Em reunião com cerca de 100 lideranças da federação PT-PV-PCdoB na sede da Fetems, em Campo Grande, Trad apresentou uma proposta que seus aliados resumem em uma palavra: desideologizar.
Na prática, o pré-candidato quer que a campanha petista em MS fale menos de Brasília e mais de MS. Menos de bandeiras partidárias e mais de hospitais, escolas, delegacias e estradas. A aposta é ousada para um partido que, no imaginário do eleitor sul-mato-grossense, está associado a pautas nacionais que geram resistência no interior do estado.
O Que Aconteceu
Trad discursou durante a reunião ampliada do Diretório Estadual do PT, realizada com a presença do presidente nacional do partido, Edinho Silva. Diante de dirigentes municipais, vereadores e militantes de todo o estado, o deputado federal elencou quatro eixos que pretende adotar como pilares da campanha: saúde, segurança, educação e infraestrutura viária.
A escolha dos temas não é casual. São as quatro áreas que aparecem consistentemente no topo das pesquisas de preocupação do eleitor sul-mato-grossense, independentemente de filiação partidária ou posição ideológica. Um produtor rural de Dourados e um servidor público de Campo Grande podem discordar sobre tudo — menos sobre a necessidade de estradas melhores e hospitais que funcionem.
Edinho Silva endossou a estratégia. O presidente nacional do PT reforçou que o partido busca "palanques consistentes" em todos os estados e que a candidatura de Trad em MS não será uma candidatura de marcação — como foram as duas anteriores. A meta declarada é atingir 30% dos votos no primeiro turno e levar a disputa para o segundo turno contra o governador Eduardo Riedel (PP).
A reunião também serviu para debater as diretrizes do 8º Congresso Nacional do PT e para alinhar a composição das chapas proporcionais no estado.
Contexto e Histórico
Fábio Trad carrega um sobrenome que é sinônimo de política em Mato Grosso do Sul. A família Trad ocupa espaços de poder no estado há décadas, mas em campos políticos que agora estão em lados opostos da disputa.
| Membro da família | Cargo atual | Partido | Posição em 2026 |
|---|---|---|---|
| Nelsinho Trad | Senador | PSD | Base aliada de Riedel |
| Marquinhos Trad | Vereador de CG | PSD | Ex-prefeito, base governista |
| Otávio Trad | Vereador de CG | — | Atuação local |
| Fábio Trad | Deputado federal | PT | Pré-candidato ao governo (oposição) |
A migração de Fábio para o PT representou uma ruptura com o campo político da família. Enquanto Nelsinho Trad integra a base de sustentação do governo Riedel no Senado e Marquinhos Trad atua como vereador alinhado ao establishment local, Fábio escolheu o partido que está do outro lado da trincheira.
Essa ruptura familiar no campo político é rara na história de MS e adiciona uma camada de complexidade à disputa de 2026. Nas redes sociais e nos corredores do poder, a pergunta que circula é: até que ponto o sobrenome Trad ajuda Fábio — pela tradição e pelo reconhecimento — e até que ponto atrapalha, já que parte da família está com o adversário?
O PT, por sua vez, ocupa uma posição ambígua em relação ao governo estadual. Apesar de ser formalmente oposição, o partido detém aproximadamente 25 cargos comissionados na estrutura do governo Riedel — fruto de acordos políticos que antecedem a definição das candidaturas de 2026. Essa convivência entre oposição formal e participação no governo gera desconforto interno e será um ponto de ataque dos adversários durante a campanha.
Nas duas últimas eleições estaduais, o PT lançou candidaturas ao governo que terminaram em quarto lugar, com votações inexpressivas. Os candidatos eram nomes sem projeção estadual, escolhidos mais para garantir tempo de televisão do que para disputar o cargo de fato. Com Fábio Trad, o cenário muda: é um deputado federal com mandato, sobrenome conhecido e capacidade de articulação que transcende a base petista.
Impacto Para a População
A estratégia de desideologização tem consequências diretas para o debate público em MS. Se Trad conseguir pautar a campanha em torno de temas locais, o eleitor ganha — porque obriga todos os candidatos a apresentarem propostas concretas para problemas reais.
| Tema da campanha | Situação atual em MS | O que o eleitor pode cobrar |
|---|---|---|
| Saúde | Filas em hospitais públicos, déficit de médicos no interior | Plano de ampliação de leitos e contratação de profissionais |
| Segurança | Fronteira com Paraguai e Bolívia, tráfico de drogas | Investimento em efetivo policial e tecnologia |
| Educação | Escolas estaduais com infraestrutura precária | Metas de aprendizagem e reforma de unidades |
| Infraestrutura viária | Rodovias estaduais em condições ruins | Cronograma de pavimentação e manutenção |
Para o eleitor do interior — que representa a maioria do eleitorado de MS —, a presença de um candidato competitivo da oposição significa mais promessas de investimento e mais atenção dos governantes. Municípios que hoje são visitados apenas por candidatos da base governista passariam a receber também a oposição, ampliando o leque de compromissos públicos.
O risco, do ponto de vista do eleitor, é que a desideologização seja apenas retórica. Se Trad vencer e governar com as mesmas práticas que critica — distribuição de cargos, acordos de bastidor, concessões ao fisiologismo —, a mudança de discurso terá sido cosmética. A presença de 25 comissionados do PT no governo Riedel já levanta essa dúvida antes mesmo do início oficial da campanha.
Outro ponto que afeta diretamente o contribuinte: o fundo eleitoral. Uma candidatura competitiva ao governo atrai mais recursos do fundo partidário para MS, o que significa mais dinheiro público sendo gasto em propaganda eleitoral — mas também mais debate e mais opções na urna.
O Que Dizem os Envolvidos
Fábio Trad foi enfático ao definir o tom que pretende dar à campanha:
"Minha campanha vai falar de saúde, segurança, educação e estrada. O eleitor de MS quer saber se o hospital funciona, se a escola tem professor e se a rodovia tem asfalto."
A frase, repetida em diferentes momentos da reunião na Fetems, funciona como um mantra que Trad pretende carregar até outubro. A ideia é que, ao repetir os quatro eixos à exaustão, o candidato se dissocie da imagem do PT nacional e se apresente como um candidato local com agenda local.
Edinho Silva reforçou o apoio da direção nacional:
"O Fábio tem perfil para disputar de verdade. Não viemos a MS para marcar posição. Viemos para construir um palanque consistente."
Interlocutores do governo Riedel, ouvidos pela reportagem sob condição de anonimato, minimizaram a ameaça petista. Segundo um auxiliar do governador, "o PT pode trocar o candidato e o discurso, mas não troca a sigla — e a sigla tem rejeição alta no interior". A avaliação no Palácio do Guanandi é de que Riedel mantém vantagem confortável e que a estratégia de Trad esbarra na resistência estrutural ao PT no agronegócio.
Próximos Passos
- A convenção estadual do PT, prevista para julho ou agosto de 2026, oficializará a candidatura de Fábio Trad ao governo.
- O partido definirá nas próximas semanas a composição da chapa proporcional, com candidatos a deputado federal e estadual distribuídos pelas maiores cidades do estado.
- Trad deve iniciar uma agenda de visitas ao interior de MS a partir de maio, focando em municípios onde o PT tem presença fraca.
- A questão dos 25 cargos comissionados do PT no governo Riedel precisará ser resolvida antes do início oficial da campanha — manter os cargos enquanto faz oposição é uma contradição que os adversários explorarão.
- O 8º Congresso Nacional do PT definirá as diretrizes nacionais que orientarão a campanha em MS e nos demais estados.
Fechamento
A aposta de Fábio Trad em desideologizar a campanha petista em MS é, ao mesmo tempo, pragmática e arriscada. Pragmática porque reconhece que o PT, com seu discurso tradicional, não tem como vencer num estado dominado pelo agronegócio e pela centro-direita. Arriscada porque pode alienar a militância de base, que espera do partido bandeiras mais combativas. Entre o pragmatismo eleitoral e a identidade partidária, Trad terá de encontrar um equilíbrio que nenhum candidato petista conseguiu em MS até hoje.
Fontes e Referências
- Campo Grande News (campograndenews.com.br) — "Fábio Trad quer desideologizar campanha ao governo pelo PT", 11 de abril de 2026
- Tribunal Superior Eleitoral (tse.jus.br) — Dados de filiação partidária e federação PT-PV-PCdoB
