Mato Grosso do Sul consolida-se ano a ano como um dos principais motores do agronegócio nacional, quebrando recordes sucessivos de produtividade em suas lavouras de soja. No entanto, um estudo detalhado divulgado pela Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja/MS) traz uma importante reflexão sobre os rumos da economia do estado: quase 50% de todo o grão colhido nas fazendas sul-mato-grossenses ainda é exportado na sua forma primária, como commodity em grão cru. O levantamento aponta que, apesar do funcionamento de seis plantas esmagadoras de grande porte no estado, há um vasto espaço para a expansão da industrialização local para agregar valor à cadeia de produção.
A retenção e o processamento de parte dessa safra no próprio território estadual são vistos por especialistas em economia rural como a chave para transformar o perfil econômico de Mato Grosso do Sul nas próximas décadas. A industrialização da soja não apenas gera empregos industriais qualificados, mas também impulsiona outras cadeias produtivas fundamentais, como a fabricação de rações para a pecuária intensiva e a consolidação do polo produtor de biocombustíveis e biodiesel.
O Que Aconteceu
O estudo da Aprosoja/MS mapeou toda a cadeia de escoamento e destinação da soja produzida em Mato Grosso do Sul nas últimas safras. Os dados demonstram que, embora a capacidade de processamento industrial do estado tenha crescido com a instalação de novas plantas esmagadoras no leste e sul do estado, o volume absoluto de grãos colhidos cresceu a taxas ainda mais elevadas, gerando um excedente que é escoado diretamente para portos de exportação, principalmente Paranaguá (PR) e Santos (SP), além da rota hidroviária do Rio Paraguai.
Atualmente, o estado conta com seis esmagadoras de grande porte que processam a soja para transformá-la em farelo de alta proteína e óleo degomado. No entanto, o estudo demonstra que a capacidade de processamento atual absorve apenas metade da produção estadual de soja, forçando o restante a ser comercializado sem industrialização. A Aprosoja argumenta que políticas públicas de atração de investimentos industriais, combinadas com incentivos fiscais e melhorias na infraestrutura ferroviária e portuária do estado, são fundamentais para atrair novas multinacionais do setor de processamento de grãos.
Contexto e Histórico
A expansão da cultura da soja em Mato Grosso do Sul ocorreu de forma acelerada a partir do final do século XX, com o desenvolvimento de tecnologias de correção de solo do Cerrado desenvolvidas pela Embrapa e a adaptação de variedades de sementes a climas mais quentes. Cidades como Maracaju, Sidrolândia, Ponta Porã e Dourados transformaram-se em polos de produção agrícola de padrão mundial, atraindo pesados investimentos privados em maquinários de ponta e técnicas de plantio direto na palha.
Apesar da alta produtividade do campo, o perfil de exportação primária de Mato Grosso do Sul é uma característica histórica que o estado tenta alterar por meio de programas governamentais, como a Rota de Desenvolvimento da Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação). A industrialização da soja dentro do estado esbarra em desafios tributários nacionais — como a Lei Kandir, que isenta de ICMS a exportação de produtos primários e semi-elaborados —, o que muitas vezes favorece o envio do grão cru para o exterior em vez de processá-lo localmente, exigindo políticas estaduais criativas para compensar essa distorção competitiva.
Impacto Para a População
A ampliação da capacidade de industrialização do grão em Mato Grosso do Sul gera impactos econômicos diretos e indiretos que beneficiam a sociedade sul-mato-grossense como um todo. A instalação de novas indústrias esmagadoras atrai investimentos na ordem de centenas de milhões de reais em infraestrutura de construção civil, metalurgia e automação industrial, abrindo vagas de trabalho técnico de qualidade e elevando a renda média das famílias nas cidades do interior do estado.
No plano agropecuário, o aumento do esmagamento de soja no estado eleva a oferta local de farelo de soja, que é o principal insumo proteico para a formulação de rações utilizadas na suinocultura, avicultura e piscicultura. Com farelo abundante e mais barato devido à redução de custos de frete interestadual, as cooperativas de MS conseguem reduzir seus custos operacionais de produção de carne de frango e suína, tornando a proteína animal do estado altamente competitiva no mercado internacional e barateando os preços finais para o consumidor doméstico.
| Destinação da Safra de Soja em MS | Percentual Estimado de Destino | Impacto Econômico Principal |
|---|---|---|
| Exportação Direta (Grão Cru) | Cerca de 50% da safra estadual | Sensível à oscilação das cotações em Chicago |
| Processamento Local (Esmagamento) | Cerca de 50% da safra (6 plantas) | Geração de farelo, óleo degomado e biodiesel |
| Produção de Farelo para Ração | Destinado ao mercado interno e exportação | Base para suinocultura e avicultura em MS |
| Produção de Óleo para Biodiesel | Integração com o polo de biocombustíveis | Redução da pegada de carbono regional |
| Retenção de Valor Fiscal (ICMS) | Maior nas cadeias industrializadas | Incremento na arrecadação do estado de MS |
O Que Dizem os Envolvidos
O presidente da Aprosoja/MS destacou a importância estratégica do estudo para o planejamento econômico de Mato Grosso do Sul. "Nossos produtores fazem um trabalho de excelência da porteira para dentro, com produtividade e sustentabilidade exemplares. O nosso desafio atual como estado é avançar na cadeia de valor da industrialização. Processar o grão aqui dentro significa reter a riqueza gerada pela terra, criando empregos industriais e fortalecendo as contas do governo do estado", pontuou o dirigente do agronegócio.
Economistas do setor consultados concordam que a atração de novas esmagadoras exige melhorias urgentes na infraestrutura rodoviária e ferroviária do estado. A ativação definitiva da Malha Oeste e o avanço da Nova Ferroeste são vistos como cruciais para que as indústrias de farelo e óleo consigam escoar seus produtos processados de forma barata em direção aos portos exportadores e grandes centros de consumo nacional.
Próximos Passos
A Aprosoja/MS apresentará os dados do estudo em reuniões técnicas com a equipe econômica do governo do estado e diretores de cooperativas agrícolas regionais, com o objetivo de formular um plano estadual de incentivos ao processamento de grãos. O plano buscará desenhar mecanismos fiscais que tornem atrativa a ampliação das indústrias de esmagamento existentes e estimulem a instalação de novas fábricas de biodiesel no sul do estado.
Espera-se também o avanço de negociações para a atração de grupos industriais multinacionais que planejam construir novas plantas no Cone Sul e na região leste do estado, aproveitando a oferta estável de matéria-prima das safras de soja e milho consolidadas no território de Mato Grosso do Sul.
Fechamento
O estudo da Aprosoja/MS sobre a exportação e o processamento de soja joga luz sobre um debate essencial para o futuro de Mato Grosso do Sul: a necessidade de superar o perfil de economia exportadora de commodities primárias e avançar na agregação de valor industrial. O processamento de metade da safra de soja dentro do estado representa um avanço importante, mas demonstra que o potencial de crescimento do agronegócio e da indústria local ainda é extraordinário.
A consolidação de novas esmagadoras e a consequente expansão das cadeias de proteína animal e biocombustíveis são caminhos naturais para assegurar que a riqueza gerada pelas lavouras de soja se traduza em desenvolvimento social, melhoria de renda e robustez fiscal para todos os cidadãos de Mato Grosso do Sul nas próximas décadas.
Fontes e Referências
- Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja/MS) — Relatório e Estudos de Cadeia Produtiva
- Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc-MS)
- Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul)
- Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) — Dados de Safras e Estoques de Grãos
- Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA)
