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Virada climática no Pantanal e cone-sul: Embrapa e Defesa Civil monitoram choque térmico de 12°C em rebanhos e impactos na germinação de lavouras em MS

Massa de ar polar atípica para o fim de outubro derruba termômetros na madrugada deste sábado e coloca pecuaristas e agricultores em alerta máximo em mais de 40 municípios sul-mato-grossenses; especialistas orientam medidas emergenciais de manejo.

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Por Redação Bastidor Público
Publicado em 31 de outubro de 2026 às 00:00
7 min de leitura
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Pesquisadores da Embrapa Agropecuária Oeste e agentes da Defesa Civil Estadual monitoram sensores meteorológicos e avaliam áreas de pasto e lavouras atingidas pelo choque térmico em MS — Imagem criada por inteligência artificial.
Pesquisadores da Embrapa Agropecuária Oeste e agentes da Defesa Civil Estadual monitoram sensores meteorológicos e avaliam áreas de pasto e lavouras atingidas pelo choque térmico em MS — Imagem criada por inteligência artificial.

A madrugada deste sábado, 31 de outubro, amanheceu sob condições meteorológicas altamente incomuns em Mato Grosso do Sul. A entrada vigorosa de uma massa de ar polar de origem continental fez os termômetros despencarem de máximas que superavam os 34°C na tarde anterior para marcas inferiores a 11,8°C em municípios do cone-sul e da borda pantaneira, provocando uma amplitude térmica brusca de mais de 22°C em menos de um dia.

O choque térmico acendeu o sinal de alerta entre pesquisadores da Embrapa Agropecuária Oeste, da Embrapa Pantanal e da Coordenadoria Estadual de Defesa Civil de MS. Equipes de campo foram mobilizadas nas primeiras horas da manhã para avaliar os impactos agronômicos e veterinários desse evento climático atípico, que atinge diretamente duas das maiores forças motrizes da economia sul-mato-grossense: a pecuária extensiva de corte e as lavouras de soja recém-semeadas.

Com estações meteorológicas automáticas registrando vento constante de até 45 km/h que intensifica a sensação térmica de frio para patamares próximos a 7°C, técnicos e produtores rurais adotam protocolos emergenciais de manejo para mitigar prejuízos e resguardar a sanidade dos plantéis.


O perigo da hipotermia bovina: o que diz o monitoramento da Embrapa

Em regiões pantaneiras de Corumbá, Aquidauana e Porto Murtinho, bem como nas pastagens consolidadas de Ponta Porã, Amambai e Iguatemi, a principal preocupação das entidades do agronegócio reside na ocorrência de morte por choque térmico em rebanhos bovinos.

O gado zebuíno (predominantemente Nelore), que compõe mais de 80% do rebanho sul-mato-grossense de mais de 18 milhões de cabeças, é geneticamente adaptado a climas tropicais e suporta com facilidade temperaturas acima de 40°C. No entanto, quando submetido a quedas térmicas repentinas acompanhadas de chuva fria e vento ("frio úmido"), o animal perde calor corporal em velocidade superior à sua capacidade metabólica de termogênese.

Pesquisadores da Embrapa alertam que lotes de bezerros em fase de desmama, novilhas em primeiro parto e vacas em lactação são os grupos mais vulneráveis à hipotermia aguda e à pneumonia enzoótica. As orientações técnicas divulgadas em boletim emergencial incluem:

  1. Retirada de Áreas Abertas: Deslocamento imediato dos rebanhos de invernadas limpas e descampadas para piquetes que possuam capões de mata nativa, quebra-ventos naturais ou relevos que ofereçam abrigo contra rajadas de vento sul;
  2. Suplementação Energética: Oferta de ração concentrada rica em amido e grãos integrais, fornecendo calorias rápidas para estimular a fermentação ruminal e a produção interna de calor;
  3. Vistoria Sanitária Diária: Rondas a cavalo ou em quadriciclos para identificar animais apáticos, que apresentem tremores musculares ou dificuldade de locomoção, procedendo ao aquecimento manual com cobertores térmicos e soro glicosado morno.

O impacto nas sementes de soja: germinação em compasso de espera

Se na pecuária o desafio é preservar a vida do rebanho, na agricultura o foco está voltado para o subsolo. Mato Grosso do Sul atingiu recentemente um ritmo acelerado de plantio, superando a metade de toda a área estimada para o ciclo 2026/2027, conforme destacado na reportagem sobre como o plantio da soja disparou para 52,6% da área em MS na corrida contra o tempo antes da virada climática nos 79 municípios.

Nas áreas onde as plantadeiras lançaram as sementes há menos de 48 horas em Maracaju, Dourados, Rio Brilhante e Naviraí, o resfriamento brusco do solo pode desacelerar ou paralisar o processo biológico de germinação.

De acordo com agrônomos da Embrapa Agropecuária Oeste, a semente de soja exige temperaturas de solo entre 20°C e 30°C para absorver água e emitir a radícula com vigor. Quando a temperatura da camada superficial desce para menos de 16°C em solos encharcados, a respiração do embrião é inibida.

"A semente fica parada no solo por quatro a seis dias a mais do que o normal. Nesse período de dormência forçada pelo frio, ela se torna um alvo extremamente vulnerável para o ataque de patógenos como Rhizoctonia, Fusarium e Pythium, que proliferam em ambientes frios e úmidos. O produtor precisa acompanhar talhão por talhão para avaliar se haverá necessidade de replantio localizado", explica o boletim agronômico.


A ação preventiva da Defesa Civil e a logística de assistência

A Coordenadoria Estadual de Defesa Civil (Cedec-MS) emitiu alertas via SMS e canais digitais para todos os 79 municípios do estado, mantendo equipes de prontidão para prestar apoio a comunidades rurais isoladas, aldeias indígenas e assentamentos da reforma agrária.

A articulação operacional inclui o envio de lonas, cobertores e kits de assistência humanitária para prefeituras do cone-sul, onde a população mais vulnerável enfrenta dificuldades com a queda abrupta da temperatura. A Defesa Civil também atua em conjunto com a Secretaria de Infraestrutura para desobstruir pontes e estradas vicinais afetadas pela instabilidade climática, dialogando com as frentes de trabalho que atuam nas rodovias estaduais após o gargalo logístico e a estiagem fluvial no Rio Paraguai transferirem milhões de toneladas para os eixos rodoviários de MS.

A tabela a seguir resume as menores temperaturas registradas nas estações meteorológicas automáticas de MS na manhã deste sábado:

Município Temperatura Mínima Sensação Térmica Velocidade do Vento Setor Econômico Mais Pressionado
Ponta Porã 10,4°C 6,8°C 42 km/h Lavouras de soja em germinação
Amambai 11,1°C 7,5°C 38 km/h Milho safrinha e pastagens
Dourados 11,8°C 8,2°C 35 km/h Pecuária de corte e horticultura
Porto Murtinho 12,3°C 9,1°C 44 km/h Rebanho de cria no Pantanal
Campo Grande 13,2°C 10,4°C 30 km/h Rede hospitalar e avicultura

O desafio na avicultura e suinocultura: aquecimento e consumo de biomassa

Para além do rebanho bovino e das lavouras de grãos, a virada climática impõe uma operação de guerra nos galpões industriais de avicultura e suinocultura concentrados no vale do Rio Dourados, em Sidrolândia e em São Gabriel do Oeste. Com plantéis de alta densidade que exigem controle termoneutro estrito (temperaturas internas entre 28°C e 32°C para pintinhos de primeiro ciclo), cooperativas integradas precisaram acionar caldeiras a lenha e aquecedores a gás ininterruptamente.

O consumo de biomassa e gás liquefeito de petróleo saltou mais de 80% nas últimas horas para impedir a perda de lotes por asfixia decorrente de aglomeração térmica. Médicos veterinários que prestam assistência técnica às granjas ressaltam que a oscilação térmica desregula o sistema imunológico das aves, elevando a conversão alimentar e tornando imperativo o ajuste imediato na velocidade dos exaustores e na ventilação por pressão negativa.


A vigilância sanitária da Iagro contra surtos respiratórios

Paralelamente aos trabalhos da Embrapa, os fiscais agropecuários da Iagro intensificaram o monitoramento dos corredores sanitários intermunicipais para coibir o transporte de animais febris ou com sinais clínicos de pasteurelose pneumônica. A recomendação da agência estadual é de que os produtores suspendam o embarque de cargas vivas durante a madrugada, priorizando o transporte nas horas centrais do dia, quando a insolação reduz o estresse calórico reverso.

A vigilância epidemiológica também foi reforçada nas propriedades de fronteira seca com o Paraguai, onde o trânsito vicinal e a proximidade com áreas alagadas exigem inspeções constantes para evitar que a queda de imunidade dos rebanhos facilite a disseminação de enfermidades endêmicas. A atuação coordenada entre cooperativas agroindustriais e o serviço veterinário oficial assegura que Mato Grosso do Sul mantenha seus elevados padrões de sanidade animal mesmo diante de choques climáticos extremos.


Projeções para o início de novembro: quando o calor volta

A meteorologia indica que o pico da massa de ar polar atuará sobre o território de Mato Grosso do Sul ao longo de todo este sábado e da madrugada de domingo, 1º de novembro. A partir da tarde de segunda-feira, a alta pressão subtropical deve deslocar-se para o oceano Atlântico, restabelecendo a circulação de ventos quentes vindos da região Amazônica.

A previsão é de que as temperaturas máximas voltem a atingir os 30°C já na próxima terça-feira, devolvendo o dinamismo habitual ao campo e permitindo que as máquinas retomem o plantio em velocidade total.

Até lá, a atuação integrada entre ciência agronômica, prontidão de defesa civil e resiliência dos produtores de Mato Grosso do Sul continuará sendo o fator determinante para transformar um evento climático hostil em uma demonstração prática de competência e governança preventiva no coração produtivo do Brasil.

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Equipe de jornalistas do Bastidor Público MS dedicada à cobertura política e institucional de Mato Grosso do Sul.